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Categoria - Outras histórias “Lembra quando os camelôs eram os reis das calçadas?” Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 31/10/2011

Vamos falar um pouco sobre a “camelotagem” em São Paulo. Para isso vamos passear um pouquinho pelo passado da cidade, ver como eram as coisas no passado; depois vamos voltar para o presente. Vamos viajar, eu e alguém. Esse alguém, se você quiser, pode ser você mesmo. Topas? Que bom! Então vamos lá!

Os camelôs já fizeram por merecer poesias, já foram poetados por muita gente, por repentistas nordestinos que fazem ponto no Largo de São Bento (camelôs da voz e da música), já foram interpretados por humoristas no rádio e na televisão, já se “auto-glorificaram”, chegaram até a ter associações sindicais. Billy Blanco falou sobre eles em sambas; alguns camelôs venceram na vida por sua simpatia, outros pela verve, muitos pela persistência e insistência para vender seus produtos. E, já que eu falei em poesia, poemas e poetas, ouçamos Manuel Bandeira:

“Os Camelôs”
Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam box
A perereca verde que de repente dá um pulo, que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma
Alegria das calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
-"O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai buscar
um pedaço de banana pra eu acender o charuto. Natu-
ralmente o menino pensará: Papai está malu...”

Outros, coitados, têm a língua atada.

Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino ingênuo de demiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos da meninice...
E dão aos homens que passam preocupados ou tristes uma
lição de infância."

Quando o "Grande Tuberculoso" Manoel Bandeira “poemisou” essa homenagem aos camelôs dos anos 30 e 40, a “camelotagem” como profissão, pelo menos para o povo da época, era uma profissão honrada e almejada por muitos, mas exercida por aqueles poucos que tinham o dom (dom, queda, jeitão, bossa...) da palavra e do convencimento para exercê-la.

(Um pequeno desvio em nosso raciocínio, mas já retornaremos ao assunto). Alguém:
- “Êpa! Que desrespeito é esse? Chamar o famoso poeta pernambucano de 'O Grande Tuberculoso'? Aonde nós vamos parar? Será que nem mesmo os mortos ilustres conseguem ser respeitados nesta Terram Papagalorum?”

Eu:
- "Peraí, meu!... Eu só estou fazendo minhas às palavras de Agripino Griecco, um defunto finíssimo, crítico literário, cronista, gramático, escritor de livros, que tinha certa idiosincrasia em relação ao poeta”.

Agripino chamava Manoel Bandeira de "tuberculoso profissional", "O Grande Tuberculoso", ou dizia: "Curar tuberculose na Suiça, até eu queria ser tísico", "Só vou acreditar nessa tuberculose com o resultado do exame de escarro" ou "Quando ele morrer quero ler o Atestado de Óbito", ou ainda: "Desde 1917 que ele vem enchendo o saco com essa história de tuberculose...", porém, tudo poderia ser ou estar combinado entre os dois, vai saber, inimigos mortais é certo que eles não eram!

(Feitos os esclarecimentos que se faziam necessários, continuemos o que tínhamos proposto, o que é verdadeiramente nosso escopo)

Nossa cidade de São Paulo sempre foi um campo de trabalho para a honrada classe dos camelôs e isso vem ocorrendo desde os tempos da colônia. Provas? Quer dar um passeio na cidade de São Paulo do passado? Quer? Ótimo! Então vamos dar um passeio pela atual Rua da Quitanda nos primórdios do século XIX. Pronto? Vamos!

É de manhã, 9h ou 10h de uma manhã de sol. Saímos da Sé e seguimos pela Rua do Rosário dos Homens Pretos em direção ao Mosteiro de São Bento. Rua sem calçamento e com uma série de casas de dois andares, janelas e portas fechadas, mas não olhe assim, descaradamente, para as janelas das casas. Por trás das venezianas estamos sendo observados... Percorremos uma distância pequena, 60 metros quando muito e entramos no Beco da Cachaça (que não se perca pelo nome); nos dias de hoje, o Beco da Cachaça corresponderia ao primeiro quarteirão da Rua da Quitanda, entre a XV de Novembro e a Álvares Penteado; é agora, preste atenção, olhe bem, estamos entrando na Rua do Cotovelo ou Rua Torta (em contraponto à Rua Direita) que mais tarde, ainda neste seculo XIX vai se chamar oficialmente Rua da Quitanda. Notou que é um trecho de rua bem movimentado, muita gente vendendo coisas? Cacofonia, gente apregoando seus produtos ao mesmo tempo:
- “Olha a pamonha de milho verde! Quentinha, gostosa, sinhá... Amendoim torradinho, vai levá, Sinhá? Vai levá, Sinhô?”.

O tripeiro anunciando seus produtos fresquinhos:
- “FíííígMcotó, FííííígMcotó” (fígado e mocotó!).

