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Categoria - Outras histórias Primórdios da TV Tupi - continuação Autor(a): Luiz Canales - Conheça esse autor
História publicada em 16/05/2012
Quando chegamos em São Paulo, meus pais, eu e meu irmão, fomos morar no bairro de Sumaré. Era um matagal. Morávamos na Rua Bruxelas. Não tinha luz e nem asfalto. De noite era um breu. Meu pai, Henrique Canales, era na época era diretor do estúdio do celebre "TV de Vanguarda", do produtor Dionizio de Azevedo (talvez sem o "de" não me lembro) e outros programas que também terminavam muito tarde. Às vezes minha mãe, Santa Braguim Canales, o acompanhava.

Para andar desde os estúdios da TV Tupi na Avenida Professor Alfonso Bovero até em casa eram dois quarteirões. Minha mãe vinha praticamente agarrada ao braço esquerdo de meu pai e na direita ele empunhava um revólver! E isso por que a São Paulo desses anos - falo dos anos 50 aqui - não tinha o mesmo perigo que hoje. Felizmente, nunca precisou disparar um tiro. Mais o medo imperava nas noites frias e de garoa, principalmente. A neblina era intensa.

Foram anos difíceis para nos, mas conseguimos vencer aos poucos. Os Canales, após a venda do Circo-Teatro Oni de meus avós, continuavam quase juntos. Digo quase, pois nem todos estavam na TV Tupi, e muito nem se encontravam em São Paulo. Minha tia Gilberte Canales foi uma das primeiras a deixar o circo, quando se casou com um fazendeiro do Paraná. O Roberto Canales um dos três irmãos, também foi para o Paraná. Em São Paulo ficaram os Canales: meu pai e família, o Walter Canales (depois conhecido como Stuart) e a Cachita Canales (depois conhecida como Stuart também).

O Walter morava em uma casa na esquina da Rua Bruxelas, apenas um quarteirão de onde morávamos e na outra esquina da Bruxelas com a Av. Alfonso Bovero residia a Cachita Stuart com meus avós, Henry Albert e Conchita Canales. Ele era nascido em Tunis, África Francesa, e minha avó era de Uveda, provincia de Jaen na Espanha. Meu avô foi o empresário do Circo Teatro Oni, que antes de ter esse nome pertencia ao Queirolo, famoso palhaço circense conhecido como "Chicharrao". Meu avô comprou o circo da famosa família Queirolo e com ele rodamos o Brasil até nos estabelecemos em São Paulo.

Nessa mesma redondeza entre as Ruas Bruxelas e a Av. Alfonso Bovero, vieram morar também o Fernando Baleroni, Laura Cardoso, Lolita Rodrigues, Lima Duarte, o cantor Leo Romano, o Dionizio Azevedo, a atriz Clenira Michel (no mesmo prédio onde morava a Cachita Stuart) e alguns outros nomes famosos daqueles primórdios da TV Tupi.

Quando chegamos em São Paulo, no inicio dos anos 50, o Walter Stuart já era um nome bem conhecido, fazia dupla com o Davi Neto em muitos "sketches" conhecidos pelo título de "A Bola do Dia." Mais tarde o Walter criou o personagem "Olindo Topa Tudo" do qual meu pai, irmão do Walter, era diretor de estúdio. Mas os dois irmãos não se davam bem. Meu pai também dirigia o programa "TV de Vanguarda”, "Almoço com as Estrelas”, "Alô Doçura" do Cassiano Gabus Mendes, estrelando a Eva Wilma e o John Herbert. Dirigia também o "O Clube dos Artistas, do Airton Rodrigues, então casado com Lolita Rodrigues." e outros que não me recordo no momento.

E foi nesse ambiente, nessa São Paulo linda, da garoa, daqueles anos, que passei o resto de minha infância e de minha puberdade. Lembro-me de acontecimentos na Tupi como o da morte prematura de Amilton Fernandes. Lembro-me de uma atriz, cujo nome não posso mencionar, que era amante de um violinista da orquestra da Tupi. Em um certo dia, uma senhora se apresentou no portão de entrada da Tupi e disse ser grande admiradora daquela atriz e que desejaria vê-la. Não foi difícil. A atriz foi apresentada a sua admiradora que era a esposa do violinista. Na apresentação a esposa presenteou a atriz com duas bofetadas na cara.

