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Categoria - Paisagens e lugares IV Centenário, os anos voam. A Vila Clementino de minha infância adolescência Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 06/02/2012

Comecei a frequentar o bairro da Vila Clementino em 1944 ou 45, época em que meus avós maternos vieram de São Manoel para São Paulo, em uma aparentemente simples troca de santos e de cidades. No duro, no duro, essa mudança acarretou uma inversão total no modo de vida da família de minha mãe que, de trabalhadores caipiras renitentes, passaram a ser habitantes de uma grande cidade e precisaram adaptar-se de imediato, até por uma questão de sobrevivência; foram ajudados por meu pai (já estávamos em São Paulo naquela época) com procura de casa para alugar e algumas cartas de referência para obtenção de empregos para os filhos mais velhos, meu tio Mané e minhas tias Lucila, Ignes e Célia.

Foram morar num grande sobrado, misto de residência e curtume, que ficava em frente ao Matadouro Municipal (hoje as dependências do antigo Matadouro abrigam a Cinemateca Brasileira). Meu avô, João Pedro da Silva, empregou-se no curtume e exercia as mesmas funções, entre muitas, que exercia em São Manoel, magarefe e curtidor de couros...

Queixavam-se do mau cheiro a que não estavam acostumados, de urubus pousados nas árvores, no telhado ou andando com suas passadas malandras pelo quintal que servia de local para secagem das peles. Todos trabalhando, uma melhoradinha na situação financeira, mudaram-se para a Borges Lagoa, 1064, quase ao lado da igreja protestante, acho que em 1946.

Fins dos anos 40 e início dos 50, boa parte das ruas da Vila Clementino não tinha calçamento, Borges Lagoa, Loefgren, Dr. Bacellar, 11 de Junho, Leandro Dupré, Diogo de Faria, Botucatu, Otonis, a exceção era a Pedro de Toledo, asfaltada... No quarteirão da Borges entre a Leandro Dupré e a Bacellar, os sócios e torcedores do Rubens Salles F.C. jogavam malha no meio da rua, ou bocha numa quadra montada junto à sede do time. Havia o boteco do Mandioca, frequentado pela fina flor dos encrenqueiros do bairro, a padaria Chave de Ouro, a farmácia do “Seu” José, a capela de São Francisco de Assis, a Escola de São Francisco e muitos terrenos baldios e algumas chácaras beirando a Auto Estrada de Santo Amaro, caminho do aeroporto e além...

Em 1949, o antigo zagueiro da seleção brasileira, o "pai" Jau, após uma partida de seu time de veteranos contra o Rubens Salles FC, levou meu tio Mané para treinar no Corinthians após vê-lo jogar. Infelizmente a carreira do meu tio terminou no primeiro treino; por precisar trabalhar não poderia comparecer quase que diariamente ao Parque São Jorge e então precisou continuar sua vida de rapaz pobre, boleiro "leão de várzea", com pouca cultura, trabalhando como operário em uma fábrica de artigos de borracha...

Ainda em 1949 meus avós mudaram-se para a Leandro Dupré, 655, numa espécie de vila com três casas, muitas árvores frutíferas, abacateiros, marmeleiros, caquizeiros e parreiras de uvas... Acabou que, em 1950, após ganhar um bom dinheiro no jogo de bicho e conseguir um ótimo emprego na VASP, meu pai alugou por 1.500 cruzeiros mensais a melhor casa da tal vila; foi quando saímos do cortiço do Bexiga e nos mudamos para uma casa de verdade. Na Vila Clementino, eu, com meus dez anos comecei a aproveitar minha infância, um tanto que tardiamente.

E, um tanto que tardiamente, tive meus primeiros amigos: os irmãos Toninho e Clóvis do 636, o Vadão, neto da d. Belmira, o Fasolim, filho do 'seu' Canhoto, o Astor e o 'Piturico' da 11 de Junho, o Carlito e alguns outros que vez ou outra apareciam por lá, inclusive um garoto chamado Miguel, que passava férias e feriados na casa dos pais do Toninho e do Clóvis, o 'seu' Zeca e a d. Helly. Morador do Bexiga, como eu fora, o Miguel se extasiava com o contato com a natureza, e com as nossas brincadeiras só possíveis num ambiente amplo, de liberdade sem riscos e de ar puro, com o nosso santo futebolzinho de todos os dias, com nossos primeiros olhares de peixe morto para as meninas...

No entanto, aquele paraíso não deveria durar muito, era bom demais para continuar existindo. A cidade estava se preparando para os festejos do IV Centenário, construções surgiam por todo o bairro, ruas eram, digamos, asfaltadas com o tal "virado à paulista", areia, brita fina e pixe derretido, uma droga. A Loefgren era a rua onde jogávamos taco e precisamos abandoná-la para que automóveis começassem a usá-la, imaginem só! Era um total desrespeito às nossas necessidades lúdicas, nós, crianças e adolescentes. Naqueles anos risonhos e francos, me parece, as instituições benemerentes não tinham nomes politicamente corretos; alguns exemplos: AACD (Associação de Auxílio à Criança Defeituosa), Roda dos Enjeitados, Casa da Mãe Solteira (atual Amparo Maternal). A AACD ficava (e fica) no fim da Loefgren e a Casa da Mãe Solteira ficava (e fica) na Loefgren com a Capitão Macedo. Pois bem, entre uma instituição e outra, eram quadras e quadras de terrenos baldios que eram o nosso play-ground com campinhos pro bate-bola, áreas com uma mata um pouco maior, bambuzais, pés de gabiroba, bananeiras...

