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Categoria - Outras histórias Um Natal animado Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 09/12/2011

Foi em 1984 ou 1985, não sei ao certo o ano, já se passou muito tempo.

Noite de Natal. Estou de plantão no Pronto Atendimento (PA) Municipal do Jardim Arpoador, um dos bairros (ou quebradas) do Butantã nas bandas da Rodovia Raposo Tavares. Como não poderia deixar de ser, faz frio, o posto está cheio e os médicos ainda não chegaram para assumir seus plantões.

São 19h. Enquanto os "dotô" não chegam, nós, da enfermagem, vamos adiantando o expediente, preenchendo formulários, desarquivando prontuários, preparando as salas de curativos e pequenas cirurgias, conferindo as medicações de tarja preta, ouvindo reclamações e ameaças de depredação e espancamento o tempo todo. O ambiente ideal para quem gosta de viver perigosamente (PA de periferia não é “bolinho”, minha gente!).

- “Êpa, chegou a Doutora X”

Vou colocando as fichas e prontuários no consultório, que ela está estacionando o carro e "vamo-que-vamo"... Ainda bem que chegou alguém...

O vozerio no salão de espera:
- “Chegou a 'dotora'... Esses médico véve atrasado...”.
- “Ó pessoar, si argum arguém docês mordê a língua morre envenenado...”

A doutora chega à porta do consultório:
- “Senha nº 1...”

Aos poucos vão chegando o médico chefe do posto e a Doutora Y e, então, o 'bonde' começa a andar...

São 23h e o movimento caiu. Bêbados foram atendidos e dispensados (...Eu só vim prá tomá uma 'gricose' nos 'cano' e já vou imbora...), alguns casos de 'espirrose aguda', uma diarréia aqui e ali, um ou outro caso de 'esculhambose' na coluna ... (viu dotô, fui inchê uma lajia pro vizinho e cabei co espinhaço! Tem jeito de dá um tranco prá pô o espinhaço no lugá?...), os hipocondríacos foram atendidos e medicados com drágeas de "substância G" (açúcar) e totalmente curados, sendo dispensados sem receita ou pedido de exames e com a recomendação de retornar caso sintam novamente os "sintomas"...

A ceia de natal já estava sendo preparada por nossas colegas de enfermagem e pelas médicas. Tudo levava a crer que seria deliciosa: café com leite, três "frangos à manivela" de padaria, algumas garrafas de guaraná, coca cola e sanduiches de pão de forma com um patê de sardinha em conserva e maionese industrial, um opíparo banquete (certa vez, em uma das últimas entrevistas que Procópio Ferreira concedeu, ele usou esses termos - opíparo banquete – que, pessoalmente, eu achei pedante, deslocado do contexto da entrevista, não eufônico, demonstração do uso de uma falsa condição cultural; no Brasil, no “sermo vulgaris”, ninguém fala desse jeito e, só porque me lembrei do nariz do Procópio, resolvi usar a frase)!

Não conseguimos celebrar o nascimento do Menino e, muito menos participar da ceia, aliás, não teve ceia de natal porque naquela noite (madrugada), o 'couro comeu largado'... Quase meia noite, duas viaturas da PM descem, de ré, a rampa que leva à porta do PA, sirenes explodindo em som, encrenca “da braba”! Macas e cadeiras de roda na porta! Dois casos: um homem com FAF (Ferimento por Arma de Fogo) e uma gestante em trabalho de parto.

- “Anda, anda, depressa com as coisas, baleado na sala de curativos, o cara ‘tá’ sangrando muito. Acho que algum vaso grande tá estourado, a subclávia talvez, orifício de entrada: região escapular direita, não há sinal de saída; no mínimo pneumotórax também, não dá prá nós cuidarmos aqui, curativo compressivo bem apertado, ambulância e Hospital das Clínicas a doutora Y acompanha... E chama uma menina ‘prá’ te ajudar com esse parto...”
- "'Peraí', doutor! que conversa é essa de "me ajudar com o parto"? Eu nunca fiz um parto em toda minha vida...”.
- “Vai se paramentar, vista as luvas, que hoje você vai fazer o seu primeiro parto...”.
- “Mas doutor...”.
- “Que ‘cazzo’, Joaquinzão! O cara aqui tá sangrando muito, não dá prá largar prá partejar essa mulher... Deixa de resmungar que nem velho... Essa criança vai sair sozinha... O que não dá é prá por a criança de volta!”.
- “Muito engraçado, doutor...”.

A mãe acabou dando a luz em pé e eu e a Marisa apenas aparamos a criança para que ela não caísse de cara no chão, o que, definitivamente, não seria um bom começo de vida em uma noite de Natal. Mãe, nenê e placenta foram encaminhados para a (antiga) Maternidade da Lapa, para o término dos procedimentos.