Meu pai era homem extremamente ciumento. Isso contribuiu muito para que minha mãe não seguisse carreira. Por um lado ele queria que ela tivesse um lugar ao sol, mas por outro não gostava de vê-la nos corredores conversando com este ou com aquele ator ou diretor, ou fosse lá quem fosse. Os fuxicos ferviam pelos cantos e corredores. Os rumores de quem andava com quem era o Pão Nosso de cada dia. E por trás do ciúmes de meu pai reinava a politicagem contra ele mesmo por ser um homem durão. Definitivamente, não era ambiente para minha mãe. Foi uma grande perda para o mundo artístico.

Minha tia, a Cachita Stuart, muito jovem ainda naquela época, era muito controlada e vigiada pela mãe, minha avó. Fosse a hora que fosse, se a filha estava no camarim ou nos estúdios, lá estava a mãe, dominante como uma rainha espanhola, durona, vigiando a filha. Eram outros tempos. Moça direita não dormia com ninguém até a Lua de Mel. Mas minha avó perdeu sono e teve atritos com a filha sem necessidade, pois Cachita Stuart era moça honesta e honra era uma de suas virtudes. Até certo ponto foi injustiçada na carreia. E deixou os estúdios para se casar nos anos 60. Cometeu um grande erro deixando a carreira para se dedicar a ser dona de casa. Foi representante do plano de saúde "Golden Cross" por alguns anos.

Mas no meio de todo esse show business e não há coisa melhor que show business - adorava e adoro o meio artístico - minha mãe passou então a se dedicar mais a família e não deixava de levar eu e meu irmão ao cinema todos os fins de semana. Era outro mundo que ela e eu adorávamos, o mundo do cinema! O programa era "cinema, pizza e guaraná!" “Uma sessão corrida, dois filmes, em cinemas da Avenida São João, não me lembro dos nomes e nem sei se ainda existem; ou no Cine Republica, na Praça da Republica" onde me lembro ter visto "El Cid" (1960) aquela superprodução estrelado por Sophia Loren e Charlton Heston. Havia também o Cine Marabá perto da Praça da Republica, o Cince Cairo, e vários outros. Após uma sessão de um filme de "cowboy" e um musical, nossos gêneros favoritos, entre outros, se comia pizza com guaraná. Acabava o dinheiro mas íamos para casa feliz. Não havia perigo nas ruas da linda São Paulo. Havia "glamour" no ar.

Entre meus 15 e 20 anos virava São Paulo de perna para cima. Andava por tudo quanto era lado sem problema. Sempre soube me virar sozinho, era muito independente, e nos fins dos anos 50, até que deixei o Brasil em dezembro de l964, São Paulo era minha namorada. Sempre adorei a cidade. Tomava os ônibus da CMTC e ia para o Anhangabaú, Praça Patriarca, Rua Direita ou andava pela cidade ao sair da Escola Caetano de Campos onde cursei a quinta serie.

Mas voltemos aos filmes. E foi, então, em uma dessas idas ao cinema que descobri a Gina Lollobrigida. O filme? "A Mulher Mais Linda do Mundo" (l958). O cinema? Não me lembro. Que importa. O que realmente valeu foi que fiquei enfeitiçado pela Lollo, mas como dizia o Julio Gouveia no final do "Teatro Julio Gouveia" dos domingos de manhã, "esta e uma história que fica para outra vez”.

Quando escrevi meu último relato sobre os primórdios da TV Tupi e minha vida em São Paulo, os Canales e os Stuarts, mencionei quais estavam ainda vivos. Depois desse relato, todos já sabem, faleceu o Adriano Stuart. A Cachita Stuart precisou ser hospitalizada, mas felizmente conseguiu voltar bem para casa.

Há anos que o Adriano vivia em profunda depressão, fumava e bebia muito em uma vida solitária em um apartamento que pertencia ao Lima Duarte. Uma carreira e uma vida, ainda jovem, cortada prematuramente. Sua última esposa - se divorciou há muitos anos - foi a triz Márcia Maria - também falecida prematuramente. Minha tia vive com o marido na Rua Bela Cintra, travessa com a Avenida Paulista, minha avenida favorita em São Paulo.

Volto a São Paulo duas vezes por ano, e não saio da Avenida Paulista, essa avenida é o símbolo de São Paulo, a que fez São Paulo crescer através dos barões do café, por onde corria muito dinheiro. E assim é ainda hoje, com seus bancos, shoppings e negócios multinacionais. São Paulo é o coração do Brasil.

