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Categoria - Paisagens e lugares Lembranças do Pari Autor(a): Ludovina Maximo - Conheça esse autor
História publicada em 26/02/2013
Tinha 12 anos quando minha família mudou-se para o Pari. Na década de 40, 50 vivi nesse bairro. No início eu não tinha nenhuma amizade nesse novo endereço. Morava em uma casa simples de três cômodos no final da Rua João Boemer. Meus vizinhos, como a maioria dos moradores, eram portugueses, um casal, duas crianças pequenas e uma tia que era solteira. Fizemos amizade e ela foi minha primeira amiga, embora a diferença de idade fosse muito grande. Íamos à Biblioteca Municipal no centro, não havia nenhuma nos bairros.

Com essa amiga aprendi a profissão de cerzideira, que constava de refazer a mão algum defeito no tecido deixado pelo tear. Todas as tecelagens tinham um grupo dessas profissionais. Era um trabalho requintado e demorado feito com agulha de costura e fios do próprio tecido, havia ateliês que contratavam as cerzideiras para trabalhos particulares como algum rasgo em uma peça do vestuário mais requintado. Eram profissionais muito procuradas nessa época.

Foi meu primeiro emprego aos 14 anos, em uma tecelagem na Rua Thieres, de nome Helvetia, fabricava tricoline e também etiquetas tecidas. Essa rua fica no Canindé, atrás da igreja Santo Antonio do Pari. Fiz novas amizades no trabalho e também em um curso de datilografia que passei a frequentar. Também com adolescentes do bairro. Todos trabalhávamos e estudávamos da maneira que dava. Cursos alternativos. Ninguém ali tinha condições de melhores estudos. Quando dava, nos reuníamos à noite, nas calçadas, jogando peteca, pulando corda, o trânsito ali já era razoável.

Uma vez por semana o Cine Rialto, que ficava na Rua João Teodoro esquina da Av. Valtier, fazia a soarê das moças com a metade do preço para o público feminino e todos frequentavam. Existiam muitos bailinhos nas próprias casas ou quintais. Todos se reunião, se cotizavam e compravam alguma guloseima, também havia uma destilaria no Belenzinho, bairro próximo, onde comprávamos licor de cacau ou vermute, ninguém bebia muito, era só uma maneira de alegrar o ambiente, fazer bandeirolas também era comum, era tudo enfeitado. Sempre contávamos com alguns adolescentes músicos amadores que também colaboravam.

Os cines Roxi, Universo, Braz Politiama e Piratininga também eram muito frequentados, ficavam na Av. Celso Garcia e Av. Rangel Pestana. Na Rua Coronel Emidio Piedade se localizava a Fábrica Henriete, onde meu pai trabalhava, como motorista.

Tínhamos um clube de futebol, o Lusitano F.C. para quem todos torciam, alguns de seus jogadores foram jogar na Europa. Quando voltaram foram recepcionados com muita festa, fecharam a Rua Dr. Virgilio do Nascimento no cruzamento com a Rua João Boemer, montaram um palanque e houve discurso, música e outras homenagens. Era tanta rivalidade entre os torcedores dos clubes do bairro, principalmente com Silva Teles F.C. que era vizinho, que quando o jogo era entre os dois clubes o território era marcado, ninguém de um clube podia passar nas ruas de moradores do outro. Era briga com pancadaria na certa.

As casas do bairro eram simples com dois quartos e cozinha, uma ou outra era maior, alguns sobradinhos e muitos cortiços ou moradias coletivas, onde todos compartilhavam o mesmo banheiro, tanque e varal de roupas. A limpeza dos quintais também era compartilhada. Dificilmente havia brigas nos cortiços. A maioria se respeitava. Animais eram poucos, alguns cães vira-lata, gatos, papagaios e muitos canários. Quase toda família tinha pelo menos um pássaro na gaiola.

O comércio era pequeno, alguns pequenos armazéns de secos e molhados, chamados de vendas, quitandas com frutas e verduras, poucas padarias, loja de armarinhos, uma feira aos sábados. No comércio ambulante tínhamos padeiro, sorveteiro, vendedor de miúdos de boi e de porco, o turco da prestação que fornecia roupas de cama e mesa, também de vestuário e tecidos que eram levados as costureiras, tinha o espanhol do ferro velho que batia nas portas a fim de comprar ferro velho e vasilhame usado. Vez ou outra aparecia nas ruas umas cabras guiadas por alguém que retirava o leite ali mesmo para quem se interessasse em comprar.

O centro da cidade era tranquilo, embora já tivesse sempre muita gente circulando. A Rua Direita era a mais movimentada onde os transeuntes também tinham que andar na mão certa, nunca na contramão. Os pontos finais dos bondes e ônibus eram na Praça da Sé, Largo São Bento e Praça Clovis Bevilaqua de acordo com a região desejada.

