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Categoria - Outras histórias O circo no Tatuapé Autor(a): Ludovina Maximo - Conheça esse autor
História publicada em 29/11/2011
Nasci em São Paulo, no bairro Tatuapé. Muito pequena eu já vivia cantando e ouvindo muito radio. Gostava de imitar as cantoras da época, Carmen Miranda, Araci de Almeida, Dircinha e Linda Batista eram as minhas favoritas. E sonhava um dia seguir esse caminho. Meus pais me incentivam a cantar porem de jeito nenhum, aprovavam a ideia de um dia eu vir a ser uma cantora profissional. Isso seria um escândalo, pois naquela época o artista era marginalizado.

O meu bairro sempre foi ponto de parada de circos e parques de diversões. Morávamos na Rua Triunfo (hoje Rua Pedro Berengarde) em frente à estação da Central do Brasil, Quinta Parada e paralela a Rua Antonio de Barros, que é uma rua grande e onde havia muito espaço livre, ali os circos e parques de diversão se instalavam.

Era a diversão que tínhamos e toda a vizinhança lotava todos os eventos. Os moradores da redondeza eram em sua maioria estrangeiros, portugueses, italianos, espanhóis, também havia de outras nacionalidades porem em menor proporção. Quase todos se conheciam.

Como os circos sempre iam e voltavam os seus integrantes acabavam por fazer amizades com os moradores. Quando chegavam alugavam cômodos nas casas vizinhas. Ali ficavam morando durante a temporada que sempre se prolongava por mais de um mês. A programação era sempre bem variada, com uma parte de atrações, como palhaço trapézio e outras atrações do gênero. A segunda parte era a apresentação de peças de teatro, bem tradicionais, muito bem vindas e também muito bem apresentadas, todos gostavam e prestigiavam os programas do circo.

As crianças filhas dos artistas brincavam na rua com as outras do bairro e logo se tornavam amigas. Um dia uma delas comentou que iria ter uma Hora da Peneira no circo e que qualquer um podia se apresentar. Eu me entusiasmei muito, mas minha mãe jamais iria permitir. Minha amiguinha circense me animava e dizia:
-“Vem comigo, você se inscreve e depois conta para ela. Ela vai permitir”.

Pensei, pensei e quando dei por mim, já estava me inscrevendo. Com muito jeitinho contei para minha mãe. A primeira reação foi terrível, achei que ia levar uma surra, eu nunca apanhei, eu era uma criança obediente. Minha mãe se acalmou, aceitou e ate me ensaiou, ela também cantava muito bem, principalmente fados, pois era portuguesa, com certeza. A musica escolhida foi “A valsa número um”, sucesso do momento, gravada por Orlando Silva.

Enfim chegou a noite da apresentação. O circo lotado. Eu e minha família (que era bem grande) estávamos todos ali, na geral (que era mais barato). Eu tremia tanto que achavam que achavam que na hora iria desistir. Mas não, ao ouvir meu nome na voz do apresentador subi no palco e acompanhada pelos músicos que também eram calouros, cantei e fui muito aplaudida por todos, eu estava emocionada, ate chorei.

O resultado me favoreceu com o segundo lugar. Os músicos ficaram em terceiro lugar.
Meu pai não estava presente, ele era motorista de ônibus da linha Penha-Praça da Sé, ao terminar seu turno foi a um bar no centro da Penha, uma praça onde os bondes da linha faziam a volta. No bar, uns músicos tocavam e comemoravam a sua classificação no circo, dizendo que a segunda classificada fora uma menina. Meu pai perguntou se eles sabiam o nome dela, um deles se lembrou dizendo meu nome e foi assim que ele ficou sabendo dos meus quinze minutos de sucesso, que parou por ai, mas valeu como lembrança das minhas peripécias no Tatuapé.


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Publicado em 01/12/2011 Lu, sua história tem muita coisa parecida com as que eu fazia. Não perdiamos uma peça no circo-teatro: E o céu uniu dois corações; Inês de Castro etc. Gostoso lembrar e parabéns pelo sucesso como cantora! Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivetteg.moreira@gmail.com
Publicado em 29/11/2011 MORAVA NA QUERIDA PENHA, LEMBRO BEM DOS CIRCOS NA REGIÃO DA RADIAL LESTE, TEMPOS BONS, ABRAÇOS Enviado por RUBENS ROSA - RROSA49@YAHOO.COM.BR
Publicado em 29/11/2011 O circo na Barra Funda pode ser visto montado na esquina da Rua James Holland com a Rua Cruzeiro, numa área comprada depois pela Transmotécnica, usando o www.geoportal.com.br em foto de 1958. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 29/11/2011 Ludovina que história linda e que belas lembranças. Pensando bem um sonho não poderia terminar assim. Que tal buscar novamente a cantora que existe em você!Caso não queira mais cantar continue escrevendo. Adorei a recordação dos circos que andavam por este Brasil afora.sem deixar para trás o minúsculo vilarejo que eu morava.E que coisa linda era o respeitos que os jovens tinham pelos pais.Bom melhor não comentar como o tempo muda tudo e muitas vezes para pior.Abraços . Enviado por tereza pereira xavier - terezapx@gmail.com
Publicado em 29/11/2011 Que pena que você não seguiu carreira de cantora Lu, tenho certeza que você teria chegado ao Maximo, Parabéns e quero ler mais historias saborosas como essa contadas por você. Parabéns. Eu gostava muito dos velhos circos que rodavam por São Paulo na década de 50 e 60 - Como o Artistas Unidos - Irmãos Savala - Françoa - Piolim - Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 29/11/2011 Morava na bela vista, e nos anos 60 com 11 anos ia com meu pai escutar fados no restaurante aviaçao no tatuapé.que seu pais devem ter conhecido Enviado por manuel araujo - manuel45240@gmail.com
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