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Categoria - Outras histórias D. Domitilia e eu Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 28/02/2013

Respeitável público! Minhas senhoras e meus senhores! Estava eu posto em sossego, todo sorridente e belo, quando fui quase esmagado por sons que vinham de dentro de minha cabeça, pensamentos aos berros, queixas, reclamações, lamúrias; não conseguia pensar de maneira coerente, estava matutando um assunto para uma “croniqueta” quando fui, literalmente, invadido. Parei com minhas elucubrações para prestar atenção, atinar com o que estava acontecendo, estaria eu mergulhando de cabeça em um processo de loucura, ouvindo vozes? Aos pouquinhos os sons, as lamúrias foram se individualizando, se fortalecendo, se tornando inteligíveis.

Uma voz feminina se destaca, triste, fraca, abafada, voz de uma mulher já bastante entrada em anos: "Pedrinho, Pedrinho ‘demonhão’, ‘cavalão’, desgraçado... Que saudade tenho eu da corte, que saudades sinto eu de ti”! Resolvo que devo tentar algum tipo de contato com a voz, mas como? Em voz alta? Por telepatia? Mas eu não acredito em telepatia! No entanto, a voz está lá, percorrendo as circunvoluções de meu cérebro, vibrando sinapses que carregam e descarregam sinais em meus neurônios. Então, novamente a voz:

- Noto que quereis conversar! Estais curioso? Assustado? Vede, vós me obrigais a falar como se fosse um personagem de Eça de Queiroz, aquele português dentuço e zarolho, fazeis expressar-me na 2ª do plural... Ué, a voz sabia que eu estava escutando. Não sei se fico assustado (isso é frescura!), espantado, sei lá o que! Curioso eu estou, claro... "Desculpe (achei melhor tentar a telepatia), mas quem é a senhora? E que conversa é essa de obrigar a senhora a falar na 2ª do plural? (Acho que a telepatia está funcionando!), que situação mais maluca é essa?”.

- É uma situação que vós mesmo criais e não é tão maluca quanto pensais... Meu nome é Domitilia de Castro e Canto Mello e fui agraciada com o título de Marquesa de Santos por D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, meu esposo “in lectus”, pai de alguns filhos meus. Acredito que já ouvistes falar de minha pessoa...

- Claro que ouvi; a senhora é uma pessoa famosa, está nos livros... Mas “péraí”, eu estou falando com um espírito, um fantasma que mora na minha cabeça, ou o quê? E se a senhora estiver me ouvindo, eu a desobrigo de falar na 2ª do plural, já que a senhora diz que eu a obrigo a isso, não sou homem de obrigar ninguém; se necessário, eu peço...

- Ótimo, que bom! Agora posso destravar minha língua... A verdade é que não tive uma educação brilhante, aprendi alguma coisa só para o gasto, leio com dificuldade, escrevo mal... Não esqueça que sou uma mulher do início do século XIX. Quando conheci D. Pedro, São Paulo não era nada, era um lugarejo ermo, 10.000/15.000 habitantes se muito, um ninho de caipiras, e o senhor me coloca a falar como se eu fosse uma mulher da época do Paio Soares de Taveirós ou fosse Dama de Companhia de D. Urraca... Mas me deixe explicar antes que eu esqueça e perca a sequência: não sou um espírito ou fantasma; preste atenção porque eu não vou repetir: sou um personagem de seus escritos, entendeu? “Tá bom, tá bom”... Você nunca escreveu nada sobre mim, mas eu, personagem, já fui criado por você, estou dentro de suas “caraminholagens” mentais... eu e mais alguns personagens importantes e desimportantes de São Paulo; somos uma legião.

- Não entendi muito bem, Marquesa.

- Eu falei que não iria repetir e não vou, pedi para você prestar atenção... E me faça um favor: não me chame de Marquesa, prefiro que você me chame de Domitilia, D. Domitilia. Você não faz a menor ideia do que já me chamaram. Na corte, na minha presença, me chamavam de Senhora Marquesa, mas bastava eu virar as costas e lá vinham nomes os mais indecentes. Ainda bem que meu título até que soava bem, dava para falar com a boca cheia: Marquesa de Santos; melhor que Barão de Paranapiacaba ou Baronesa de Canudos, Condessa de Urubuqueçaba...

