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Categoria - Paisagens e lugares O que há em comum entre a Cidade Satélite de Interlagos, Avenida Washington Luís e o Aeroporto de Congonhas? Autor(a): Carlos Fatorelli - Conheça esse autor
História publicada em 30/08/2012

O empreendedor Louis Romero Sanson, cidadão britânico, nascido em Trindade e Tobago, no Caribe, formou-se engenheiro em Caracas, na Venezuela, e viveu por 45 anos no Brasil tornando-se presidente da Autoestradas S/A. Em 1925 criou, juntamente com D. L. Derrom, a empresa S/A Derrom-Sanson, que tinha como objetivo a "construção e conservação de estradas de rodagem, terraplanagem, arruamento e calçamento", e serviços afins. Assinaram contrato com o governo paulista para a construção da estrada de rodagem que ligaria o litoral de Santos à cidade de São Paulo, não concretizada pelos novos empresários por dificuldades econômicas de então, que não garantiram aporte suficiente para financiamento da empreitada.

Tinha no rol de seus colaboradores homens de visão e conhecimento de engenharia civil entre os quais o engenheiro Alberto de Zagottis e o engenheiro norte-americano Asa White Kenney Billings, com quem trabalhou em conjunto na implantação da usina hidroelétrica de Cubatão, pois com a construção da barragem do Rio Grande e o deslocamento da estrada de rodagem Rio-São Paulo era necessário o conhecimento e experiência em engenharia de estradas, referências do currículo de Sanson, pois a estrada antiga que existia iria ficar parcialmente submersa, necessitando novo traçado.

Mais tarde, a Autoestrada S/A, empresa criada por Sanson, projetou a construção de uma nova estrada que ligaria São Paulo a Santo Amaro, que teve inicio em 1927, pelo lado de São Paulo, e as obras foram somente concluídas em 1933. O trajeto total tinha 14 quilômetros, começando na Avenida Brigadeiro Luís Antônio até o pedágio na Vila Sophia, próximo à Chácara Flora, seguindo depois por outro acesso em direção à Represa Velha de Santo Amaro, atual Represa de Guarapiranga.

Em 1929, a "nova" autoestrada foi inaugurada, com parte do leito em concreto e outra parte ainda em terra, sendo que o revestimento com asfalto foi concluído dois anos depois. A empresa enfrentou problemas financeiros decorrentes da inadimplência de seus clientes, o que dificultou o andamento das obras, mas não chegou a paralisá-las. Em 1940, foi construída uma variante em direção à represa, exclusiva para a "Cidade Satélite da Capital" (depois o bairro Interlagos) e ao futuro Autódromo. Porém, nessa época, eram poucos os que possuíam automóveis e a empresa Autoestrada S/A implantou também uma linha de auto-ônibus entre São Paulo e Santo Amaro, para facilitar o acesso ao empreendimento.

A propaganda da autoestrada procurava passar uma visão de nova via voltada para o automóvel, ligando duas cidades: a de São Paulo e a de Santo Amaro, embora esta última houvesse perdido sua autonomia política e administrativa a partir de 1935. São Paulo também necessitava de outro "campo de pouso" para a aviação em plena expansão, pois o existente Campo de Marte não atendia mais as demandas do tráfego e as exigências das companhias aéreas. Apesar de não ser proprietária da gleba, a Autoestradas S/A tinha opção de venda dos 880 mil m² da região de Congonhas e lhe interessava comercializar essas terras para a instalação do novo aeroporto. Os argumentos técnicos para convencer o Governo do Estado a adquirir aquela gleba eram: sua acessibilidade, visibilidade, drenagem e área disponível. Várias estratégias foram usadas para convencer o interventor estadual à época, Armando de Salles Oliveira, a optar, entre as ofertas, pela região de Congonhas, e finalmente acabou autorizando a compra destas terras, depois de uma enchente do Rio Tietê que interditou por meses o Aeroporto do Campo de Marte, na região de Santana.

Deste modo, se apressou a construção de um novo "aeroporto", optando-se pela construção em local mais alto e protegido contra eventuais alagamentos. O Aeroporto de Congonhas foi planejado na década de 30, e em 1936 ainda não possuía infraestrutura básica (hangares, acomodações, pistas pavimentadas e outras necessidades para a aviação regular) para tráfego aéreo e apenas era usado como campo de pouso. Em 1938 o aeroporto já estava operando com voos de passageiros e de cargas, além "de aviões militares, de treino e de turismo, conforme relatório da Secretaria de Viação e Obras Públicas de São Paulo".

