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Categoria - Outras histórias Pato n'Água, herói dos cortiços do Bexiga, meu Robin Hood Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 17/11/2011

Silêncio
O sambista está dormindo
Ele foi, mas foi sorrindo
A notícia chegou quando anoiteceu
Escolas
Eu peço o silêncio de um minuto
O Bexiga está de luto
O apito de Pato n"Água emudeceu

Poucos conheceram a fundo a pessoa do “Pato n'Água”, apitador do cordão Vai Vai, grupo carnavalesco criado às margens do não tão caudaloso "córgo" da Saracura, no nunca por demais assaz louvado bairro do Bexiga. È vero...

O "Da Lagoa" era uma figura estranhíssima, solitária no meio de uma multidão, mais alto que a média dos negros do Brasil, - com quase 2 metros de altura - talvez por uma ascendência Masai ou Zulu, vai saber! A sua presença, apenas a sua presença, metia medo. Acho que ele nunca riu ou sorriu na vida, e nem chorou. E ele era bravo, meu Deus, como era bravo! Eu nunca vi ou soube de alguém de tão maus bofes como ele, juro por Deus, quero morrer cego se estiver mentindo e olha que eu não costumo exagerar em minhas afirmações, já disse isso mais de dez milhões de vezes!

Oswaldinho da Cuíca, misto de policial e sambista, figura importante do burocratizado carnaval de nossa Paulicéia, certa vez disse:
- "... Eu nunca falei com o Pato... Quando eu o via vindo na calçada, atravessava a rua e ia prá outra... Toda vez que eu via ele, alguém estava sendo espancado... Não dava prá "bater uma caixa" com ele, não tinha diálogo (e nem monólogo, não tinha nada, a fera era caladona).”

A primeira lembrança que eu tenho do Pato é uma lembrança boa, embora tudo tenha começado de maneira assustadora, para não dizer apavorante. Vou contar...

Acho que tinha eu meus 5 anos quando minha mãe, a D. Zezé, colocou um “Getulinho” em minha negra mãozinha (o “Getulinho” era uma moedinha de 20 centavos de Cruzeiro que nos anos 40 estava substituindo a moeda de 200 réis) e disse:
- "... Vai lá no 'seu' Marciglio e compra dois dentes de alho. Vai logo que eu preciso fazer o arroz e não dá prá desperdiçar o carvão... Vai logo... Corre... Corre...” - (é verdade, “dois dentes de alho!” Não havia dinheiro para uma cabeça)

O empório do 'seu' Marciglio ficava na Rua Ruy Barbosa, esquina com Rua Fortaleza e tinha portas para as duas ruas; era um lugar escuro, frio. Vendia de tudo, desde querosene a agulhas e linhas; de bacalhau à mortadela italiana cortada à faca em grossas lascas e fatias; de arroz, feijão a granel a veneno para rato, uma festa!

Naquele dia havia um pessoal encostado ao balcão bebendo cerveja e cachaça, fazendo "dispesa di barcão", no dizer dos vagolinos da época. Reconheci alguns: Nêgo Testa, Tininho, Vando, Liquinho, Boca de Barro, Jamico, Bilico e a fera Pato n'Água. Bebiam em silêncio como se estivessem cumprindo um ritual, enchiam a caveira metodicamente. Eu, que não era bobo nem nada, fui para a outra ponta do balcão:
- “'Seu' Marciglio, me dá dois dentes de alho, por favor?”
- “Fala prá sua mamma que 'io' no vendo mais alho aos poucos. Tem que levar uma cabeça...”.
- “Mas eu só tenho duzentorréis...”
- “Intó num leva, caspite...”

Foi aí que a coisa pegou no breu. Com seu andar gingado de urubu malandro, o Pato veio até onde eu estava, colocou uma mão que pesava uma tonelada em meu ombro, encarou o velho comerciante e boquejou, com voz de trovão, um vinco nada simpático na testa:
- "Argum pobrema co neguinho? Qualé o parangolé, intaiâno?".
- “Ele quer comprar alho, mas não tem dinnaro, 'seu' Pato...”.
- "Num tem pobrema, vende assim mesmo, e vende uma cabeça... Duzentos réis dá e sobra prá pagar... Vai lá moleque, ele vai vendê procê! Óia aqui, 'seu' Marciglio, imbruia um pacotinho de rebuçados tamém! 'Cê' gosta de doce, num gosta?”
- “Gosto...”.
- “'Qué' leva mais arguma coisa, um guaraná, uma 'manzibir'?”
- “Não senhor... Brigado”.