- Então não respeitavam a realeza?

- Que realeza? Realeza? ... Tudo título comprado, chantageado... O povo ria da corte, de seus partícipes, de suas damas, todos suando em bicas debaixo de um sol infernal, usando perucas de 3ª mão, roupas de veludo... No meu caso o título não foi comprado, mas valeu a política do "toma-lá-dá-cá" invertida, quer dizer: “eu dei cá e... Deixa para lá”... Quando você tiver mais de 200 anos vai entender melhor... Eu só queria que você respeitasse mais a “essentia vitae” dos seus personagens. Você apenas os cria e eles nascem prontos, com atitudes definidas, bons ou maus, puros ou impuros, corajosos ou covardes... Você os cria, mas não os dirige. Nós, personagens, apesar de formados por letras, ideias e pensamentos, de algum modo, temos vida própria, acredite... Mesmo em nossa condição de menos pesados do que uma alma, um espírito verdadeiro, continuamos paulistas e paulistanos. Podem falar mal, mas que falem de nós.

- Eu nem imaginava uma coisa dessas...

- Tudo bem... Não fique chateado... Ah, sim: eu sei que mais dia menos dia você vai me usar como personagem... Olha lá menino! Respeito é bom e eu gosto...

- Claro, claro, D. Domitila...

- Domitilia, existe um 'i' que ninguém usa, não sei por quê; são 3 “Is”... Tem uma turma aqui que me apoia e que, aliás, está mandando lembranças para você: Mário de Andrade, Mario Chamie, Walter Clark, Solano Trindade, Fúlvio Abramo pai, Fulvio Abramo Jr., Cláudio Abramo (quase todos os Abramos), Chico Preguiça, Rudá de Andrade, Vadoque, Hélio Bagunça, Guilherme, Carlão Paquiderme, um montão de gente mais... E tem uns cariocas que pegaram o bonde andando: João da Bahiana, Donga, “Pega Voando”, Almirante... O Noel Rosa está me dizendo que um médium espírita psicografou uma mensagem para você e está perguntando se você ainda tem o livro com os seus versos post-mortem.

- Tenho, tenho, é um dos meus tesouros...

Então já vou! Estou me recolhendo para o limbo dos seus pensamentos. Até outra vez...

"Ufa"! Estou suando! Esse calor, acho que me fez cochilar em cima do teclado... Que sonho maluco meu Deus! Maluco, mas vai servir como tema para uma crônica. Até já sei como começar:

“Respeitável público! Minhas senhoras e meus senhores! Estava eu posto em sossego, todo sorridente e belo, quando fui quase esmagado por sons que vinham de dentro de minha cabeça, pensamentos aos berros, queixas, reclamações, lamúrias...”


E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br

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Publicado em 28/02/2013 Sr.Souza Netto, uma brilhante crônica com a marca da qualidade e criatividade. Com folga poderia ser texto teatral e com bom poder didático para espalhar a História do Brasil aos milhares de habitantes da Terra Brasilis. Excelente tema e escrita. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 28/02/2013 Que intseressante, Joaquim. Quanta criatividade! Texto muito inteligente e bem escrito. Que saudade do Cláudio Abramo... e do Noel Rosa então... Parabéns e um grande abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 28/02/2013 Muito bacana, Joaquim! Grande sensibilidade e talento. Abraços. Enviado por suely aparecida schraner - suelyas.13@gmail.com
Publicado em 27/02/2013 Prezado Joaquim,
Como descendente do Chalaça (Francisco Gomes da Silva), estou muito chateado da D Domitila ter omitido meu nome, exatamente quem mais a ajudou lá na Corte e a quem mais ela recorre aqui!
Enviado por juvenal cardoso - jucabala@hotmail.com
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