Foi escolhido para idealizar o projeto o engenheiro britânico Luiz Romero Sanson, um dos proprietários da Autoestradas S/A, Renato Arens, filho do fundador do bairro de Indianópolis (Moema) e um dos primeiros pilotos da Vasp, juntamente com seu instrutor, o comandante Renato Pacheco Jordão, foram os primeiros a pousar no campo de aviação experimental de terra do "Campo da Autoestradas". A pista também seria usada para pouso e decolagem de monomotores CAP-4 Paulistinha, idealizado pela Empresa Aeronáutica Ypiranga, criada em 1931, e depois adquirida pela Companhia Aeronáutica Paulista, fundada em 1942, de propriedade do empresário brasileiro Baby Pignatari, neto de Francisco Matarazzo.

Em conjunto com a implantação do Aeroporto estava o empreendimento de novo conceito urbanístico, idealizado através da autoestrada de rodagem entre São Paulo a Santo Amaro, sendo a primeira estrada de concreto denominada depois de Autoestrada Washington Luís e se tornando mais tarde a Avenida Washington Luis, partindo da região do lbirapuera, na Vila Mariana, para Santo Amaro passando pelo bairro de Indianópolis, chegando ao bairro de Interlagos, onde foi implantado o Autódromo de São Paulo. Ambos, aeroporto e autódromo, foram empreendimentos projetados e executados pela empresa Autoestradas S/A.

Louis Romero Sanson, homem de grande visão, prevendo a grande expansão urbana da capital adquiriu terras entre as represas Guarapiranga e Billings, por volta de 1937, contratando inclusive o urbanista francês Alfred Agache para elaborar o projeto urbanístico de um "novo" bairro, concebido como "Cidade-Jardim", com áreas destinadas ao comércio, indústria, edifícios residências, áreas de lazer com bulevares, além de projeto para hotel e igreja. Deste modo, nasceria um novo bairro, o "Balneário Satélite da Capital", iniciado pela empresa Autoestradas S/A, localizado em uma área entre dois lagos formados, da Represa Velha de Santo Amaro (que depois recebeu o nome do rio represado, Guarapiranga) e a Represa Nova (Billings).

O engenheiro inglês tinha como concepção de projeto construir um autódromo com planejamento para os lagos da região de Santo Amaro, para a prática náutica e um estádio com pista de atletismo. A crise da economia mundial com a quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929 e o advento da 2ª Guerra Mundial impediu novos projetos, mas o autódromo estava prestes a se concretizar, se tornando realidade, pois Sanson já havia optado por um terreno côncavo considerado um "enorme buraco" por aqueles que não acreditavam no projeto. O formato, por sua vez, ajudava o público a visualizar quase toda a pista pela condição natural da geografia do terreno de altos e baixos que permitia idealizar um projeto com pista de subidas e descidas. Sanson era um estudioso e, antes de planejar, observava e estudava projetos idealizados em outras partes do mundo. Utilizando sua experiência de engenheiro de estradas, aproveitava para idealizar o circuito de uma pista de qualidades invejáveis, sendo que o circuito depois de concluído teria a extensão de 7.823m, com curvas de alta e baixa velocidade completada por retas longas e traçado perfeito.

O arquiteto francês Alfred Agache, contratado para desenvolver o loteamento do Balneário Satélite da Capital, sugeriu a mudança do nome do novo empreendimento aproveitando a localização entre os dois lagos artificiais; propôs duas alternativas: Intralagos ou Interlagos. Para Agache as represas lembravam a região Suíça de Interlaken, razão suficiente para Sanson batizar seu empreendimento com o novo nome por sugestão de sua filha, Jean Romero Sanson, escolheu-se o nome Interlagos. O engenheiro Sanson implantou o autódromo como chamariz para a venda dos lotes residenciais, querendo aproveitar o potencial turístico formado pela "praia do interior paulistano", no início dos anos 40, com areia vinda de Santos para ser colocada na orla da Represa de Guarapiranga.