E as negras de ganho vendendo suas quitandas:
- “Cocada branca e queimada, balas de côco, goiabadas na palha de milho, compotas, beijús, cabelos de anjos, doce de leite, torrões de rapadura, roletes de cana...”.

(Quitanda: doces, compotas, bolachas... O termo 'quitanda' vem sendo usado no interior de São Paulo e Minas Gerais desde 300 anos atrás...).

A Rua do Cotovelo, graças a seu comércio, diríamos que informal, passou a se chamar Rua das Quitandas, dando origem à Rua da Quitanda dos dias atuais... Ah, a influência ds camelô no crescimento e desenvolvimento de nossa cidade! Quem diria heim?

Mas, agora, vamos avançar um pouco mais no tempo, até porque já estão nos olhando com desconfiança, inclusive aquele gendarme bigodudo postado ali na esquina da Rua de São Bento, ele não está com cara de bons amigos; avancemos pois.

São Paulo, anos 40: coincidentemente o sol continua brilhando, o mesmo sol que brilhava na Rua do Cotovelo no século passado. Grupo de pessoas curiosas em pleno Viaduto do Chá. Vamos nos aproximar. Olha lá! Um homem de terno, chapéu, engravatado, até que elegantemente trajado, falando e falando sem parar:
- “... Senhores e senhoras, estou apresentando, pela primeira vez em São Paulo, esta moderna cidade, a maior invenção da ciência norte americana dos últimos anos: este incrível aparelho aqui na minha mão, é um amolador de facas, um abridor de latas e um cortador de vidros, tudo ao mesmo tempo; não é preciso prática nem habilidade! Qualquer pessoa pode se utilizar desse maravilhoso aparelho sem dificuldade, amolando facas em sua própria casa, abrindo aquela lata da goiabada que as crianças adoram, ou cortando vidro no tamanho que quiser para trocar uma vidraça quebrada, para cortar garrafas e, quem sabe, ganhar um dinheirinho fazendo e vendendo abajures e enfeites de mesa... Nas melhores casas do ramo, os senhores e senhoras iriam pagar 5.000$000 por essa maravilha. Aqui, comigo, o preço é de apenas 1.000$000. Um mil réis e nada mais, e ainda levam de brinde um pacotinho de barbatanas pra colarinho... Podem chegar, senhores, eu tenho um estoque grande dessa maravilha... Um aqui para o cavalheiro... A senhora vai levar? Isso madame, bota o seu marido para amolar as facas, cortar vidros...”

Vamos caminhar mais um pouco; vamos até a Rua Direita, até o Largo da Misericórdia. Mais um aglomerado, ali em frente ao chalé da loteria federal "A Quinela de Ouro", mais um camelô e sua conversa hipnotizante:
-“ ... E essa pomada cura qualquer tipo de dor interna ou externa. Um produto feito pelos índios do Amazonas; a pomada que estou trazendo para os senhores é feita com o óleo extraido da gordura do poraquê, o peixe elétrico do rio Amazonas. A cura para suas dores vem de longe, do meio da mata fechada, feita pelos índios da tribo dos burubutangues, os únicos que sabem os segredos das curas... 300$000, trezentos réis aqui com o papai; na Drogasil, ali em frente, não adianta procurar que não vai achar, é um produto exclusivo que só eu estou autorizado pelo pagé a vender aqui em São Paulo... Trezentos réis a latinha e ainda leva uma amostra de perfume Chanel nº 5 para dar para a sua noiva ou noivo, esposa ou esposo... Vamos levar, cavalheiros, que está acabando... Um aqui para o cavalheiro, a senhora vai levar dois? Dois eu faço por 500 réis... Vamos pessoal, que 'tá acabando..."

Os camelôs eram pessoas/figuras simpáticas, reis da comunicaçao, falantes, bem humorados, mas estavam caminhando para a extinção, eles sabiam, a cidade sabia.

A partir dos anos 70 os camelôs começaram a perder espaço para os "marreteiros" que montaram barracas, verdadeiras lojas que vendiam (vendem) de tudo, desde os produtos mais simples até ferramentas, eletro-eletrônicos - rádios, gravadores, TVs portáteis...- e, em alguns casos, até que frequentes, bebidas alcóolicas e entorpecentes (na esquina das ruas Sete de Abril e Conselheiro Crispiniano havia uma pessoa com deficiência física que "vendia" frutas em uma carrocinha; até aí, tudo bem! No entanto, policiais descobriram que o "pobre" marreteiro comprava produtos roubados por "trombadões" que agiam na Rua Barão de Itapetininga e na Pça da República, além de vender "crack" para viciados da área...).

