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Categoria - Outras histórias No tempo das marmitas Autor(a): Nelson de Assis - Conheça esse autor
História publicada em 01/02/2013
Quem um dia, na hora do almoço, depois do primeiro período de trabalho, fosse nas indústrias, fábricas, comércio, etc. não esquentou a velha companheira do horário do meio-dia, a inseparável marmita. Pois é. Lá estava ela. Solidária, amiga inseparável e, muitas vezes, cheia de surpresas. Meio-dia. O apito da fábrica anuncia o sagrado horário do almoço e, lá vamos nós para o refeitório, nos acomodarmos nas mesas coletivas para nos abastecer, já que a manhã foi um tanto quanto puxada e a fome já se anunciava desde muito antes.

No “bandeijão” de banho-maria, várias delas aqueciam-se no borbulhar da água quase em ebulição. Eram marmitas redondas, retangulares, umas fininhas e outras mais robustas. Em ágata ou alumínio, outras múltiplas, aquelas que vinham com uma alça e comportavam de tres a quatro unidades, próprias para os mais comilões. Também as térmicas, que dispensavam o pré-aquecimento, mantendo a temperatura dos alimentos em condições de consumo por várias horas, mas era necessário prepará-las pela manhã que só aqueles que morassem mais próximos de seu trabalho podiam dispor, já que acordar às 4h da matina para preparar a comida seria uma “barra”.

Tinham também algumas “estranhas”. Não eram marmitas, mas sim panelas, com tampa e tudo, com fita adesiva para que a tal tampa não se soltasse e oferecesse dificuldade para algum curioso. Algumas delas, marcadas com as iniciais de seus proprietários ou seus apelidos, para que não sofressem nenhum tipo de engano ou “desvio” de estômago, lá estavam elas. Todas juntas e reunidas, aquecendo-se para o mais sagrado dos momentos, a hora do almoço.

Minha marmita também por lá estava e, sempre uma surpresa, pois esquecia-me do “cardápio” do dia anterior, surpreendia-me com o seu conteúdo. Sim, pois, invariavelmente, o cardápio consistia quase sempre no “SDO”, ou seja “sobras de ontem”. Chegavam as marmitas, perfeitamente acondicionadas em bolsas, pastas, pacotes que mais pareciam uma roda de queijo ou rapadura, tudo para disfarçar o seu transporte, mas sempre descoberto pois, não se podia virá-las ou emborcá-las, senão a “melera” tava feita.

Quantas vezes, depois de retirada da geladeira pela manhã e, talvez por uma ação térmica mal formada, o choque de temperatura fizesse com que todo o seu conteúdo se estragasse pelo azedume. Aí, a coisa ficava braba e o odor insuportável. E o jeito era sair e comer uns quitutes na primeira birosca, caso não houvesse dinheiro suficiente nos bolsos para uma refeição digna, digamos, um “PF”.

Não havendo este contratempo, ainda deparávamos com um “criminoso” de refeitório, o sinistro e desconhecido “assaltante de marmitas”. Era aquela pessoa que se adiantava antes do horário do almoço e examinava qual marmita trazia a “mistura” mais apetitosa e a surrupiava, deixando o pobre do faminto proprietário a ver navios, somente com o arroz e feijão, pois que a carne, o ovo e as batatas (se houvesse), estes seriam de imediato “sequestrados” para boca e estômago não sabido e desconhecido e você que se virasse.

Havia também os mais atrevidos que “roubavam” a marmita inteira e deixavam outra com uma “gororoba” intragável para no dia seguinte e, como em um passe de mágica, voltar recheada de uma “gororoba” pior do que a do dia anterior. Era uma cara de pau sem limites e o pior é que quase nunca descobríamos o “facínora”.

Arroz, feijão, carne moída, ovos fritos (ou cozidos), batatas cozidas ou fritas (que ficam parecendo taliscas de madeira mole de um dia para o outro), alguns legumes, macarrão (este é um perigo pela possibilidade de azedar e, sempre azeda), fígado (que sempre “esverdeia” dando um ar de “hematoma”). As salsichas também foram um complemento heróico em quase todas elas e as verduras como a couve e o repolho sempre se destacavam. O problema só se apresentaria de duas a três horas depois com alguns “distúrbios” digestivos que causavam os indesejáveis “gases flatulosos”, acompanhados de odores nem sempre respiráveis e sempre promovido por um “flatulador silencioso”, cínico desrespeitador dos ambientes confinados e do direito de livre respirar de seus colegas de trabalho.

Marmitas e cardápios à parte e, ao fim de cada jornada, lá iam elas, as marmitas, de volta para casa, depois de cumprirem o seu papel de heróicas abastecedoras dos estômagos roncadores do horário do meio-dia, para retornarem no dia seguinte, abastecidas, muitas vezes de incógnitas surpresas. Ainda encontramos muitas marmitas e “marmiteiros” por aí, apesar dos modernos restaurantes “self-service” e da nova legislação trabalhista que obriga as empresas a manter refeitórios próprios para seus funcionários, com a finalidade de eliminar os males digestivos, oferecendo uma alimentação fresca e saudável.

