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Categoria - Outras histórias Um batismo nordestino Autor(a): Modesto Laruccia - Conheça esse autor
História publicada em 04/02/2013

Morei na Rua do Gasômetro de 1960 a 1969, onde tive várias emoções de caráter familiar, profissional e problemas de saúde, chegando a me considerar um viúvo com apenas 30 anos e três filhos pequenos. Pedia a Deus que devolvesse a minha mulher a saúde que ela tinha. Fazia parte da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus, a pedido de meu pai, na ocasião, já falecido, em 1958, e continuei até minha mudança para o Parque Continental, em 1969.

Trabalhando no Matarazzo, na Praça do Patriarca, (onde hoje é a prefeitura), como desenhista de embalagens, ia ao centro, sempre a pé, cortando o Parque Dom Pedro II, subindo a General Carneiro, Lago do Tesouro, Rua Direita e Praça Patriarca. (só de lembrar, hoje, mesmo sentado, perco o fôlego). Cobria essa distância em 30 minutos, o que me permitia almoçar em casa.

Ir ao trabalho se tornou, para mim, um passeio diário, não me cansava, gostava do que fazia e íamos vivendo prazerosamente, vencendo os obstáculos. Esse hábito saudável de andar a pé (que tenho até hoje), me proporcionava várias e encantadoras distrações como, por exemplo, passar pelas lojas do "Ao Empório Toscano", onde comprava nossas roupas, (durante a 2ª Guerra Mundial mudou de nome, para "A Metropolitana"); pelas duas joalherias da família Pastore: "A Confiança" e a "Joalheria Pastore"; pelo "Chocolate Sonksen"; "Bar Viaduto"; "Casa dos Dois", (hoje, Lojas Americanas), Sloper; "Galeria Paulista de Modas" (antiga Casa Alemã); "Casimiras Nobis", "A Exposição" sem contar, pelo auditório da Rádio Record e dos grandes salões de bilhar, "Taco de Ouro".

As vezes, por gostar muito de ler, fazia o trajeto lendo um jornal ou uma revista. A firmeza nos passos, a tranquilidade do Parque Dom Pedro II e o despretensioso trânsito da época, permitiam-me essa pequena travessura. Nos dias de pagamentos, duas vezes por mês, passava na Rua 25 de Março, (naquela época, bem mais tranquila) e comprava brinquedos para os meus primeiros três filhos, Maurício, Moacyr e Maria, ainda pequenos.

Como fazíamos quase sempre, nas sextas-feiras, no fim do dia, eu e meus colegas de seção fomos tomar um aperitivo e um deles, o Eloim, me alerta para uma nova "batida" que o bar que ficava na Rua São Bento, encostado a loja "A Exposição", na esquina da Praça Patriarca. O bar, (infelizmente, não lembro o nome) oferecia, além das deliciosas caipirinhas, porções de linguiça calabresa e uma batida com uma "nova" fruta oriunda do nordeste: maracujá. Pedimos a primeira rodada, gostei muito, depois veio a segunda e a terceira... Conforme a bebida descia, subia o encanto que aqueles momentos proporcionavam... Era o porre de maracujá que "batizava" minhas entranhas, trazendo a doce tontura bem administrada, dando um novo sentido a minha vida onde sonhos e prazeres, enfim, me haviam alcançado.

Aí, fomos embora, cantando pelas ruas do centro, desci a Gal. Carneiro, entrei no Parque Dom Pedro, Rua do Gasômetro, no prédio em que morava, entrei no elevador com os primeiros sinais de "devolução radical" de tudo o que havia ingerido e mais alguns sólidos que já estavam alojados em seus devidos lugares e, por direito adquirido, distribuindo suas vitaminas e proteínas, resistindo ao mais novo intruso, invasor num corpo bem constituído e alimentado.

Depois desse "batismo", maracujá, para mim, só na base do suco. Caipirinha, só de limão e...olha lá, com pouquíssimo açúcar (ou adoçante).

Obrigado a todos.


