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Categoria - Paisagens e lugares Minha primeira sessão de cinema Autor(a): Luiz Carlos Marques - Luigy - Conheça esse autor
História publicada em 08/02/2012

Eram 14h. Morava no Bairro Parada Inglesa, Zona Norte de São Paulo, acabara de completar seis anos. De repente encosta um caminhãozinho, bem no meio da praça, despejando bem alto pelo alto-falante a novidade do dia. De todas as janelas, olhares curiosos procuram entender o que acontece.O som alto do caminhão não parava de convidar as crianças e todas as pessoas do bairro. A expectativa geral era que seria a chegada de um algum circo a se instalar na praça, como já havia acontecido. Do alto do morro, bem em frente a Igreja do Padre Julio, a molecada observava aquela estranha montagem...

Apesar do estardalhaço não ficava claro do que se tratava. Talvez a intenção teria sido essa mesma que desejavam causar. O aviso pedia que todos fossem avisados para um evento noturno e gratuito. Ai a coisa pegou fogo.

A molecada corria de porta em porta avisando sobre a novidade. No bar da praça o assunto não podia ser outro.

Mais tarde um novo anúncio pelo alto-falante do carro:
- “Garotada do bairro, avisem suas mães. Hoje a noite haverá espetáculo”; “Moça bonita não paga e as feias também”; “Quem trouxer cadeira também não paga nada”.

De novo a garotada saia em correria pra suas casas para levar as novas informações.

Grande quantidade de material ia sendo descarregado de cima da carroceria do caminhãozinho.

Todo mundo ali já tinha visto um circo na vida. Cerca de três homens descarregam cadeiras e barraquinhas da carroceria. A molecada se postava no barranco ali próximo a observar.

Pouco antes das 5h, fui pra casa tomar banho e já voltei com um banquinho para sentar. De longe a impressão que dava era que tinham embrulhado o caminhãozinho em um pano branco.

As luzes da rua foram acesas e ai sim deu para ver que havia uma espécie de lençol na carroceria do caminhão. Montadas com antecedência, as barraquinhas começam a vender pipocas e amendoim. Às 6h em ponto, nova comunicação no alto-falante para explicar o que viria a seguir.
Mesmo sem entender nada, a excitação era geral.

Um homem então falou que iriam passar um filme e que era grátis. Menos as pipocas e amendoins.

Assim que ele parou, uma luz intensa vindo de um aparelho foi acesa. Essa luz forte foi bater naquele pano branco parecido com lençol. Trazia junto inúmeras imagens e sons de música.
Eram desenhos animados. Gritos, assobios e palmas partiam da multidão extasiada! Eu estava vendo alguma coisa pela primeira vez na vida e não sabia o nome.

Era meu primeiro contato com "aquela coisa" e já sentia que iria gostar muito. Alguém falou: “isso é cinema!”. Então descobri o que era cinema... Aquilo era mágico. Perdi a respiração. Como aquilo era possível? Era um frenesi...

Veio então um noticiário falando de coisas que aconteciam. Depois passaram um filme que se chamava “O Bobo da Corte”, com Danny Kaye. Imagens coloridas, danças, musicas, corridas, saltos: Adorava tudo que via! Foram momentos intermináveis de puro prazer.

Depois de mais de uma hora, veio o término do filme. Começaram desmontar o pano rapidamente e recolher as cadeiras. Mas quem dizia que o pessoal iria embora? Em coro pediam mais bis. A platéia batia os pés no chão levantando poeira e gritando que queriam mais...

Para dar tempo na desmontagem da tela e das barracas, mudaram a direção da luz lançando outras imagens no paredão da igreja. Ah! Foi uma loucura geral...

Com tão pouca idade fui pego de surpresa a tamanha emoção. Aquelas cenas me marcaram para sempre e forma dando asas a minha imaginação... Até então meu imaginário eram estáticos, vagarosos e meio sem vida. Passei a noite com febre.

Descobrir o cinema, que trouxe uma agitação interna que ajudou a acelerar meu modo de pensar.
Desde então as coisas se tornaram mais vivas e vibrantes. Nada mais foi igual! Passei a gostar de fotografias, de revelar e não perdia a chance de ir ao cinema... Sempre que assistia a um filme revivia a emoção inicial!

Mais tarde assisti alguns filmes que fizeram a minha cabeça, como “Verão de 42”, “Amarcord”, “Cinema Paradiso” e “Vermelho como Sangue”, que me traziam de volta numa viagem no tempo.