Em abril de 1939, no autódromo em obras, um grupo de pilotos, liderado por Manoel de Teffé, deu as primeiras voltas na pista. A inauguração oficial do Autódromo de Interlagos, em São Paulo, deveria ocorrer em 26 de novembro de 1939, conforme citação jornalística publicada na Folha da Manhã: "Conforme tem sido amplamente noticiado, serão disputadas hoje três provas, uma destinada a carros de typo de turismo, denominada Prova de Turismo Interlagos e que será iniciada às 13 horas. Outra para motocycletas, o 1º Grande Prêmio Motocyclistico "São Paulo", destinado a qualquer categoria de machinas e, finalmente, o Grande Premio Automobilístico "São Paulo", para carros de corrida e adaptados" (ortografia da época). Haveria um prêmio em disputa de 200 contos de réis com prova patrocinada pelo Automóvel Club de São Paulo e dirigida pelo Automóvel Club do Brasil. A infraestrutura local e locomoção para ida e volta ao evento não existia, pois o único transporte coletivo eram os bondes que chegavam somente até a Capela do Socorro, e o local do Balneário nesta época era ermo, embora a idéia de Sanson fosse completar a autoestrada, para facilitar o acesso, ao menos, a quem possuísse automóvel. Os jornais do dia 28 anunciaram: "Não houve corrida e nem inauguração, por causa do mau tempo".

Para facilitar o acesso ao loteamento, à praia, ao autódromo e, ainda, estimular a ocupação da região, construiu-se também a Avenida Interlagos e a ponte sobre o Rio Jurubatuba. Wilson Fittipaldi, "O Barão", grande nome do automobilismo brasileiro, em depoimento, disse: "Naquele final dos anos trinta, ir a Interlagos era uma novela. Pagava-se pedágio de mil e poucos réis para passar sobre uma ponte limítrofe a pista, porque a estrada de acesso ao autódromo cortava um loteamento pertencente à companhia Autoestradas, construtora do circuito". Pelo decreto nº 370, de 30 de novembro de 1942, mantinha-se um projeto da largura uniforme de 21 metros em toda a extensão da avenida a ser aberta, ligando o Largo do Socorro à Estrada do Guarapiranga, sendo anunciada a inauguração da avenida e da ponte de Interlagos em matéria jornalística de 6 de junho de 1945: "Estiveram ontem no Palácio os srs. Abelardo Vergueiro César, L. R. Sanson e Isidoro A. Matos Ferreira, diretores da S. a. Auto-Estradas, que convidaram o Sr. Interventor federal para a inauguração da avenida, ponte e Hotel de Interlagos, a realizar-se amanhã às 13h30."

O Autódromo de Interlagos finalmente abriu oficialmente seus "portões", no dia 12 de maio de 1940, com uma plateia encostada em alambrado de madeira, assistindo ao evento que possuía como atrativo o custo baixo para ingresso de arquibancada. Aproximadamente 15 mil pessoas assistiram ao Grande Prêmio São Paulo, cujo vencedor foi o piloto Arthur Nascimento Júnior, percorrendo 25 voltas da prova em 1 hora, 46 minutos e 44 segundos. Ele pilotava uma Alfa Romeo 3.500 cc. O segundo colocado foi Francisco Landi (Chico Landi), com um Maserati 3.000 cc; Geraldo Avelar, com outra Alfa Romeo, chegou em terceiro.

A "Cidade Satélite de Interlagos", contudo, não chegou a se concretizar como planejado por Sanson. O loteamento do bairro de Interlagos, com sua topografia privilegiada pela presença da Represa Guarapiranga de inestimável valor ambiental, paisagístico, histórico e turístico, tendo grande preservação e a manutenção física dos variados elementos componentes do espaço urbano de fundamental importância ao bem-estar e cidadania, só começou a ser efetivamente ocupado a partir dos anos 70, quando a área foi declarada Zona Estritamente Residencial. O “Conselho Coordenador das Sociedades Amigos de Bairros, Vilas e Cidades de São Paulo”, que possuía sede à Rua Japurá, 190 e 192, tinha nos anais dos registros das “Sociedades Amigos de Bairros” o registro da "Sociedade Amigos de Interlagos", como sendo à Rua Mangaratiba, 316, Cidade Dutra. Essa atividade, estritamente social, teve sua plenária instituída em 16 de julho de 1959 e assumia as causas requeridas pelos moradores do novo bairro. Houve levantamentos e estudos realizados pelo Departamento do Patrimônio Histórico que foram de suma importância para o tombamento pelo Conpresp, em 2004, protegendo, assim, o traçado urbano, as praças, as áreas verdes e a vegetação de porte arbóreo.