Mas, marmita será sempre marmita, para as horas mais necessárias e sempre será referência de humildade e coleguismo. Quantos de nós, aqueles que já foram “marmiteiros”, não dividiu o “rango” com um colega mais desafortunado de “mistura” ou quantos romances tiveram início no compartilhamento de uma marmita. Aquele que não foi marmiteiro que se apresente agora e tenha a coragem de contestar esta crônica ou se cale e se debulhe em lágrimas por não ter tido a oportunidade de saborear o sabor do lirismo e do romantismo de ter sido um “marmiteiro”.


E-mail: nel.som55@yahoo.com.br E-mail: nel.som55@yahoo.com.br
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Publicado em 04/02/2013 Nelson, fui marmiteiro como muita honra e nem disfarçava porque minha pastinha meio preta esverdeada nem tinha como. No mesmo onibus tinha um cara metido a besta e que alem de disfarçar ainda levava por baixo do paletó. Um dia o onibus deu uma brecada e lá foi sua marmita pro chão, esparramando feijão prum lado, arros pro outro e um zóião (ovo frito) que caiu bem no meio do corredor. Depois dessa, sumiu e nunca mais o encontrei.
E pensar que hoje as Empresas dão vale refeição (Ticket) que dá e sobra prá comer bem nos restaurantes a quilo.
Enviado por juvenal cardoso - jucabala@hotmail.com
Publicado em 03/02/2013 Nelsom, na verdade, eu nunca fui marmiteiro. Não precisei usar deste artefício, embora soubesse que não teria sucesso se tivesse que usá-lo.
Mas, por diversas vezes no comando de estive equipes de marmiteiros e tive de intervir para resolver pendengas causadas pelos "visitante invisível".
Era de doer o coração!
Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 03/02/2013 Lembro com tristeza que deixei muitas vezes de levar marmita por não ter nada para levar,minha mãe embrulhava um pedaço de pão passado na banha que ela colocava na frigideira e tostava dos dois lados,confesso até que era gostoso,mas não era uma refeição,e eu comia escondido por me sentir envergonhada... Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 03/02/2013 Nelson a minha experiencia com marmita foi muito o maior drama da minha vida, e deixou uma grande cicatriz em minha alma. já contei essa minha historia pelo Brasil inteiro e até gravei uma fita
com uma palestra que continha essa minha triste história dos meus 16 anos de idade, muita gente á conhece, inclusive o companheiro José Beira, que já me pediu para que eu a conte aqui no site, vamos ver, um dia eu crio coragem e conto. Parabéns pela narrativa.
Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 02/02/2013 Pois e Nelson eu nao fui marmiteiro em si , mas fui entregador de marmitas , coisa que me tras lindas recordacoes. Quando era garoto devia ter uns 11 anos tinha a obrigacao de levar o almoco em marmitas para minhas irmas que trabalhavam na Sao Paulo Alpargatas no Braz, e sempre correndo pois as vezes estava perto das porteiras e elas fechavam ,se o conteudo era sopa coitadas das manas quase nao chegava nada , e ai era bronca na certa. Otima cronica . Abracos Felix Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 02/02/2013 Esqueçam as marmitas,tive o privilegio de nunca carrega-las,mas tive amigos que comeram de marmita,vejam o q. o amigo do Fatorelli fez,devia ser um "troglodita",isso envolve até Min. da Saúde,tomara que não exista mais isso? Afinal temos um "presidenta" assim comos "estudantas". (ela quer tirar o povo da miseria). Enviado por vilton giglio - viltongiglio@25gmail.com
Publicado em 01/02/2013 Durante muitos anos eu também carreguei a minha inseparável marmita de alumínio preparada por mamãe com tanto esmero. Após preparada eu a depositava carinhosamente na milha pasta "007" preta e pegava o lotadíssimo ônibus CMTC que fazia a linha: Cidade A.E.Carvalho - Parque Dom Pedro II. Ótimas recordações neste seu texto...Marmitas.Tenho um texto também chamado "Marmita"...irei enviar para ver se será publicado. Parabéns Nelson! Enviado por luiz carlos da silva - lucasi__@hotmail.com
Publicado em 01/02/2013 Esplendida narrativa de um autêntico marmiteiro, Assis, com aquelas ocorrências desagradáveis muito bem relatada por vc. Por morar num bairro central, como o Braz e trabalhando ao seu deredor, nunca precisei recorrer a esse sistema de alimentação. Sempre respeitei a essa recorrência por julgar o esforço de se obter uma boa refeição, apesar de determinados políticos apelarem pra essa camada do povo, dando um conceito um tanto ou quanto pejorativo.
Parabéns, Nelson.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 31/01/2013 NELSON: DEU SAUDADES DOS ANOS 60 QUANDO EU TRABALHAVA DE BOY NO LARGO DO PAISSANDU,MINHA MÃE FAZIA COM TODO AMOR A MINHA MARMITA,ELA DEIXAVA MUITAS VEZES DE COMER A SUA MISTURA PARA DAR PARA MIM,MARMITA AMARRADA COM FITA DE BORRACHA,QUE SAUDADES DA MINHA MÃE,RUBÃO Enviado por RUBENS ROSA - RROSA49@YAHOO.COM.BR
Publicado em 31/01/2013 É, Nelson, apesar da dureza, vivemos as transformações, as dificuldades e soubemos lidar om elas com bom humor. Um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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