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Categoria - Outras histórias O grande jogo - Parte I Autor(a): Luiz Gonzaga Simões Garcia - Conheça esse autor
História publicada em 19/10/2011
Era uma vez um menino que morava em um bairro distante do centro da cidade, era um bairro tranquilo, suas ruas de terra vermelha eram largas e ladeadas por casas simples com cerca de taquara, telhado vermelho e coloridos jardins. Era um lugar bem alto. Da janela da sala via todas as tarde o sol se por, sumindo sorrateiramente atrás das montanhas azuladas tingindo de dourado a quina das nuvens brancas. As noites eram muito escuras e as estrelas brilhavam tanto que pareciam pingos de fogo, pregadas em um manto de veludo negro.

A lua, a velha lua com sua luz tênue e amarelada iluminava sem preconceito o caminho dos poetas, dos boêmios, dos bêbados e dos ladrões. Nas manhãs de primavera os pássaros com seus cantos melodiosos e em alegre revoada anunciava ao mundo o início de uma nova alvorada. Era um espetáculo maravilhoso e hoje ele se arrepende de não tê-lo desfrutado por mais vezes.

La em cima, quase no fim da rua, no ponto mais alto do bairro ele lembra que ficava a igreja de São Judas Tadeu, e um pouco mais adiante o "Grupo Escolar Jardim Penha". Eram dois galpões de madeira ladeados por uma larga varanda bem no meio de um imenso terreno. Neste Grupo Escolar estudava toda a meninada do bairro, inclusive ele, seu irmão Bira e sua prima Sonia. Também trabalhava como servente o seu querido e saudoso pai. E foi neste palco que iniciou e terminou esta singela história.

Recorda que terminava o ano de 1957, um ano difícil e repleto de dificuldades para todos. Reforma da escola, mudança de professores e gripe asiática, fora os problemas naturais e corriqueiros, dos quais ninguém escapa. Mas enfim o fim do ano chegou, e com ele as temidas e rigorosas provas. Naquele tempo era assim, ou passava direto ou repetia e tornava a fazer novamente a mesma serie.

Pois bem, encerradas as provas, fim das obrigações, nada de contas de dividir, nada de verbos, nada de lição de casa, agora era só pegar o diploma e partir para o curso de admissão ao ginásio. Tudo era festa, o clima e o cheiro das férias estavam no ar. A alegria de quem passou de ano se misturava com a tristeza de quem repetiu e o resultado era uma bagunça e uma festa só. Sem traumas e sem rancor, sem exibicionismo e sem arrogância, ninguém se sentia privilegiado nem perseguido. Eram todos iguais, repetentes e não repetentes.

Recorda-se o menino, que em um dos últimos dias de aula, logo depois do intervalo para o recreio, entrou na sala o diretor da escola, o senhor Eliseu Simões. Todos se levantaram rápidos silenciosamente. Após pedir para que todos se sentassem foi logo dizendo:
-“Muito bem garotos, prestem atenção. O fim do ano está chegando, logo estarão todos de férias. Quero fazer um convite a todos vocês... Quem sabe jogar bola levanta a mão”

E lógico que a classe inteira levantou os braços.
- “O que eu quero dizer a vocês é o seguinte: fui procurado pelo diretor do Grupo Escolar do Bairro de Santa Clara que desafiou os formandos da nossa escola para um jogo de futebol. Vocês aceitam?”.

A classe inteira gritou.
- “Sim!”.
- “Mas tem uma coisa... Só vai jogar quem passou de ano”.

Metade da classe permaneceu animada, a outra metade era só desanimo e choradeira. E o diretor continuou:
-“Todos poderão participar do treino. Mas prestem atenção, só os melhores irão jogar. Os demais poderão ir como torcedores”.

Como aquele acontecimento era uma novidade todos acabaram vibrando e a alegria imperou na classe toda:
-“Amanhã a tarde será realizado o treino no campinho aqui em frente à escola. Os professores Vitório e Airton escolherão os jogadores para o jogo que será no dia 12 próximo. Todo mundo lá amanha ás três horas...”.

Despediu-se e foi para outra sala.

Nem mesmo o diretor saiu e bagunça tomou conta da classe. Todo mundo falando ao mesmo tempo, e todos já se julgando titular do time. O professor Vitório entendendo a euforia e a ansiedade da garotada achou melhor dispensar a classe. Mas antes deu um último lembrete... Como se fosse necessário:
- “Não se esqueçam, amanhã todo mundo aqui em frente à escola às três horas”.

Em segundos a classe ficou vazia.... E o zunzum da molecada foi diminuindo, até que sumiram pelas esquinas do bairro.

No dia seguinte às três horas da tarde, todos estavam lá, uns de sapato, outros de chuteira, outros de alpargatas, alguns de chinelo e a maioria... Descalços.

Começa o treino. A maior correria, onde esta a bola estavam todos, o que faltava de técnica sobrava em palavrões, o que faltava de habilidade sobrava em tombos, pontapés e reclamação, o que faltava em organização sobrava em garra, em esforço em vontade de mostrar o melhor, mesmo não sabendo nada. O professor Vitório estava atento, tirava um e colocava outro, tirava outro e colocava um. Quem entrava sorria, quem saia chorava...