E o baleado? O que foi feito dele? Bem, essa é outra história absurda daquele Natal inesquecível: diminuído o sangramento, o paciente foi levado ao Hospital das Clínicas com o acompanhamento da doutora e deve ter sobrevivido (pelo menos daquele tiro); minutos depois da saída da ambulância com o ferido, o PA foi invadido por um bando que, simplesmente, foi até lá com o intuito de acabar com a vida do baleado... Ameaças, os consultórios e salas de procedimentos revirados, gritos, correrias, tiros para cima, debandada geral. Pulei uma janela e caí em cima do meu próprio carro (uma Brasília sofrida).

Entrei na Rodovia Raposo Tavares voando baixo, uns 60 quilômetros por hora... As 3h ‘Dona’ Odete ficou espantada com a minha chegada:
- “Ué! liberaram você mais cedo? 'Tá tudo bem? Tudo bonitinho?”
- 'Tá tudo bem...Feliz Natal...”
- “Prô 'cê também!”
- “Vamdormí que daqui a pouco eu pego no HC...”
-“ 'Cê tá esquisito! Tá tudo bem, mesmo?”
- “'Tá! Eu ajudei num parto...”
- “Gostou? Menino ou menina?”
- “Um menino, a mãe quer dar meu nome prá ele e eu disse que não, meu nome não cai bem prum recém-nascido, é nome de adulto...”
- “Coincidência, heim?”
- “???”
-“Natal, parto, menino, entendeu?”
- “Só que os Reis Magos chegaram atirando...”
- “Agora sou eu que não entendi...”
- “Não esquenta, depois eu te explico com mais calma...”
- “Tchau então, parteiro...”
- “Num enche, Dé! Vê se dorme... Tchau!”


E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br

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Publicado em 13/12/2011 Seu Joaquim Ignacio que noite de Natal inesquecivel.Mas resumindo o meu comentario para quem cre em Deus,tenho certeza voce foi abencoado por ele nessa noite tao linda em que comemoramos o seu nascimento , que maravilhosa a sua historia.
Feliz Natal e um Ano Novo prospero com muita saude que e o pricipal .Abracos Felix
Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 11/12/2011 oaquim, gosto de ler seus textos, eles me fazem um bem que você não nem imagina, lendo esse, me senti sentado ou em uma fila juntinho com minha mãe tentando uma consulta num posto do meu passado,no bairro da Freguesia. Parabéns Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 11/12/2011 Sr. Ignácio, o menino poderia passar a infância sendo chamado de Joaquinzinho, o que seria uma justa homenagem. Mais uma ótima crônica para lista para releitura. Abraços, Abilio. Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@logoseng.com.br
Publicado em 10/12/2011 Que histórica fantástica e real de véspera de natal e da vida de um profissional de saúde num SPA de São Paulo.O relato foi tão perfeito,que parece que vi as cenas,uma a uma.Parabéns pela crônica humana e muito bem descrita por vc.Grande abraço! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 09/12/2011 Que noite inesquecível! Você perdeu a festa da noite de Natal mas, em compensação, um Anjo nasceu!
Parabéns
Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 08/12/2011 Mas que fria heim Joaquim. Está vendo, nós corintianos sofremos sempre, até na noite de Natal, mas mesmo assim somos felizes. Muito boa sua história. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 08/12/2011 Durma-se com um barulho destes! Pitoresca, engraçada e dramática história de Natal que bem poderia ser transformada em um curta de Natal onde o menino aportaria na graça de Deusno soar das doze badaladas. Parabéns! Enviado por trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 08/12/2011 Um Natal diferente pinçado da vida desse valoroso enfermeiro, tirando de letra o primeiro parto, com o premio de ter seu nome a acompanhar a vida do novo habitante terráqueo. Nada com enfermeiro pra ter mil e uma história pra nosso deleite. Parabéns, Joaquim Ignácio, vc escreve bem "pacas".
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 08/12/2011 Previdão: Honestamente, Você novamente dá um "show", com esta mensagem real de vida que você viveu, e agora nos relata de forma maestral. Por outro lado, em 1969, eu tinha uma namorada chamada Luci Miranda, a qual, residia perto de uma tal Av.Flamengo, no Jardim Arpoador...Previdão: Desejo feliz natal a você e familiares. Viva o Caxingui e o Instituto Previdência dos anos 60. Hoje, O progresso fe-los perder um pouco das devidas essências. Mais, o amor por eles é imutável. et:spfc 6 x 5 sccp Enviado por xico lemmi caxingui - francisco.lemmifilho@yahoo.com
Publicado em 08/12/2011 Joaquim, aos poucos, ao lermos as histórias, vamos descobrindo características dos autores: onde vivem, em quê trabalhavam ou trabalham e etc... Além disso, a sua muito bem contada experiência foi prendendo a atenção e o final nos surpreendeu, deixando-a "saborosa".
Parabéns pelo texto.
Abraços
Cida
Enviado por Cida Micossi - cida.micossi@gmail.com
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