Quem diria que de Quata, onde nasci no Estado de São Paulo, iria do circo para os estúdios da pioneira TV Tupi, depois iria me deslocar para o "campus" da Brigham Young Universtiy em Utah, e ainda lecionar em uma universidade em Kyoto no Japão. Minha vida de cigano continuou, mas o coração ficou em São Paulo.


l_canale@kufs.ac.jp
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Publicado em 02/06/2012 Faltou pouco para nos encontrarmos em Provo - Utah, teria sido uma mudança da minha vida..... Enviado por João Batista Braghin - braghinjb@hotmail.com
Publicado em 23/05/2012 Outra linda e histórica crônica de vida e história da TV Tupi recheada de emoções,fatos curiosos,impressões,memórias de São Paulo,da vida dos irmãos Stuart,também da vida circense da família e da sua própria e interessante trajetória.Parabéns pelo importante e magnífico registro! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 22/05/2012 Amigo,Luiz na sua lista favor adicionar estes
nomes,José Parisi,Percy Aires,Vida Alves,Rolando
Boldrin,Henrique Martins e Armando Bogus abraços.
Enviado por antonio pinto alves - antonio.palves@yahoo.com.br
Publicado em 22/05/2012 Amigo,luiz obrigado pelo seu,E-mail:abraços. Enviado por antonio pinto alves - antonio.palves@yahoo.com.br
Publicado em 21/05/2012 Luiz, o seu texto -e a a sua história - são apaixonantes. Meus parabéns. Ao ler o seu magnífico texto, fiquei viajando junto, numa São Paulo em que eu ainda não havia nascido, mas muito ouvi sobre a TV Tupi. Eu sempre, ao passar por ali, olhava com curiosidade e respeito aquele local. Lindo texto. Um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 21/05/2012 Luiz , Circo Teatro Oni. Lembro-me muito bem a chegada do circo, a minha pequena cidade de Chavantes, no Est. de São Paulo. Cachita, que sucesso, garota bonita e super simpática. Mexeu com os corações de muitos rapazes da cidade. muita saudade. Enviado por Elmir zanotti - elmirzanotti@yahoo.com.br
Publicado em 17/05/2012 Luiz, eu, e acredito que muitos que leem e escrevem para este site, vivenciamos e conhecemos todas as pessoas, acontecimentos e, principalmente, a época que vc nos apresenta. Mas que vida, heim!? Agitada, mágica... do circo e posteriormente, do ambiente artístico da TV para a maluquice e as idiosincrasias mormons de Utah, e, em seguida, para aulas ministradas em Kioto, naquele pedaço de mundo que está de cabeça prá baixo...
Não sabia das crises depressivas do Adriano (nem poderia saber, claro!), mas sempre o considerei o melhor ator da TV, absolutamente natural, voz bem colcada, posura coerente com o personagem e isso desde criança, no Sítio do Picapau Amarelo (para os esquecidos ou não sabedores: a Globo não inventou o Sítio!!! Foi uma "invençao" da Tupi, de Júlio Gouveia em 1951, Lúcia Lambertini como Emília), quanto ao Valter Stuart, eu sempre via nele algo circence, mas agora está explicado graças a sua história... Não tenho nenhuma vergonha em dizer que invejo sua vida...
Ignacio
Enviado por joaquim ignacio de souza netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 17/05/2012 Marcolino o David José não foi o Pedrinho do Sitio do Pica Pau Amarelo de Julio Gouveia meu amado mestre, sentava ansiosa para assistir seu Teatro da juventude...Hoje sou uma contadora de Histórias.
Tempo maravilhoso...Bom poder ler tudo isto.
Abraço a todos.
MC
Enviado por mary clair peron - clairperon@hotmail.com
Publicado em 17/05/2012 Fundamental e complementar 'a narrativa sobre os primórdios da TV em São Paulo e no Brasil. Novamente o Canales aprimorou seu conteúdo de forma a não perder interesse e emoção de quem leu a primeira parte. Detalhes interessantes e curiosos a respeito de personagens nos bastidores da celula-mater da nossa televisão. Parabéns, Luiz, pelo seu trabalho de pesquisador familiar. (não sei se vc recebeu meu e-mail sobre a família Sarraceni). Meus agradecimentos por esta narrativa cheia de informações.Mo Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 17/05/2012 Amigo,Luiz voce não pode se esquecer de Toni Ramos
Jean Carlos,Paulo Figueiredo e Denis Carvalho
todos participantes de novelas,tambem Altair Lima
e Carlos Alberto Riccelli,abraços.
Enviado por antonio pinto alves - antonio.palves@yahoo.com.br
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