E assim foi quase toda à tarde. E la pelas cinco horas o professor Airton encerrou o treino. E como não poderia ser de outra forma saiu todo mundo reclamando. Uns porque não jogaram nada, outros porque se cansaram muito. Na beira do campo os professores Vitório e Airton preparavam a lista dos titulares. A ansiedade e curiosidade da garotada estava na flor da pele. Todos queriam saber quem seriam os selecionados. O professor Vitório pediu silencio e com uma folha de papel nas mãos anunciou em voz alta e firme os nomes, ou melhor, os apelidos dos onze "convocados":

-“Vocês prestem atenção que eu vou dizer os nomes dos onze titulares, os que não estiverem na lista irão como reserva e torcedor. Os nomes são: 1- João “Bicudo”, 2 – “Neguitinho”, 3- “Alemão”, 4 – “Mochila”, 5 – “Come meia”, 6 – Bira, 7 – “Galinzé”, 8 – “Jacaré”, 9 – “Bororó”, 10 – “Meio Quilo” (capitão), 11 “Topete”.

E lógico que a choradeira foi geral, pois todos se achavam titulares... Mas conversa daqui, conversa dali explica daqui explica dali, os professores com muita habilidade, muito cuidado e sobre tudo com muita autoridade e respeito conseguiram contornar a situação e em poucos minutos a ordem foi instalada. Em seguida foram todos dispensados com o aviso:
- “Dia 12, quinta feira todos na porta da escola ás oito horas da manhã. Iremos de caminhão para o campo do Santa Clara”.

Chegou o dia do grande jogo. A escola parecia mais bonita, bandeira desfraldada, alto falante tocando músicas, muito movimento, e os poucos dias afastados dela já provocavam saudade. A garotada estava toda reunida no pátio, alem dos onze titulares havia mais uns vinte ou trinta alunos ansiosos para subir na carroceria do caminhão, aquilo era uma novidade sem limites para todos.

Ouvimos a recomendação da professora Áurea:
- “Todos bem quietinhos e muito comportados aí em cima, o senhor Leandro, o professor Vitório e o professor Airton irão ai com vocês para que não façam bagunça e não provoquem nenhum acidente. Muito cuidado e muito juízo a todos”.

Ouvimos também quando o diretor, que estava dentro da cabine falou com o motorista do caminhãozinho, um elegante Chevrolet Gigante:
- “Senhor Muzunga vamos, bem devagarzinho para que ninguém se machuque”.

E assim fomos, pelas ruas do bairro, subindo ladeiras, virando esquinas, atravessando pontes lentamente pelo asfalto da Avenida São Miguel Paulista até chegar a Santa Clara, na beira do campo, um campo imenso, com traves, redes, com marcação da grande e pequena área. As beiradas eram toda de grama escura e o meio de terra fina batida.

Ninguém daquela turma tinha pisado em um campo de futebol daquele tamanho. O professor Vitório chamou os onze titulares e mais uns seis ou sete jogadores para ficarem na reserva. Distribuiu os calções e as camisas para os titulares. O calção era branco, a meia era azul e a camisa listrada, em azul e vermelho. Era um belo uniforme, pena que eram muito grandes, pois pertencia a um time de adultos do professor Airton.

De repente se ouviu um apito. Era o juiz que chamava os jogadores para iniciarem a partida. Os jogadores do nosso time, que eram considerados os maiores e mais espertos da nossa escola, pareciam tão pequenos e tímidos perto dos adversários. O jogo começa...

O adversário, de uniforme verde, demonstrava mais organização e um melhor controle de bola. Deviam jogar juntos há muito tempo. O adversário vinha para cima de nós a todo instante. O professor Airton, que era um dos técnicos, gritava na beira do campo:
- “Olha a marcação aí... Cerca o número dez Bororó. Não deixa passar. Vai nele Neguitinho...”.

Continua...


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Publicado em 25/10/2011 E ai mano ... Se não me engano foi neste jogo que o bira arrancou a unha do dedão, mas vamos aguardar para saber o final da hisória .. Um abração Enviado por Leandro - leburu@bol.com.br
Publicado em 21/10/2011 Hei Gonzaga,tenho certeza que este jogo foi 0X0 , foi pros penalti terminou empatado e foi decidido na moeda,vou ficar so no aguardo,correto! continuuua. Enviado por airton luiz ribeiro - airtonribeiro@ig.com.br
Publicado em 20/10/2011 Parabéns pela vibrante narrativa! Senti-me na arquibancada!
Abraço
Célia
Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - rccsimonato@hotmail.com
Publicado em 20/10/2011 Pelo andar da carruagem deve ter tomado uma sonora goleada Enviado por marcos Tadeu da Silva - mtadeu05@gmail.com
Publicado em 19/10/2011 Luiz Gonzaga, parabéns pela excelente narrativa! Afinal, você foi escalado? risos. Um abraço! Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 19/10/2011 AINDA CONTINUA? SERA QUE ESSE JOGO TERMINA ANTES DA COPA DE 2014?(RISOS?) Enviado por joao claudio capasso - jccapasso1@hotmail.com
Publicado em 19/10/2011 Gostei desse jogo! Vou ficar aqui na arquibancada esperando a continuação e batendo um papo com o Capasso e com o Asciu! rsrsrsrs... Abraço Enviado por Hugo Morelli - hugo.morelli@hotmail.com
Publicado em 19/10/2011 E eu que não gosto de novela, vou ter que ficar aguardando o próximo capitulo para saber como terminou esse jogo. Isso não se faz Luiz, só vou dar meus parabéns quando esse jogo terminar, e só de ruim vou escrever em capítulos também, por enquanto aceite o meus PA.(continua...) Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
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