E foi assim que minha mãe conseguiu temperar o arroz naquele dia... Mas confesso que fiquei com medo, se não molhei nem borrei minha calça, agradeço a Nossa Senhora Achiropita que segurou minha barra...

O 'seu' Marciglio? Bem, nem eu nem ele nunca comentamos o acontecido; e ele também não cobrou o extra, embora o risco de infarto agudo de seu miocárdio deva ter aumentado alguns pontos a partir daquele dia...

Uma história sobre o 'Da Lagoa': Futebol, batuque comendo solto à margem do campo do Éden Liberdade que ficava entre a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio e a Rua Vergueiro. O Boca Junior do Bexiga vai cumprir mais uma partida "amistosa" contra seu maior rival, o Éden Liberdade. As margens do campo estão lotadas de torcedores,cavalarianos da Força Pública - dezenas deles - fazem o policiamento. É um domingo de festa que vai terminar mal, infelizmente.

Um gol do Éden, gozação, insultos. Pato n'Água se irrita e invade o campo seguido por dezenas de torcedores. O tempo fecha. Pauladas, rabos de arraia, bandas, cabeçadas sem grampear, gente com o 'zinco' na mão, negaças. Os policiais à cavalo vão para cima do Pato em um galope desenfreado, espadas desembainhadas. Pato 'fica pequeno' (se agacha, desvia), o golpe de espada não o atinge.

O “meganha” retorna, vem rápido, vai empinar o cavalo sobre o Pato. Não teve tempo! Pato n'Água dá uma voadora e derruba cavalo e cavaleiro com espada e tudo. Lógico que o jogo não teve prosseguimento... Foi uma correria total; naquele tempo existia uma mata que começava na Rua Paraíso e se estendia até a Rua Condessa de São Joaquim, uma mata fechada e em seu interior corria o riacho do Itororó, hoje, tudo aquilo, toda aquela exuberância, transformou-se na Avenida 23 de Maio. Por ali o pessoal fugiu, tanto os libertinos quanto os bexiguentos...

Derrubar um cavalo com uma voadora, meu Deus...

Durante anos, o Pato n'Água comandou o batuque do cordão da Vai Vai, mudou de agremiação algumas vezes à medida que ia envelhecendo, mas sempre voltava para o Bexiga, nem que fosse para assistir aos ensaios na Saracura. O gênio irascível o acompanhou até o fim da vida; violento, morreu violentamente em uma época de esquadrões de extermínio, esquadrões da morte, de violência política da ditadura.

Pato n'Água foi o fundador não-oficial da Gaviões da Fiel, fazia parte do corpo de segurança pessoal do presidente do Corinthians (não, não era o Matheus, mas não vou citar o nome do cara...), que, diga-se de passagem, andou tomando umas bordoadas do próprio guarda-costas... (- “...que é prá deixá de sê forgado... Nóis qué titro!..”).

Sua morte nunca foi muito bem explicada: foi abordado por uma viatura da Rota e no dia seguinte seu corpo foi encontrado em uma lagoa em Suzano, simples assim.

Naquele dia o Pato estava endinheirado, recebera o FGTS do Corinthians. Seus préstimos foram dispensados após o presidente ter recebido alguns “catufes” da fera. Se tem dinheiro, "vamos às mulheres", malandragem! Moeda é redonda que é prá rolar!

Geraldo Filme esteve com ele durante todo o dia e boa parte da noite antes de sua morte... Uma vez lhe perguntei o que, verdadeiramente, tinha acontecido, mas o grande sambista desconversou... Achei melhor não insistir; muitas coisas estranhas aconteciam naqueles anos de chumbo de Fleurys, de DOPS de DOI-Codis...

Pato n'Água, a cara do Bexiga dos anos 40 até os 60... Parece que ainda escuto aquela voz de trombone:
-"Que qui tá me oiando? Vai querê tira retrato, seu estácio embandeirado?”.

