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Categoria - Outras histórias Uma visão amarga do Carnaval de São Paulo Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 05/03/2013

Carnaval. Quero falar uma coisinha ou outra sobre o Carnaval de nossa cidade. Já li e ouvi tanta bobagem a respeito que resolvi fazer um comentário sobre o Carnaval de São Paulo, já que fiz parte do Departamento Cultural da UESP, já que fundei uma Escola de Samba juntamente com a Odete, Nelson Gengo e Zé do Cavaco, já que escrevi "enredos", já que compus sambas, já que sou pai da Ana Flávia, princesa do samba, já que sou marido da Odete que gravou com Monarco e Nelson Sargento, já que sou pai do Marco Túlio que foi Mestre Sala da Vai-Vai, já que, criança, saía nas Viúvas Alegres do Macuco quando do "Banho de Dona Dorotéia, Vamos Furar Aquela Onda? em Santos. Mas, passada toda uma vida, descobri que São Paulo não tem e nem faz samba (Vinicius de Morais foi grosseiro em sua declaração sobre o samba de São Paulo, mas ele estava certo, em meu ponto de vista). Não temos um Cartola, um Paulo da Portela, um Jamelão, um Zeca Pagodinho, uma Alcione, um Arlindo Cruz..., temos gente que nas reuniões não discutem os preparativos para o desfile, mas passam o tempo todo perguntando:
- “Cumé? Já saiu a verba? Falaram quando vai sair a verba? De quanto vai ser a verba? Preciso trocar de carro; esse dinheiro precisa sair logo que eu já pendurei um cheque na concessionária.” (risos, cinicamente; já testemunhei esse tipo de conversa!)

Desculpem-me aqueles que acham que eu sou um velho rabugento, saudoso do passado; no entanto, mesmo no tal passado havia gente que tinha saudades do seu passado, entenderam, né? Normal, muito normal... Então vamos lá! 99% dos paulistanos, gostando ou não gostando de Carnaval, não faz a menor ideia do que seja uma Escola de Samba; para essas pessoas as Escolas são grupos que surgem na televisão uma vez por ano, cantando sambas (?) de andamento, melodias e letras iguais ou quase sempre iguais ("poeta genial, passarela iluminada, vou sacudir o Anhembi, magia, mundo encantado da criança, nosso samba na avenida" e por aí a fora), fantasias, alegorias se repetindo durante horas, desfile após desfile, em um espaço limitado, cercado por arquibancadas de concreto, em prisões a que chamam de sambódromo, "foliões" sentados ou mal acomodados nos degraus de cimento, debaixo de chuva, garoa:
- “Puxa vida! Fazia tempo que eu não me divertia tanto, 'tô até com dor nas costa, tussindo e com o nariz 'tampado', tomei chuva, passei fome, passei sede, num tinha um banheiro prá contar história, mas 'tava bom, valeu o dinheiro do leite das criança que eu debrucei prá comprá as entrada... Num sei não, mas acho que peguei uma "pelambulia nos pormão!"

Observação: Para o pessoal de Escola de Samba, da "ala dos abnegados", o termo "folião" é pejorativo e é aplicado para aqueles que se "divertem" sentados no chão frio do sambódromo ou discutem 'tecnicamente' os desfiles ou o desempenho da agremiação tal, sentados em sofás de suas salas, entornando latas e latas de cerveja e comendo amendoins:
- “... eu dormi, e não vi o desfile da Foi Foi! a Escola 'tava bem?”
- “também não vi, 'tava com muito sono!" A palavra "folião/ã" pode ser usada como gozação na maioria das vezes... Outros termos são usados para designar esse tipo de aficionados, mas agora intramuros, porque são considerados ofensivos (?): "sambeiros" e "sambólogos", pessoas que "discutem" sambas em um viés sociológico ou histórico, escrevem teses, vão à televisão deitar “sociologices ou historicagens”, citam Noel Rosa, João de Barro, Tia Ciata e etc, passam férias em Ibiza, fazem compras em Milano, London ou Firenze - não acham chic falar Milão, Londres ou Florença, coisa de ginasiano!”