Um capítulo a parte estava reservado entre as duas maiores Cervejarias de então: Antártica e Brahma, às margens da represa Guarapiranga, hoje unidas pela Companhia de Bebidas das Américas, Ambev. De um lado da represa, na margem esquerda, estava a filha do fundador da cervejaria Antártica, Elsie Von Bullow, e do outro lado ficava o diretor da Brahma em São Paulo, Robert Kutschat, um imigrante alemão. Os primeiros construíram, na década de 20, uma casa sofisticada, de linhas clássicas, com varanda de colunas com bela vista para o lago recém-represado. Na margem oposta Robert construiu um "castelo" com direito a torre com vista panorâmica, brasão na fachada e móveis criados a partir dos cenários de um filme, que sua esposa Augusta fez questão que os marceneiros da Casa Alemã assistissem e reproduzissem fielmente.

Nos anos 50, o castelo foi cenário de um filme de mistério da Companhia Vera Cruz, estrelado por Procópio Ferreira, Mario Sérgio e Elaine Lage. Robert e sua família moraram no "castelo" até sua morte em 1948, depois adquirido por Luis Romero Sanson. Ele alugou o castelo para uma missionária escocesa, que manteve ali uma escola interna para moças, a "Saint Georg School". Em 1958, para amortizar dívidas, Luis Romero repassou a área ao Banco A. E. Carvalho, que fundou em 1959 o Clube de Campo do Castelo. A casa de Elsie tornou-se uma loja de artigos de “windsurf”, e a de Robert tornou-se a sede social do Clube de Campo do Castelo.

O Autódromo de Interlagos passou a ser denominado "Autódromo José Carlos Pace", em homenagem a um dos maiores pilotos brasileiros. O Autódromo passou a administração municipal em 1954, sendo conhecido mundialmente pela presença da Fórmula 1. A "Autoestradas Sociedade Anônima" e a "Interlagos Cidade Satélite da Capital" ou simplesmente "Interlagos", tornou-se realidade desta bela região paulistana.


E-mail: cafatorelli@gmail.com

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Publicado em 29/06/2014

Sr. Fatorelli,sou morador da região objeto de sua história !

Meus parabéns,obra digna de um mestre !!!

Abs.

Nilton Bovo.

Enviado por Nilton Fernando Bovo - nfbovo@terra.com.br
Publicado em 30/08/2012 Fatorelli, li e reli a sua didática narrativa. Digna de um pesquisador e historiador com H maiúsculo.
Vc abordou muitos ítens que sempre tive um pouco de
curiosidade de saber. Imaginava sempre, como deveria
ser tal lugar há meio século atrás?
No final vc cita o José Carlos Pace e veja que ironia do
destino: A família sempre o pressionou para abandonar
o automobilismo, por considerar um esporte perigoso.
Veio a falecer de um desastre aéreo.
Meus parabéns ! Um abraço.
Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 30/08/2012 Longa, porém muio atraente leitura sobre fatos envolvendo Sto Amaro e a construção da pista de Interlagos. Fiquei sabendo como nasceu o nome da internacionalmente famosa pista, com riquesa de detalhes dignas de um grande pesquisador. A narrativa se enobrece com menções de nomes envolvidos nesse empenho, numa escrita bem explícita e com parágrafos bem distribuidos. Parabéns, Fatorelli.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 30/08/2012 Fatorelli, digo com humildade e uma honra infinita ler essa sua escrita, sempre gostei de Santo Amaro onde de criança com meus familiares varias vezes fiz PIC-NIC e lendo aqui seus históricos textos, fico mais apaixonado por esse bairro querido, que um dia já foi cidade. Parabéns Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 30/08/2012 Santo Amaro e sua grande diversidade industrial, agora comercial se expandindo rumo a Serra do Mar, outra coisa comum na região é a grande Usina Piratininga, próximo do autodromo, parabéns,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 30/08/2012 Carlos, parabéns pelo didático texto, aumentou meus conhecimentos sobre os locais citados, abraços, Leonello Tesser (Nelinho).- Enviado por leonello tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 29/08/2012 Carlos, você tem um conhecimento tão refinado, que leio os seus textos várias vezes e ainda recomendo. Fascinante! Você conhece muito, meu amigo, e profundamente, sobre a história de S.P. Como eu te admiro! Só me resta um humilde parabéns e a expectativa de novos textos riquíssimos como os demais. Um grande abraço e obrigada por partilhar conosco essas informações preciosas. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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