E-mail: modesto.laruccia@hotmail.com

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Publicado em 11/02/2013 Nossa Modesto, que lindo relato do querido centro velho! E a batida de maracujá ficou marcada. Adoro todas as histórias do centro velho desta querida Sampa. Trabalhei muito tempo como office-boy na Praça Padre Manoel da Nóbrega e pegava o ônibus no Parque Dom Pedro II e quantas vezes desci a Rua General Carneiro com destino ao Parque Dom Pedro II, onde pegava um ônibus que conduzia-me até o Ginásio Estadual de Hiroshima, em Itaquera, em frente ao Parque do Carmo. Que saudades daquele tempo!Parabéns pelo texto. Muito lindo! Deu até vontade de beber uma caipirinha de maracujá...mas deixamos pra depois....Um grande abraço e muito obrigado em nos presentear com textos maravilhosos como este. Enviado por luiz carlos da silva - lucasi__@hotmail.com
Publicado em 07/02/2013 Grande modesto. Também trabalhei no Matarazzo nessa época, no 8º andar na seção "Organização de faturas". Quanto as caipirinhas, tente bebe-las com pouco açucar. Vc terá uma probabilidade bem menor de se defrontar com a "devolução radical". Ótimo texto, aplicando 'uma dose" de saudade nos antigos frequentadores, como eu, da Casa California. Parabens. Paulo. Enviado por Paulo Elorza - pelorza@terra,com.br
Publicado em 05/02/2013 A gente nos velhos tempos sempre procurava achar uma desculpa para tomar uma cachaca .Neste caso a desculpa seria o maracuja que por sinal sempre gostei dessa.Principalmente na Casa California , donde se comia aquele sanduiche com aquela calabreza que vinha de Braganca Paulista .Pois e Modesto so para te lembrar o nome do bar encostado a loja A Exposicão que alem disso tinha batidas e sucos de frutas bastante variado.Alias estou com agua na boca so de lembrar desses tempos.Parabens Abracos Felix Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 05/02/2013 Modesto – Gostei do "devolução radical" – Até nisso você é bom. A outra palavra de fato, só de falar já vira o estômago . Abraços ... Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 05/02/2013 Modesto, que descoberta interesante a do maracujá. Ainda bem que hoje, só no suco. Mas peça para a dona Myrtes fazer um creme de maracujá para acompanhar a cmida [E ua delícia! Mas gostei mesmo foi do passeio pelo centro. Eu também sempre caminhei admirada por aquelas ruas tão atraentes e históricas. Parabéns, Modesto. E fique no suco bem gelado, que é irresistível. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 05/02/2013 CARO MODESTO, experimenta a caipirinha de vodka,
coada e gelada.(sem as cascas do limâo).
Enviado por joa claudio capasso - jccapasso2@hotmail.com.
Publicado em 04/02/2013 Grande Mestre e suas batidas. Aprecio a caiprinha de limão/vodka e pouco adoçante e gelo a vontade.
Quanto ao maracujá, é-me dificil ingerí-lo pois nunca gostei do mesmo. Parabéns pela jovial narrativa. Aquele abraço Mestre.
Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 04/02/2013 Pelo jeito, vc colocou a culpa no açúcar ou adoçante... Muito bom, Modesto. Enviado por Edmilson Mário Jacoud - mariojacoud@gmail.com
Publicado em 04/02/2013 Modesto, vc já pensou se naquela epoca, os pedestres tivessem que sobrar o bafometrô, como é feito hoje com os motoristas? Você estaria em cana até hoje rsrsrsrsr abrs... Enviado por Ailton Joubert - ailtonjobert@hotmail.com
Publicado em 04/02/2013 Modesto. As novidades etílicas transcendem ao imaginário de alguns consumidores (assim como eu) que, apreciam a arte de beber bem. Batida de maracujá, além de inebriante, é também um ótimo relaxante e precursor de oníricos momentos. Sugiro-lhe, neste dia de seu aniversário (parabéns pra você), um saboroso licor de genipapo, fruta também nordestina. Forte abraço, Enviado por nelson de assis - nel,som55@yahoo.com.br
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