Descarregada essa dose de veneno misturado a confete e serpentina, continuemos com esse papo iconoclasta: as pessoas de uma certa idade (“meu Deus! Quanta sutileza! O que será "uma certa idade", heim?, dá prá quantificar?”) talvez ainda se lembrem que em São Paulo não existiam as Escolas de Samba, existiam os Cordões, grupos carnavalescos que iam para as ruas e eram seguidos pelas populações dos bairros, nada muito grandioso, mas tudo bastante democrático, era o famoso "vai quem quer" e seu grito de guerra "É hoje só, amanhã não tem mais, é hoje só, amanhã não tem mais..."; não havia a 'marcha sambada' que chamam de 'samba de enredo(!)' um ramerrão sonolento que passados dois dias do carnaval, ninguém lembra mais; as músicas de carnaval eram as que eram ouvidas nas rádios, marchinhas cariocas, não se compunha em São Paulo (continuamos sem compositores de música popular...).

Ora dirão: ”é muita amargura! Antigamente tinha o corso...”
- “Péraí! Corso? Pelo que eu soube, a polícia fechava a Av. Paulista para que os endinheirados novos ricos e os fazendeiros de café pudessem circular livremente com seus carros, sem música, sem alegria, mas com muita bebida, alguma cocaína, algum lança-perfume, num ir e voltar da Praça Oswaldo Cruz até o Trianon, numa caipiragem motorizada total, todos posando fingindo alegria para fotos das revistas e jornais da época! Espocado o magnésio, de volta à esbórnia... Os verdadeiros carnavalescos estavam nos bairros ou no centro da cidade, andando nos bondes abertos, seguindo seus cordões preferidos, batuque e os gritos "Zé Pereira, bum! Zé Pereira, bum... bum bum bum! É hoje só, amanhã não tem mais, é hoje só, amanhã não tem mais...”

Televisão ligada, os "foliões de apartamento" vão chegando e se aboletando:
- “Não começaram os desfiles ainda?”
- “Não, só depois que terminar a novela...”
- “Mas depois da novela ainda tem o "BUB", Big Uncle Brazil, uma hora de encheção de saco...”
- “Brazil com 'Z', 'cê viu na chamada?”
- “Coisa deles lá, negócio de formato! Ouvi dizer que é obrigatório, questão de contrato.”
- “É "questão" ou é "cuestão"?”
- “Xííí, já chegou com o pé redondo... Vai lá na cozinha e toma um café sem açúcar prá ver se melhora essa cachaceira...”
- “Viva o Carnaval!”
- “Viva!”

É só.


