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Categoria - Outras histórias Os dois porquinhos Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 01/02/2012

Quando criança ia à seção “Zig zag” do Cine Don Pedro, com meu irmão, e Ana Maria e seu pai. Ainda não tinha a televisão, então para assistir a um desenho animado tinha que ir a seção do cinema. Quando saímos do cinema a fome batia e íamos sempre à pastelaria do Chinês na esquina da Avenida São João, e um dia olhado o enorme prédio Martinelli, vi um luminoso que tinha dois porquinhos disputando uma fieira de linguiça. O neon movimentava os dois em um puxa-puxa que dava a impressão que a fieira de lingüiça fosse arrebentar.

Perguntado a seu Osvaldo se arrebentava aquela fieira das lingüiças ele disse que sim, isso quando a curiosidade nos levou bem próximos aquela maravilha que mais era um desenho animado. Seu Osvaldo na galhofa disse que não era pra gente ficar em baixo porque arrebentando a fileira de lingüiça um dos porquinhos cairia em cima da laje e o outro em cima das nossas cabeças.

Anos mais tarde quando o centro da cidade era a passarela dos meus passos, fiquei um grande freguês daquela lanchonete. Às vezes nem sempre estava com vontade de comer algo, mas moças bonitas ali sentadas "nos convidavam" a entrar, e a filosofia popular dizia que quando não dava para paquerar, ou conquistar, "o negocio era ver com os olhos e lamber com a testa". E assim fazia eu a alguns rapazes, que sentados nos banquinhos pedia um guaraná e ficava tomando a conta gotas. Para o dono da lanchonete era prejuízo, pois por longo tempo ficávamos tomando o lugar de quem ia consumir e gastar muito mais. É assim onde tem "esperto, sempre tem um trouxa perdendo dinheiro. Outra filosofia barata.

A própria lanchonete, um autêntico restaurante, tinha um corredor à direita de quem entrava, em um compartimento envidraçado onde ficavam as bandejas de água fervendo em que as salsichas eram cosidas com perfeição sempre no ponto exato. Mais ao fundo ficava o forno em que as lingüiças, simples, calabresas, de sangue toscano ou de lombo eram asadas na própria gordura. No meio um enorme cesto de vime com pãezinhos estalando de frescos. Do outro lado, o balcão das bebidas a geleira do chope e a caixa registradora toda ora fazendo aquele barulho estridente, “blim-blom”, de um cruzeirinho ou mais registrado.

Ao fundo, sobre uma estreita prateleira de mármore branco estavam alinhados os frascos de mostarda clara e escura, pimenta vermelha, preta e a verdinha pimenta malagueta que meu pai mais gostava. Comia aos montes o velho. Depois vinham os molhos: inglês e de tomate e os saleiros.

Era um ambiente gostoso de ficar. Simples, sempre limpo, despretensioso. A lanchonete Os dois Porquinhos era bem mais, vamos dizer uma "salsicharia". Era uma autentica instituição de "calçar o peito" como se dizia na gíria. Para quem tivesse pressa, e quem não tinha? A dois Porquinhos era a casa mais indicada, e em muitas vezes a pressa fazia algumas pessoas comer de pé. E o preço era sempre convidativo também. Quando terminava o horário comercial. Lá estavam os comerciários e consumidores da Rua 25 de março e região, estudantes, e burocratas, sem contar os "habitues" do prédio Martinelli, entre os quais, publicitários, estelionatários, escroques, doleiros e Cia Bela.

Bem mais tarde, às 23h, era ponto obrigatório de parada dos estudantes da noite. Era um momento em que a casa recebia o maior numero de pessoas todas com muita fome, depois dessa hora vinha os boêmios da noitada, boateiros, que saiam dos taxis dancings, e cabarés, zoneiros, e andarilhos, curiosos como eu.

A lanchonete Os dois Porquinhos sobreviveram por muitos anos incólumes, mas sempre tem aquele, mas o tempo foi passando e infelizmente foi aquele tempo devastador em que as coisas vão se deteriorando. Os dois Porquinhos passaram a recebem visitas não tão agradáveis como antes. Mendigos e maltrapilhos, perambuladores entravam com seu pãozinho conseguido não se sabe onde, para colocar em surdina um pouco de mostarda ou uma pimentinha, muitas vezes a vista do dono, que fazia vistas grossas.

