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Categoria - Paisagens e lugares "Uma certa Vila na Rua Santo Amaro - Bixiga" Autor(a): Nelson de Assis - Conheça esse autor
História publicada em 22/01/2013
Não me lembro de seu nome e nem o número de sua porta, mas a vila de moradores da Rua Santo Amaro, bem próxima do viaduto Jacareí, era única em sua espécie. Tinha uma discreta entrada com um portão de madeira que dava acesso a uma escadaria de muitos degraus para depois, outras escadas (uma de madeira que dava acesso ao andar superior) fazia descortinar um quase labirinto de pequenas casas, aconchegantes e singelas.

Não sei quantos degraus. Eram muitos. Às vezes, de pequenos lances e patamares com passadiços para as casas. Em um quase último lance de escadas, ficava a casa de minha saudosa prima Gladys, mãe do “Nenen”, apelido do hoje já quase velho Alcides. Moravam em uma casa de dois quartos, cozinha e banheiro (não havia sala) e um dos quartos era de uso exclusivo de tia Ana, mãe da Gladys. Era uma senhorinha de pequena estatura, mas com ares aristocráticos. Fora cozinheira de forno e fogão de famílias abastadas e era contratada de uma casa de alguns nababos da famosa Rua Peixoto Gomide, nata dos bem sucedidos de nossa paulicéia.

Era um emaranhado de casas, umas por cima das outras e, a de minha prima ficava no meio daquele “sanduíche”. Acima, morava uma colega minha de escola, Regina. Uma garotinha “gordinha”, muito simpática em que certa vez, por ocasião de seu aniversário, experimentei um “micro” pastel de queijo que trago o sabor até os dias de hoje.

Minha prima teve o privilégio de morar em uma casa que oferecia um ótimo espaço com um avarandado amplo, onde meu primo, o Neném, dispunha de um espaço generoso para sua distração. Vizinho à sua casa ficava a casa do Samir, filho da Anilza que, por serem filhos únicos, ocupavam seu tempo com brincadeiras e outros folguedos que a época lhes permitia.

Na parte de baixo, morava uma senhora por nome Elisa, de traços arianos bem definidos, denunciando a sua descendência européia. Dona de uma personalidade forte, sua austeridade era ímpar e, bastava apenas um só olhar para a molecada parar com as bagunças e os furdunços perturbadores da paz e tranquilidade do lugar. Era uma pessoa que inspirava o máximo de cuidado por sua enérgica postura de “matrona”, mas só vim ter melhor proximidade quando então me casei e, ao apresentar-lhe a minha esposa, recebemos de sua boca os mais concretos e verdadeiros conselhos para uma vida a dois. Pois é. As aparências enganaram-me por muito tempo, pois neste primeiro contato, pude ver que se tratava de uma pessoa suave, delicada e com bastante experiência de vida.

O total de casas, não sei. Só sei que eram muitas. Com certeza algumas dezenas, de todos os tipos. Algumas com dois quartos, cozinha e banheiro, outras com apenas um quarto, algumas com cubículo único, mas tudo na perfeita ordem, de boa conservação.

Voltando à entrada principal, havia um alfaiate que atendia pelo também apelido de “Seu Nenén” e que fazia as vezes de “porteiro do condomínio”, recebendo correspondências e recados para os moradores. Fui seu freguês no “blazer” de meu casamento, confeccionado em casimira inglesa com corte tipo “Luiz XV” (coisa mais cafona hoje em dia e nem sei que fim levou - risos). Era interessante vê-lo cortando os moldes dos ternos (paletós e calças) com um tesourão que mais parecia um destrinchador de peru natalino, mas a sua obra sempre finalizada com esmero e elegância para a alegria de sua clientela.

O terreno da vilinha era grande e acidentado, pois como já mencionei, tínhamos primeiro que subir um lance grande de escadas para depois descer muitos outros e nesse emaranhado percurso outros lances, quer subindo ou descendo, apareciam.

A vilinha limitava-se com o terreno de um dos prédios mais emblemáticos de São Paulo, que fica na Rua Japurá, pois se trata de um prédio de apartamentos “assobradados”. Isso mesmo. São apartamentos construídos com sala, cozinha e banheiro na parte de baixo e os quartos na parte superior, com acesso através de escada interna em cada unidade. Construção muito interessante.

Com o advento da tecnologia moderna e o computador, via internet e pelo “Google Earth”, já não mais existe a tão feliz “vilinha da Rua Santo Amaro”, mas de uma coisa tenho certeza. As saudades daqueles dias serão impagáveis. Ainda pelo “Google Earth”, suspeito que o que ficou no lugar da feliz vilinha foi um prédio de apartamentos de construção moderna, mas isso não é o que agora importa, mas sim saber para onde foram todos aqueles que um dia eu cruzei nas escadarias ou me esbarrei no umbral de sua porta principal.

A todos eles, as minhas sinceras saudades.


E-mail: nel.som55@yahoo.com.br E-mail: nel.som55@yahoo.com.br
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Publicado em 04/02/2013 Algumas vilas do Bixiga ainda resistem em meio aos arranha-céus.Parabéns por mais este belo registro da Vilinha da Rua Santo Amaro e sua memória e história. Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 25/01/2013 Passeei junto com seu relato pela encantadora vilinha que você descreve com tanta propriedade. Dizem que saudades é o amor que fica. Quem amou nunca esqueceu, quem esqueceu nunca amou. Enviado por Trini Pantigai - trinesp@ig.com.br
Publicado em 21/01/2013 Nelson meu companheiro, lembro-me bem dessa vila, muito embora nela nunca tenha entrado. A Rua Santo Amaro para mim, na epoca, resumia-se pela Padaria Java, onde eu gostava de consumir de suas iguarias.
O resto, ora o resto era só paisagem bixiguiana. Valeu recordar.
Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 21/01/2013 Nelson legal conhecer esse seu cantinho, em que, de algum modo todos nós tivemos e temos saudades. Gostei do seu blazer. Depois que meu professor José Aparecido me ensinou a me vestir, meus ternos passaram a ser aquele famozo "Jaquetão" tipo Caravele lá da nossa época. Me sentia um principe dentro dele. Grande abraço ... Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 21/01/2013 Como é bom, Nelson, percorrer de novo os caminhos das boas conversas e das ótimas experiências de vida! Obrigada por dividir conosco esses momentos tão importantes e especiais. Parabéns mesmo. Um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 21/01/2013 Nieson adorei passear pela vilinha que hoje deixa saudades. O lugar onde vivemos sempre desperta nossas emoções e isso eu senti ao ler seu texto tão lindo. Um abraço. Enviado por margarida peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
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