As bordadeiras do Pari eram jovens e donas de casa que com esse trabalho ajudavam nas despesas do lar ou se mantinham. Buscavam o trabalho nas lojas do Bom Retiro ou da Rua Oriente. Quando era em grade quantidade levavam de táxi, se era pouco, mas mesmo assim muito pesado, tomavam o bonde. Todas se entendiam muito bem, trocando favores, arranjando trabalho, cedendo algum material nas emergências, como linha, agulhas, papel vegetal para tirar os desenhos a serem bordados e tudo mais. Sobre impressões o que sinto e que na época a vida era muito mais difícil, mas havia mais solidariedade e respeito de uns com os outros. Pouca violência, muita amizade e convivência.

A comunidade podia por suas cadeiras na porta e conversar com os vizinhos. Os namorados passeavam sem receio pelas ruas dos bairros. Crianças brincavam nas ruas. As escolas eram seguras, professores respeitados e realmente ensinavam e educavam, sempre com o apoio dos pais.


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Publicado em 29/10/2014

Ludovina, excelente texto...minha tia trabalhou na Helvetia...morei na João Teodoro....abs.

Enviado por Olavo Arruda - Olavo.pires@hotmail.com
Publicado em 01/03/2013 É MINHA CARA, QUEM CONHECEU O BOM PARI, JAMAIS O ESQUECERÁ. TAMBÉM PASSEI A MINHA INFÂNCIA E UMA SAUDÁVEL JUVENTUDE NO"BAIRRO DOCE" E TODAS AS PRIMEIRAS QUINTAS DO MÊS, MINHA TURMA DA JUVENTUDE(DA CONGREGAÇÃO MARIANA DO PARI) RESERVA UM TEMPO PARA UM BATE-PAPO NO BAR DO JÔ. ABRAÇOS. Enviado por JOÃO JOSÉ CANDIDO DE ARAÚJO - jjota.araujo@hotmail.com
Publicado em 01/03/2013 Ludovina, que belo o seu relato. Meus avós paternos oraram alí perto nas Ruas Almirante Barroso e Almirante Brasil, onde meus avós possuiam treis casas pra cada rua fazendo a esquina, dois dos meus irmãos nasceram lá, e minha mãe sempre contavam fatos pitorescos dessas ruas e cinemas que você citou. Realmente, as pessoas viviam com maior dificuldade mas com muita solidariedade e respeito. Parabéns lindo texto. Abraços. Maria Eugênia Enviado por Maria Eugênia Clini - mariaclini@hotmail.com
Publicado em 01/03/2013 Nessa época que você descreve, vivia-se, hoje vegeta-se. Os recursos eram poucos.Mas havia a tranquilidade do "ir e vir e, a alegria de viver.De que adianta nos dias de hoje,todo esse progresso,toda a sorte de divertimentos e facilidades mil,se temos que viver apavorados.O mêdo é tanto, que a maioria absoluta da população sai de casa amedrontada,sem sossego,tudo colabora para a desseminação da ruindade.Em outros tempos,tinha-se pouco mas,muito se vivia. Enviado por Maria Tereza - marialuizzeto@HOTMAIL.COM
Publicado em 26/02/2013 Querida Ludovina,li e reli sua história para não perder nenhum detalhe.Cerzideira virou uma profissão extinta,mas só mãos de fada é que conseguiam realizá-las.Av Valtier ,Cine Rialto,Rua Thieres,fizeram parte da juventude do meu ex marido que morou ,estudou e trabalhou no Pari por longos anos.Nas histórias que ele me contava,ele conhecia tudo e todos da região.Ele trabalhou em uma gráfica,depois na Tinturaria,depois no comércio e assim por diante.Adorei ler sua história,e este final magnífico: Nossa vida era muito difícil,mas havia solidariedade e respeito um com os outros.Pouca violência e muita amizade,todos passeavam nas ruas sem receio...”Professores eram respeitados e ensinavam e educavam com apoio dos pais” Continue nos escrevendo... Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 26/02/2013 Ludovina, belas lembranças do Pari. Antigamente podíamos tudo e nossa vida era menos agitada. O mundo mudou e tivemos que fazer adaptaçoes para entrar no novo trilho da vida. Um abraço Enviado por margarida peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 26/02/2013 Obrigado Luma por partilhar. 'Conheci' o Pari recentemente, quando ai estive em dezembro. Segundo apurei, Pari é uma área onde o ramo têxtil, e de confecções é acentuado, portanto valorizado. No Pari, uma parte da Feira da Madrugada pertence ao bairro, onde fica localizada a Rodoviária, ou melhor a estação de ônibus. Segundo me consta é um bairro operário e de histórias bem interessantes de vidas, como a que você destacou, o modo de vida era antigamente mais compartilhado, sem a violência de hoje. Aliás, segurança no país é um assunto sério e polêmico. Nós, sociedade temos que exigir segurança. Gostei muito de seu texto. Parabéns. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
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