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Categoria - Outras histórias Andando pela minha cidade de São Paulo Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 03/04/2012

Até 1954 tinha ido ao centro da cidade somente com minha mãe ou meu pai. Ficava maravilhado com aqueles enormes prédios, no inicio dos anos 50, eu ia com a minha mãe na cidade toda semana passando pela Rua Direita. O centro da cidade era tão diferente do Itaim Bibi, que só tinha casas e quando muito alguns sobrados.

Até que a senhora Dulce Borges Barreiros, dona do Cine Itaim, que ficava na Rua Joaquim Floriano esquina com a Rua Tapera, (Bandeira Paulista) onde tinha o rinque de patinação. Ai ela resolveu fechar o Cine Itaim chamado de “grande pulgueiro”, já que tinha construído um prédio de quatro andares, ainda nos anos 1950, com seu nome, o “Edifício Dulce”. Na esquina ficou o Bar com o nome "Bar Star". Ao lado a esquerda da esquina Rua Joaquim Floriano ela destinou uma sala para o cinema que ela colocou o nome de Cine Star. Um cinema chique para a época. A direita ficava a antiga Rua Bibi, que teve o nome substituído para Renato Paes de Barros, algumas salas alugadas para o comercio e a porta de entrada social, atrás dos orelhões.

Já o prédio do Cine Itaim na esquina da Rua Bandeira Paulista, foi alugado para o comercio e durante muitos anos foi de uma loja de peças da concessionária de automóveis "Cibramar". Dulce era Ademarista roxa e não era difícil ver o popular político por lá, principalmente em véspera de eleição, que é quando o político se lembra até da cor bolinha de gude que ele brincava 20 anos antes. Aproveitando-se de que era apadrinhada por Ademar de Barros, ex- governador do estado, ela se candidatou varias vezes a vereadora e deputada estadual sendo derrotada em todas as ocasiões.

Nas décadas de 40 e 50 se dizia que os homens não votavam em mulheres e uma grande parte das mulheres muito menos. Na época era comum dizer que "lugar de mulher era na cozinha" e o Itaim ficou privado de uma representante feminina na câmara dos vereadores e dos deputados. E nem sei se um dia conseguiu ter essa representante. Ademar já não era mais aquele político tão querido dos anos 40 e inicio dos anos 50, porque estava sendo acusado de ladrão. Essa acusação era de ele ter comprado com seu dinheiro 51 carros da marca Chevrolet, tendo depois resgatado o que tinha investido, e por isso, foi processado, sob a acusação de roubar o erário publico, o que depois foi constatado pela justiça que era uma acusação sem nexo de adversários políticos e Ademar foi absolvido.

Na época Jânio foi chamado a dizer algo sobre a absolvição de seu maior adversário e disse: - "Eu, respeito à justiça do meu país".

Já os Ademaristas fanáticos achavam que era a justiça tinha agido de maneira correta. Ademar era uma figura “sui generis”. Eu o conheci pessoalmente em 1963 no palácio dos Campos Elíseos, em uma campanha política para vereador daquele ano, em que o Flamengo da Vila Olímpia apoiava um candidato do PSP. O candidato era Paulo Amparo me levou até o palácio e, enquanto não chegava à hora da audiência fiquei andando pelo jardim olhando as bonitas flores sempre acompanhado por dois “meganhas” (guardas) da Força Publica.

Percebi que estava fazendo os caras gastarem sapatos, digo botas, ou coturnos, então voltei para o salão azul onde todos estavam os “cupinchas” dele boquiabertos por estar à frente do governador, talvez nem tanto pelo governador, mas sim por ser o Ademar. Só tinha velhos e o mais novo era eu (com 23 anos) Ademar olhou para os lados e vendo que não tinha cadeira para mim disse que eu podia sentar no chão caso quisesse. Era uma figura!

Mas, como um xereta fiquei de pé mesmo e ao lado dele na cabeceira da mesa, era um atrevido. Veio um serviçal e cochichou em seu ouvido em seguida deu ordens para outros, em um grito que era para que todos soubessem que ele mandava em alguma coisa:
- "Fulano, trás o chá de sua excelência!".

No bate papo pessoas de varias regiões da cidade e também algumas pessoas de cidades do interior, falavam cada um respeitando sua vez (coisa difícil de ver). Um representante de um bairro da zona norte disse:
- "Excelência, o Chico virou a casaca, está do outro lado" - no que Ademar retrucou:
- "Que filho da puta!".

Até então o Ademar tinha passagem de graça para mim, já que eu era Janista, mas depois daquele dia acabei ficando fã dele, e quando naquela de domingo à noite dia 15 de junho de 1966, comendo um sanduíche em um bar na Vila Mariana, depois de deixar a "peça" na casa dela, ouvi pelo radio do bar anunciou que ele tinha sido cassado pela "revolução de 64" que ele tinha ajudado a fazer. O deputado estadual Paulo Planet Buarque, (aquele ex jornalista que em 1954 na copa do mundo, deu uma rasteira no policial suíço, na tentativa de agredir o arbitro Mister Elliz).

Sua excelência mostrando um fio de satisfação, dizia que não estava ali para "pisar no corpo de um político caído", mas que mostrava satisfação pela decisão do governo revolucionário, em acabar com a insurreição de um político, que insuflava o povo contra quem estava no poder.

