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Categoria - Outras histórias A morte, uma nova experiência - Velório Autor(a): Luiz Carlos Marques - Luigy - Conheça esse autor
História publicada em 07/03/2012

Ao ler a história do Jose Camargo Beira com o titulo "Um velório nos anos 50" saltou lá de dentro uma passagem semelhante ocorrida nos tempos de infância.

Andando pelas ruas do bairro Vila Nova Conceição, mais precisamente pela Rua Natividade, do longe percebi uma aglomeração na casa de um conhecido. Era um amontoado de gente, todas com semblantes sérios.

Movido pela curiosidade natural das crianças, resolvemos entrar para ver o que acontecia. Estava na época com oito para nove anos. Sem chamar muito a atenção fomos entrando meu primo e eu, sem esbarrar em ninguém. O local mal dava pra entrar. Mas com jeitinho, ultrapassamos uma muralha de gente. Estávamos curiosos para saber do que se tratava.

Ao romper o ultimo obstáculo, demos de cara com um caixão aberto no meio da sala com velas e flores. E dentro dele um homem magro, morto. Se desse teríamos corrido. Mas não o fizemos. Tentamos disfarçar ao máximo o nosso engano tentando fazer cara de paisagem como exigia o momento.

Era meu primeiro encontro com a morte. Até então nunca havia me deparado com aquele tipo de situação. Como a situação era nova, ficamos observando como as pessoas se movimentavam. Diversas pessoas iam ao encontro de familiares postados ao lado do caixão para receber as condolências. Como já estávamos na chuva resolvemos nos molhar e lá fomos oferecer nossos sentimentos. Depois de fazê-lo demos meia volta em direção a porta para nos retirarmos.

Próximo ao portão havia uma mesinha para que os visitantes deixassem nome e endereço. Claro que colocamos deixamos ali o nosso endereço. Nessa época era comum realizar o velório na própria casa onde a pessoa havia falecido.

Passado alguns dias, surpreso recebo uma cartinha. Era uma cartinha da família do falecido agradecendo a presença ao velório. Acabei achando aquilo uma "curtição" com relação ao fato de receber cartas. Pois nunca havia recebido qualquer tipo de carta.

Um mês depois, passando em outra rua, reparei uma nova aglomeração mais adiante. Sem pensar duas vezes, fomos entrando. As pessoas nos olhavam com curiosidade, meninos tão jovens, ali participando, compenetrados no que estava ocorrendo.

Ficamos a observar tudo que acontecia. Eram choros, lágrimas, pessoas tristes que há muito não se viam. Abraços fortes. Uma bandeja foi atravessada pela sala repleta de sanduíches e sucos. Os adultos eram chamados para outra sala para experimentar licores. Observamos que havia um tratamento diferente que não havíamos percebido no velório anterior.

Para quebrar um pouco a monotonia do ambiente iam surgindo anedotas e casos engraçados para espairecer a tristeza do ambiente. Ao final deixamos nossos nomes no registro.

Neste mesmo ano, mais quatro ocorrências como as descritas acima aconteceram no bairro e lá estávamos nós para levar nosso abraço. O lanche também era algo que já era esperado. Ao final de um ano recebemos sete cartinhas de agradecimento. Isso de alguma forma me trazia algum conforto.

Os adultos pouco explicavam a respeito. Não entendia bem o que significava a morte, mas de certa maneira me ajudou a aceitar o assunto de forma tranquila. Mesmo com pouco entendimento sobre o assunto, de maneira ingênua levávamos o nosso conforto "meio maroto", a essas famílias com respeito. Mesmo sendo crianças, aprendíamos de certa forma a encarar o sofrimento alheio.

Hoje em dia, pelos menos nas grandes cidades, os costumes são outros, pois raramente se faz um velório em casa. Anos depois, estive muito perto da morte em um afogamento e de certa forma pude encarar o assunto com alguma naturalidade.


E-mail: luigymarks@uol.com.br

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Publicado em 22/04/2012 Acabo de chegar do velório de uma amiga; amiga recente, mas muito querida! Observei que a maioria das pessoas estava calma, tristes, mas sem escândalos como às vezes a gente vê.
Ela faleceu aos quarenta e seis anos, deixando marido, um filho de dezesseis anos e uma filha que faz medicina. Era muito preocupada com tudo e com todos, excessivamente preocupada, diga-se de passagem.
Analisando isso, tentarei, a partir de agora, ser menos estressada, menos preocupada e menos controladora, pois assim preservarei a minha saúde e a dos outros, não é mesmo? Parabéns pelo texto! Abraço Célia
Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - rccsimonato@hotmail.com
Publicado em 08/03/2012 Luigy, parabéns pelo texto, lembro-me bem dos velórios de antigamente, eu mesmo assisti a muitos na minha própria família, todos foram feitos em casa como era comum na época, abraços, Leonello Tesser (Nelinho). Enviado por leonello tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 08/03/2012 Luigy. Começamos a morrer quando nascemos. Contudo, ainda não estamos totalmente habituados com a morte. Eu era muito pequeno e fui obrigado a ver minha avó morta, dentro do caixão, com flores e demais ornamentos de funeral. Era um procedimento normal das famílias, e nós os pequeninos, não eram poupados desse fúnebre evento. Detestei tanto que até hoje recuso-me aos funerais. Atualmente, optamos pela cremação. Minhas lembranças ficam mais bem arquivadas em meu coração do que nos túmulos. Abraços. Anthony. Enviado por Anthony Mennitto - mennitto@comcast.net
Publicado em 08/03/2012 quero ser cremado , antes se puder doar algum orgão que se retire. quero que minhas cinzas sejam jogadas no mar e um pouquinho nas floreiras das varandas de um bar e restaurante que frequento muito Enviado por alexandre ronan da silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 08/03/2012 Ainda bem que você aprendeu, sem virar papa-defunto. Mas que não existe nada mais mórbido que velório, não existe. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 07/03/2012 o progresso acabou com os enterros, hoje do velorio vai para a cremassâo, voltamos para casa todo mundo limpinho, e missâo comprida. Enviado por joao claudio capasso - jccapasso1@hotmail.com
Publicado em 07/03/2012 Eu adorava ir a um velório quando criança. Quando eu sumia minha mãe perguntava aos vizinhos se havia algum velório pelos arredores... e nunca foram servidos sanduiches e sucos. Que pena! Parabéns, Luigy. Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 07/03/2012 Fiquei comovida principalmente c/ a educação de vcs., crianças de tudo, que apesar da curiosidade e até da oportunidade do "lanchinho" estavam mais interessados em "marcar presença", transmitindo seus sentimentos às famílias. Nos dias atuais, infelizmente temos que nos prevenir de pessoas indesejáveis até depois de enterrar nossos mortos. Parabéns Luigy. Enviado por Wanda Tiezzi - wandatiezzi@hotmail.com
Publicado em 07/03/2012 Luigy,nada agradável estes encontros com a morte.O meu primeiro foi um velório de uma vizinha, chorei muito porque não entendia essa partida. Até hoje não gosto de velório, prefiro fazer minha orações a distancia. Um abraço. Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 07/03/2012 Talvez por estar presente no velório do meu pai, que aconteceu em minha própria casa, em 1945, não gosto de velórios. Desde então faço de tudo para não comparecer a velórios. O único que eu já prometi não faltar será no meu, e assim mesmo gostaria que alguém presente no mesmo, muito surpreso pudesse exclamar antes do enterro terminar: Vejam! O defunto esta se mexendo. Só assim o velório teria um certo sentido para mim.(risos). Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
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