Hoje nem sei se Os dois Porquinhos resistiram à passagem do tempo, ou se a fieira de salsicha não desatou, e se eles conseguiram se manter de pé, mesmo entristecidos por não poder segurar aquilo que tinham tanta vontade de possuir, que fez com que brigassem por tanto tempo. Mas enquanto durou, foi uma casa onde se comia com olhos arregalados de prazer gastronômico.


E-mail: mlopomo@uol.com.br

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Publicado em 07/03/2012 Olá, Mário. Não pude deixar de colocar "uma azeitona na sua empada", digo, no seu sanduiche. Já escrevi sobre os dois porquinhos. Você deve ter comentado. Mas estou com uma dúvida: em frente aos dois porquinhos, na outra calçada, havia um bar chamado "bar automático"?. Ando meio esquecido, até estou tomando remédio para isso. Pois, vagamente, lembro de um estabelecimento em cuja vitrine havia vários escaninhos com sanduiches e outros alimentos nos quais se colocava moedas ou fichas que os liberava. Posteriormente, naquele mesmo local havia um estúdio de gravação onde meu irmão (o cantor eletricista da lapa) gravou um disco que de tão "vagabundo" gastou-se em pouco tempo. Sobre o bar, será que sonhei? Abraços. Enviado por adelmo vidal - adelmovidal@hotmail.com
Publicado em 11/02/2012 Mario parabens pela lembrança, quando boy comi muito
cachorro quente nos Dois Porquinhos, más nunca esquecendo da Pastelaria Cantão na Rua Antonio de Godoy, ao lado do cine boulevard.
ABRAÇOS FLAVIO.
Enviado por Flavio Moreira Madureira - flaviomoreira22@yahoo.com.br
Publicado em 08/02/2012 Mário, meu avô sempre me contou histórias sobre essa lanchonete. Acho que o que também ficou na memória dele era o luminoso, diferente para a época. Enviado por Guilherme Calli - guilhermealcali@hotmail.com
Publicado em 02/02/2012 Bela história sobre a lanchonete:Dois Porquinhos que marcou época na cidade e em sua vida.o relato da variedade de acessórios para os sanduíches foi excelente.Um abraço e parabéns! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 02/02/2012 Essa lanchonete se chamava "dois porquinhos"?
Alexandre
Enviado por alexandre ronan da silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 01/02/2012 Mario, recordar os tempos de criança ou de adolescente sempre é muito bom pois revivemos o tempo de nossa vida.Eu quando começo a falar para meus netos dos meus tempos, chego até me emocionar. Esse prazer faz um bem danado. Parabéns e um grande abraço. Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 01/02/2012 Sr. Mário, sua narrativa me deu até vontade de ter conhecido os dois porquinhos,quem sabe eu até entrei nesse recinto quando pequena, pois minha irmã levava-me sempre ao centro da cidade para passear com seu noivo! Nós íamos a muitos lugares diferentes para lanchar! Abraço Sônia. Enviado por Sonia Maria de Paula - depaula.artes@ig.com.br
Publicado em 31/01/2012 Mário: belos tempos. Um lugar que eu gostava muito de almoçar nos velhos tempos era o Restaurane Campo Belo em frente a Casa José Silva na Rua São Bento. Ele se foi junto com os seus porquinhos.
se foram.
Parabéns pelo texto.
Enviado por heitor Iório - hiorio@imjm.com.br
Publicado em 31/01/2012 Mário,
Era garoto e o cine D.Pedro era um dos meus favoritos pelos filmes de "Cow-boy". Lembro-me do pastel da palmito e camarão da pastelaria da esquina.Gostei do texto, pois fui dessa época. Abraços,Anthony.
Enviado por Anthony Mennitto - mennitto@comcast.net
Publicado em 31/01/2012 Mário, permita-me dizer: esse texto foi fantástico! Apreciei muito toda a sua narrativa, muito atraente e com a cara da cidade e dos seus moradores. Meus parabéns mesmo e um grande abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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