Um dia, tudo acabou. Caminhões e mais caminhões começaram a despejar areia e brita em nosso paraíso. De repente, toda aquela área se transformou num Saara de areia e pedra. No local foi construída uma usina de concreto para as obras do Parque do Ibirapuera. Barulho infernal, pó de cimento, caminhões, incômodos 24h por dia. Nosso quarteirão da Leandro Dupré se transformou numa sucursal do inferno e as coisas foram piorando até atingir o paroxismo quando o campo do Rubens Salles, na Pedro de Toledo, acabou e todo aquele chão varzeano cheio de história transformou-se num condomínio residencial; o mesmo aconteceu com o campo do 21 de Abril e com os campos além Auto Estrada que deram lugar a complexos hospitalares (Servidor Público do Estado, Gastroclínica...). A própria Auto Estrada de Santo Amaro acabou por dar lugar à Av. Ruben Bertha...

Era 1954, era hora de a gente crescer, começar a usar calças compridas e sapatos com meias o dia todo, aprender álgebra e latim...

Despedi-me da Vila Clementino em março de 54. Durante algum tempo ainda mantive contato com os amigos, mas, aos poucos, cada um seguiu sua vida e nos dispersamos. Daquele tempo, apenas o garoto Miguel colocou o rosto fora d'água 60 anos depois e a gente se comunica através de sites para os quais escrevemos...

Esta cidade de São Paulo não é fácil, minha gente! Tudo é muito rápido, o tempo voa, os anos passam muito depressa e nós não nos apercebemos disso; ontem mesmo nosso caminhão de mudança desceu a Leandro Dupré e parou em frente à casa em que nós iremos morar. Dá prá acreditar?


E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br

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Publicado em 01/05/2012 Nunca mais esqueci este lugar R. Loefgren,(casa da mãe solteira)Em 1981 fui vizitar a amiga da vizinha que deu a luz,e na saída uma mulher magrinha,veio ao meu encontro me dando seu BEBÊ e dizendo;Dona por caridade leva pra senhora senão vou deixar na porta de alguém,aí ele vai acabar indo pró juizado(já tinha 3filhos)Levei este bebê colocado por DEUS em meus braços, com dislecsia surdez bronquite etc...Hoje é um homem casado,e juntos buscamos sua mãe biologica para nos conhecermos como família. Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 11/02/2012 Gente nasci na rua Diogo de Faria,66 ano 1951,no local ja tem um predio por favor se alguem souber quem era do n.66 da Diogo de Faria entre em contato comigo,pois é de suma importancia para mim. Enviado por Carlos Roberto Silva - roberto.aguia@hotmail.com
Publicado em 07/02/2012 Ótima, cronica Joaquim daquelas que nos levam de volta a nossa infância, Parabéns. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 06/02/2012 Excelente história partindo do núcleo familiar e social,abordando a evolução e transformação da cidade de São Paulo e de seus bairros.Parabéns pelo interessante relato! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 06/02/2012 Que delicia ler sua cronica.Que nos traz tantas lembrancas , pois nos juntamos a voce e passamos a juntar as nossas com as tuas porque mesmo sendo do bairro do Braz tive muito apego na minha juventude com a Vila Clementino. O bondinho via Matadouro que passava em frente ao Instituto Biologico.O onibos 47 que nos anos 50 saia do Largo do Ouvidor e so depois mudou para o Anhangabau.Eu fazia o taxi lotacao que ia ou ate a Pedro de Toledo com ponto final no Hospital Sao Paulo ou o que ia via Sena Madureira passando pelo antigo matadouro.Mas essas ruas todas que nao vou repetir os nomes eram como se fossem tambem do meu bairro, mas so lembrando o caminho inesquecivel que faziamos depois de passar pelo Paraiso Rua Cubatao ,Rodrigues Alves Rua Rio Grande ,Loefgren Botucatu,Pedro de Toledo.Os taxis lotacoes duraram por muitos anos saindo do Largo do Ouvidor para a Vila ,pois os moradores desse bairro eram da classe B alta e tinham poder aquisitivo para usa-los tanto pela manha como a noite voltando para casa.Grande texto Ignacio digno de um Corinthiano.Abracos Alvi-Negros .Felix Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 05/02/2012 Nasci no bairro de Vila Clementino e me lembro bem dessa época. Andar pela auto estrada era nosso passeio favorito, quase que diario. Também me lembro de quando foram iniciadas as construções citadas , e do enorme terreno que ficou quase que totalmente coberto pelas montanhas de areia e pedras e onde por algum tempo as crianças brincaram , deslizando por elas. Que saudades desse tempo. Tenho muitas recordações do bairro e das ruas citadas. Um abraço. Enviado por cleber odaondo - cleberodaondo@live.com
Publicado em 05/02/2012 Joaquim, você consegue nos prender a atenção e nos emocionar com a leitura de seus inspirados textos.
Abraços
Enviado por Cida Micossi - cida.micossi@gmail.com
Publicado em 05/02/2012 Como é bom termos recordações maravilhosas de um tempo que já passou! Penso que nosso cérebro consegue abolir o que foi ruím e lembramos, muito mais, aquilo que foi bom. Continue com suas recordações, Joaquim, eu gosto muito! Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
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