Pois é, camelôs, camelôs ali na batatolina, não existem mais. São Paulo sofreu um processo de caruarização que está difícil de resolver. Ruas e praças bloqueadas por marreteiros, pessoas andando no meio das ruas, disputando espaço com motos, carros e ônibus, porque as calçadas estão entupidas de barracas, de caixotes... Pelo menos os marreteiros não estão vendendo armas de fogo (será?), mas existem barracas no centro da cidade que vendem armas brancas, facas, punhais e “coisas que tais”...

Melhor voltarmos para os anos 30, 40, 50, uma época melhor, quando nossa cidade era mais calma, mais limpa, quase sem violência, um tempo em que se podia andar pela cidade, parando aqui e ali para ver/ouvir os camelôs:
-“... É o brinquedo ideal para as crianças de todas as idades. Direto dos Estados Unidos da Norte América, o brinquedo que agrada a todos, papai, mamãe, vovô e vovó... Qualquer criança brinca e se diverte, não é preciso prática nem habilidade. Nas Lojas ds Dois Mil Réis o ioiô custa 1.500$000 réis, mas eu estou vendendo por apenas 500 réis... Vamos levar pessoal, 'tá acabando...”.

Sinceridade! Não dá vontade de ficar definitivamente neste passado?

Seja sincero!


E-mail: ignacio.netto@bol.com.br

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Publicado em 03/11/2011 Ignacio concordo plenamente com voce e digo mais , pois tinha esquecido desse pormenor .Nos anos 50 esse corintiano hoje rico e famoso: o Sivio Santos foi um deles .Simpatico e bem falante como o e ate hoje.Abracos Felix Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 02/11/2011 Mais uma ótima crônica, Sr. Ignácio. Parabéns. Como o senhor mencionou, os camelôs já foram interpretados por vários humoristas, e penso que a melhor de todas foi a de Zé Trindade em “O Camelô da Rua Larga”. Abilio Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@logoseng.com.br
Publicado em 02/11/2011 João Felix, "tátudobem", tudo bonitinho? Pois é, meu amigo, no texto eu frizo bem a diferença entre camelô e marreteiro; os culpados por tudo aquilo que vem acontecendo no Brás são marreteiros ou ambulantes (que não deambulam). Os camelôs não existem mais... Enviado por joaquim ignacio de souza netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 01/11/2011 Amigo Ignacio muito boa a sua cronica que remonta aos tempos de nossos avos, eu particularmente lembro nos anos 50 quando eles durante a noite toda tomavam conta da Rua Direita e a gente encontrava tudo o que podia imaginar , e isso acontecia todas as noites.Concidentemente com a publicacao do teu texto, na semana passada houve aquela revolta dos camelos nas ruas do bairro do Braz que trouxe tanto prejuizo aos comerciantes locais. Parabens pela cronica muito boa Abracos Felix Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 01/11/2011 Caro Inácio. Um impecável texto. Você redige com maestria um assunto muito peculiar e interesante. Realmente os camelôs de outrora traziam um encantamento singular nas ruas e praças de nossa cidade ainda bucólica, no tempo do mil réis. Lembrei-me de um tempo mais recente no viaduto do Chá na década de sessenta onde se comprava "meia duzia de barbatas" por um cruzeiro apenas. Abraço Grassi Enviado por J Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 31/10/2011 Delicioso passeio por um tempo que não vivi, mais que deu pra sentir nos seus míninos detalhes. O camelô que tinha autorização do pagé foi demais... rsrsrs... como sempre merecedor de aplausos Ignácio. Abraço! Enviado por Hugo Morelli - hugo.morelli@hotmail.com
Publicado em 31/10/2011 Parabens pela otima narrativa
Alexandre
Enviado por ALEXANDRE RONAN DA SILVA - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 31/10/2011 Narrativa embriagadora, Ignácio, como num jogo de basquete, vc domina a bola, recua, avança, para, distribui e se coloca pra encestar o meis poético ensaio que já lí. Mesmo tratando-se de uma "profissão" desqualificada pelos proceres do CNT e que, nas suas mãos ela, enobreceu. Parabéns, Joaquim.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 31/10/2011 Joaca do Previda !..Como vai ?. Aqui é o agora Jaboticabalense chico Lemmi que vos fala. Para dizer que novamente tú destes um show de literatura de entretenimento. Vosso texto alegrou-me, eu que estava meio caidão porque havia acabado de assistir o programa do Datena onde só presenciei coisas pesadas..Todavia, repito, vosso texto fez-me ver que na vida ainda existem muitas coisas maravilhosas...E viva o Tricolor paulista.!! Enviado por Xico Lemmi - francisco.lemmifilho@yahoo.com
Publicado em 30/10/2011 Ignacio, saiba que "NÃO REQUER PRÁTICA NEM TÃO´POUCO HABILIDADE" para comentar mais este impecável texto de sua lavra.
Quando "office-boy", sempre que não estava transportando valores da empresa, eu adorava parar na frenyte de um camelô e apreciar sua verve, sua facilidade de falar. Aplausos para você por mais este impecável texto.
Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
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