Melhor correr!...


E-mail: ignacio.netto@bol.com.br

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Publicado em 20/12/2011 Sempre tive curiosidade para saber detalhes sobre Pato nágua. Agora fiquei satisfeito.

Obrigado.

José Sabino Bassetti
Enviado por José Sabino Basseti - sabinobassetti@hotmail.com
Publicado em 21/11/2011 Uma figura folclorica, Pato N'água deu um colorido a mais nesse saudoso Bixiga, muito bem retratado por vc, Ignácio. Nestes anos de pós-guerra, todos os bairros tinham seus "patos", quebrando a rotina de suas valentias. Na realidade, as vezes eram reações de vidas difíceis, sem objetivos e interesses. Parabéns, Joaquim, belo texto.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 20/11/2011 Joaquim, gosto da Vai-Vai, das histórias do Bixiga, e ainda gosto mais quando contadas por você, parabéns. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 20/11/2011 Pato n´Água lendário valente foi cantado em prosa e verso por Plinio Marcos. Apreciei muito o seu texto. Parabéns e o abraço do
Mancini
Enviado por Mancini - d-mancini@uol.com.br
Publicado em 18/11/2011 Esses esquadrões da morte ainda fazem vitimas até hoje. Já li historias sobre o Pato,e elas relatam que era um conquistador de cabrochas
Bela historia. Alexande
Enviado por Alexandre Ronan da Silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 18/11/2011 Arrasou!!! Muito bom. Sua escrita nos leva á vivência dos fatos.
Sabe, sobre os dois dentes de alho, é uma coisa que as vezes fico me perguntando, tudo naquele tempo era difícil,apertado mesmo assim eramos tão felizes. Minha mãe me mandava na venda buscar meio litro de leite, meio quilo de arroz ou feijão e dava, ninguém reclamava de fome.
Parabéns pelo texto.
Abraço.
MC
Enviado por mary clair - clairperon@hotmail.com
Publicado em 18/11/2011 Ignacio....menino!!!!! que alegria , que bela recordação de um tempo ao qual conheço os personagens somente pelos nomes e apelidos, mas que passaram por esta terra e são sempre lembrados desta forma alegre com a qual voce nos passou atravez deste maravilhoso texto...Parabéns amigo. Enviado por orlando francisco gonçalvecs - orlandofranciscogoncalves@yahoo.combr
Publicado em 17/11/2011 Existem escritores, neste site, que não consigo fazer comentário de 1ª (1ª vez). Quando termino de ler... estou completamente embebida pelo texto que não consigo colocar no computador as palavras elogiosas que ele merece. Este é o motivo de, hoje, fazer o meu 1º comentário. Belíssimo! Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 17/11/2011 "Nóis qué titro!" Só rindo mesmo. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 17/11/2011 O Pato n'Água foi uma daquelas figuras que marcaram o bairro do Bexiga, das figuras verdadeiras, "chão-a-chão". Nunca se auto-promoveu; o Vai-Vai foi sua luta, fez parte de seus domínios. Nunca procurou câmeras de TV ou microfones de rádio (e nunca foi procurado pelos meios de comunicação, em contra-partida!), para deitar falação imitando um falso sotaque italianado. para se enaltecer ou enaltecer o Bexiga. Nunca foi procurado por políticos para fotos em campanhas eleitorais (aliás, creio que maioria deles não tinha a menor noção de quem ele era). O Pato, assim como 99,9% dos moradores do Bexiga, no tempo em que o bairro era BEXIGA e não BIXIGA, procurava sobreviver com os empregos ou esquemas da época, morando nos porões, cortiços e vilas do bairro, bem distante dos bacanas da r. dos Ingleses, dos Franceses e ruas da parte rica e remediada do que consta nos mapas da prefeitura como Bela Vista...
O que ele fazia da vida? Não sei e nem quero saber... O Pato n'Água? Pato n'Água era o verdadeiro BExiga, o Pato n'Água era História e, se vivo, não teria lugar no atual bairro cenográfico do BIXIGA.
Ignacio
Enviado por joaquim ignacio de souza netto - ignacio.neto@bol.com.br
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