Que fantástico poder recordar a minha primeira sessão de cinema em meio a uma praça escondida na periferia da cidade de São Paulo. Guardo uma satisfação enorme de ter sido iniciado na sétima arte em um cinema na rua.


E-mail: luigymarks@uol.com.br

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Publicado em 27/02/2012 Que texto lindo amigo! Parabéns! Quanta emoção você conseguiu passar pra nós leitores! O texto realmente fica muito bonito quando o autor consegue colocar tudo aquilo que ele viveu de uma forma simples e com riqueza de detalhes. Parabéns mais uma vez...Adorei seu texto...às vezes e posto alguns "pífios" textos de minha autoria neste maravilhoso site....Dá uma "espiadinha" num texto que enviei faz um tempão chamado: Um office-boy na década de 70 em São Paulo, de minha autoria: Luiz Carlos da Silva. Um grande abraço! Enviado por LUIZ CARLOS DA SILVA - lucasi__@hotmail.com
Publicado em 12/02/2012 Posso imaginar sua emoção, Luiz Carlos, mesmo sendo num bairro não muito distante da cidade, vc ainda, só ouvira falar de cinema. Qual não foi sua surpresa ao ver o "motion pitture" num pano branco, com movimentos acelerados sem interrupção. Alegre e surpreendente texto, Luigy, parabéns.
Modesto
Enviado por modesto laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 09/02/2012 Luigy, me diz uma coisa. Este terreno era no fim da Rua Prof. Marcondes? Porque se era, cansei de assistir filmes ali. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 09/02/2012 parabéns,você conseguiu nos passar toda a emoção do primeiro filme Enviado por Cida Schoenaker - cidaschoenacker@uol.com.br
Publicado em 09/02/2012 É Luigy, dessas pequenas emoções é que tiramos proveito p/ que nossa alma e espírito se elevem e fiquem em estado de graça. Tb. lembrei das minhas matinês e vc. falar em Cinema Paradiso foi justamente o que me veio à mente lendo sua história. Parabéns pela história bem contada. Parecia que vc. estava na tela pela emoção que transmitiu. Enviado por wanda tiezzi - wandatiezzi@hotmail.com
Publicado em 08/02/2012 os melhores filmes do mundo foram, E O VENTO LEVOU. ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE.O PODOROSO CHEFÂO,COMO ERA VERDE O MEU VALE, CASABLANCA, RIFIFI,SUPLICIO DE UMA SAUDADE,SINDICATO DE LADRÔES,CINEMA PARADISO,ROMA CIDADE ABERTA,LADROÊS DE BICICLETAS, MILAGRE EM MILÂO,ETC.. Enviado por joao claudio capasso - jccapasso1@hotmail.com
Publicado em 08/02/2012 Luigy,que forma gostosa de conhecer o cinema.Que surpresa boa e quantas emoções foram sentidas.Momentos como este não dá para esquecer mesmo e que legal compartilhar esta experiencia conosco.Um grande abraço. Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 08/02/2012 Luigy, que texto simpático e elegante! Na hora me lembrei do "cinema paradiso" com toda a sua importância e presença. Infelizmente não passei por experiências como a sua, mas bem que gostaria. Muito obrigada por essa partilha de sensações tão sinceras, intensas e bonitas. Meus parabéns. Um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 08/02/2012 Que lindo Luigy, o primeiro filme ninguém esquece. O primeiro filme que assisti, foi também um filme exibido na rua, no Largo da Matriz Velha no Bairro da Freguesia do Ó, a casa com sua parede branca onde o filme foi exibido esta lá até hoje, na época morava lá um amigo meu chamado Agnelo ( Nelo) filho do Senhor Bororó um eletricista muito conhecido no bairro e que trabalhava na Ligth. A exibição era chamada de Cine Guarana e era patrocinado e apresentado com a projeção montada uma perua com propaganda da Cia. Antártica Paulista, Foi um Jornal da Tela (no caso parede, né? Risos) sobre a II Gerra Mundial, mais um resumo de uma luta do Joe Louis vs Roque Marciano e um filme com Tyrone Power, Henry Fonda e Randolph Scott FILMADO EM 1939 - Jesse James.
Era o ano de 1949 e ainda não havia Televisão, e uma sala de cinema só na Lapa ou na cidade. A Praça
ficou totalmente tomada perto de 500 pessoas. Era a Gloria. Parabéns sua narrativa me levou de volta a um tempinho muito gostoso.
Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
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