Graças à senhora Dulce Ademar ia constantemente ao Itaim Bibi, me lembro que com oito anos de idade ter visto ele de perto inaugurando os novos ônibus da CMTC, em frente ao nosso parquinho na Avenida Imperial, (Horacio Lafer) próximo à Rua Cojuba, foi no ano de 1947, em que os velhos ônibus "focinho de cachorro" foram trocados pelos ônibus com a frente reta, "focinho de cachorro buldogue". Foi uma festa em que o povo cantava "Dotô Wardemar, Wardemar dotô".

Desde que surgiu Jânio Quadros na política, Ademar não conseguia ganhar mais nenhuma eleição, era uma derrota atrás da outra, o muito que conseguiu foi fazer com que seu afilhado político Lino de Matos, (que mais tarde se bandeou para o lado de Jânio) ganhasse uma eleição para prefeito de São Paulo em 1957.

O Itaim era um bairro tipicamente rural. Naqueles anos era repleto de chácaras, a do seu Jacinto ficava em plena Rua do Porto (Leopoldo Couto Magalhães) a esquerda do terreno de senhor Jacinto que fazia esquina com a Rua João Cachoeira e ia até o córrego do sapateiro, que margeava a Rua Heloisa (hoje, Avenida Juscelino Kubitschek), estava um terreno que era cercado por pés de eucaliptos, ali morava a senhora Virginia, mãe do Dado, que ficou lá até que o proprietário do terreno (um dos donos do Mappin) pedisse o terreno para construir o deposito da loja, o embrião da loja Mappin Itaim, hoje Pão de Açúcar. Hoje o Itaim Bibi é considerado um bairro nobre da cidade de São Paulo.


E-mail: mlopomo@uol.com.br

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Publicado em 20/04/2012 Maria Alayde Lanari Fernandes. Legal saber que morou na antiga Rua da Ponte, que passou a se chamamar Clodomiro Amazomas. Morava bem pertinho dela, no tempo que tanto a rua do Porto que eu morava e a Rua do Ponte (clodomiro Amazonas) eram de terra. Bons tempos da minha infancia. Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 14/04/2012 Adorei sua estória sobre o Itaim Bibi! Cheguei do Rio no ano 1956 e fui morar na Rua Clodomiro Amazonas,652 e tenho boas lembranças do bairro mistura de cidade com chácara! Abraços Alayde. Enviado por Maria Alayde Lanari Fernandes - alaydelanari@ig.com.br
Publicado em 03/04/2012 Prezado Mário, já disse isso antes, acho que suas crônicas devem ser fonte de consulta para historiadores, antropólogos e estudiosos dos costumes dos paulistanos. Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@logoseng.com.br
Publicado em 03/04/2012 Lopomo. Adhemar de Barros: "Fé em Deus e pé na tábua…" O que seria da história de São Paulo sem Adhemar de Barros e D. Leonor Mendes de Barros? Comparados aos politicos de hoje eles foram apenas inocentes batedores-de-carteira! Abraços e Feliz Páscoa. Anthony Enviado por Anthony Mennitto - mennitto@comcast.net
Publicado em 02/04/2012 Muito bom, Lopomo. O Ademar merece ter resgatada sua memória. Foi um grande politico e realizador. Não devemos esquecer tambem a Dona Leonor, sua es
posa, que criou enormes obras sociais que persistem até hoje. E o Mario Beni ( e seu irmão
Nevio) sempre fiéis ai chefe. Lembra da musica :
Paulistas eu vou perguntar, em quem vocês vão vo-
tar, para São Paulo governar , Ademar, Ademae,Ade-
mar...
Enviado por gilberto ramos - gramos-sc@hotmail.com
Publicado em 02/04/2012 Relato detalhado do famoso político, com seua problemas e enfrentamentos que serviram pra fortificar sua presença no cenário político nacional. Os detalhes e tópicos dessa narrativa, são oferecidos pela pena mágica e boa memória do Mario. Parabéns, Lopomo.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 02/04/2012 Ha o Itaim, bairro de exelentes bare, boates e restaurantes.Como o Ecco , Charles and Edward,KiaHora,Parigi e café Gero no Iguatemi entre outros mais
Alexandre
Enviado por alexandre ronan da silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 02/04/2012 Ele construiu a Via Anchieta. Só não gostei quando ele pisou no meu pé ao cumprimentar o nonno, na inauguração do primeiro viaduto do Pacaembú. Eu tinha cinco anos em 1955. Não esqueci. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 02/04/2012 QUANDO NA ESCOLA GRUPO D.PEDRO I NO IPIRANGA LEMBRO Q ADEMAR DE BARROS E LUCAS NOGUEIRA GARZES VIERAM VISITAR A ESCOLA.AS CRIANÇAS TODAS CANTANDO O HINO NACIONAL COM A MÂO NO CORAÇÂO ABANANDO A BANDEIRA DO BRASIL. O GARZES ERA O ENGENHEIRO DA VIA ANCHIETA. MEU PAI FALOU PORQUE ELES NÂO VÂO VISITAR AS FABRICAS ONDE SE TRABALHA DURO, AS CRIANÇAS NâO SABEM NADA DE POLITICA. È A VIDA BOAS LEMBRANÇAS FIQUE COM DEUS Enviado por maria pia tiezzi mirabella - maria_pia21@live.com
Publicado em 02/04/2012 Mario, meu pai ia no centro da Penha no Largo 8 de Setembro, ver e ouvir o Jânio e o Ademar de Barros. Naquele tempo os políticos iam nos bairros e no comício passavam sua mensagem. O Jânio, ultrapassou e agradou mais que o Ademar. Era o preço da politica, cativar ao vivo e a cores os eleitores, como se dizia " ganhou na raça".Parabéns pelo texto e por relembrar estes políticos que marcaram nossa cidade. Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
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