E-mail: jdesouzanetto@gmail.com

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Publicado em 07/03/2013 Ignácio, Como já disse outras vezes, sempre só vi o carnaval de longe pela telas da Tv. não entendo muito de carnavalm mas sinto muita saudades dos carnavais, dos cordões e das saudosas marchinhas, cantadas por muita gente jovem até nos dias atuais. Parabéns pelo belo texto, a acrescentar entre os os outros ótimos que você já escreveu , Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 06/03/2013 Heitor, BUB (Big Uncle Brazil) é uma triste ironia em cima do BBB (Big Brother Brasil)da rede de TV Globo; aliás, em Portugal, por determinação legal, tudo deve ser traduzido. lá o programa se chama O Grande Irmão, tradução correta, mas eufonicamente chata...
Continuo seu fã
Ignacio
Enviado por joaquim ignacio de souza netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 05/03/2013 Ignácio parabéns pelo excelente texto .Concordo plenamente com quase tudo o que escrevestes digo quase porque discordo um pouco quando generalizas e inclui nossos velhos carnavais nessas pendengas dos dias de hoje. No nosso tempo o carnaval não dependia dessa industria que o carnaval se tornou hoje em dia . Tem tanta gente mamando nessas verbas que quanto mais passa o tempo à tendência e só piorar. Eu como vivi ate hoje mais tempo da minha existência longe do Brasil eu tinha só 29 anos quando sai. A minha única opção e vê-lo pela TV e há alguns anos atrás eu gravava tudo em VCR e passava para os amigos americanos para ver o colorido carnaval brasileiro . Mas tive que parar com isso pois quando eles viam as mulheres desfilando com pouca ou sem nenhuma fantasia eles generalizavam e pensavam que todas as brasileiras andavam desvestidas daquela maneira . Aqui não existe carnaval . Só em New Orleans e que existe na terça feira de carnaval aqueles desfiles de carro alegóricos que não se comparam em nada com os do Brasil , mas e só um dia e as mulheres todas vestidas com fantasias próprias para o evento.E as mulheres que vão assistir aos desfiles , algumas vão preparadas para exibir seus seios , quando se lhes ofertam uns colares que não lembro o nome em inglês , e em questão de segundos levantam a blusa em troca desses adornos . Nunca estive lá nesses dias mas já assisti pela televisão . Esse e o Maximo de exposição que elas oferecem , que e coisa de segundos e se você bocejar ou piscar os olhos , acaba perdendo o que foi exposto. Parabéns pela crônica fantástica mesmo. Acabei lendo mais de uma vez , te tão boa que achei. Pena que você não foi ao Japão o teu filho pode te dizer da emoção que vivemos naqueles dias .Abraços e muita saúde a você e a familia .Felix Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 05/03/2013 Caríssimo Heitor Felipe, nem tanto o Osmar e nem tanto o aterro, não radicalizemos nem generalizemos. Evidentemente o corso não é aquele em que vc se divertia... É o corso de Osvald de Andrade, de Tarsila, de Mário de Andrade, de Pagu, basta pocurar as crônicas dos jornais dos anos 20s e 30s... É o corso dos endinheirados, dos bacanas(?). Sou seu fã ardoroso. Abraços do Ignacio Enviado por joaquim ignacio de souza netto - jdesouzanetto@gmail.com
Publicado em 05/03/2013 João, obrigado pelas palavras elogiosas a respeito do texto sobre o Carnaval; felizmente você entendeu as entrelinhas... Vou lhe contar uma história rapidamente: a Odete, minha esposa, foi cabeleireira e, um dia, trabalhando os cabelos de uma cliente, foi convidada a participar de uma reunião visando a fundação de uma Escola de Samba. De má vontade eu a acompanhei e acabei por assinar a ata de fundação; em seguida, o nome que apresentei foi escolhido por votação - G R C E S Malungos. A Malungos foi a primeira Escola a desfilar no Sambódromo de S. Paulo, uma aberração construida às margens do Tietê, acredito que 'bolada' pelo jardineiro do Niemeyer, uma droga. Bem, enquanto a Escola dava seus primeiros passos ('vaga aberta', 4º Grupo), conseguimos segurar a barra, mas quando avançamos para o 3º grupo, já com uma dotação pecuniária, a Escola foi invadida pelos "donos do samba", verdadeiros quadrilheiros que acabaram por nos expulsar, mataram um sonho e se esbaldaram no dinheirinho mixuruca da dotação do 3º grupo. Hoje a Malungos virou Escola daTorcida Independente do São Paulo FC, ou seja, foi transformada uma horda. Nós, fundadores, Ignacio, Técnico de Enfermagem, Odete, Cabeleireira, dona de casa e minha heroina, Nelson Gengo, Executivo da WEG, Zé do Cavaco, Regente, músico erudito e popular, músico de estúdio, multi insrumentista, estamos fora de tudo que diz respeito à carnaval. Ainda bem!Sinceramente não quero que alguém pense que sou um sujeito pernóstico, egocêntrico, metido a besta; a verdade é que eu me conheço, eu sei quem eu sou
NB: Lembro-me de uma entrevista dada pelo Nat 'King' Cole quando de sua tournê pelo Brasil:
- ...um pena eu ter vindo fora de época... eu gostaria de ver o Mardigrass de vocês...
João, os Carnavais do Rio e de São Paulo, não demora muito vão se transformar oficialmente num mardigrass (na Bahia, este ano, já apareceu aquele coreano e sua dancinha idiota em cima de um trio elétrico e em rede nacional de TV), basta aquela rede de tv mudar o nome...
Abração do Ignacio
Enviado por joaquim ignacio de souza netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 05/03/2013 Meu caro Joaquim carnaval para mim atualmente significa 5 dias sem trabalhar,onde vou para a chácara do meu filho em Vinhedo,e curto as netas ,
o verde,os pés carregados de frutas,a piscina,o churrasquinho e porque não uma cervejinha?
Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 05/03/2013 Ignácio, que saudades dos desfiles das escolas lá na Av. São João, entrada livre e com a platéia participando, havia confete, serpentina, lança-perfume, tudo acabou, hoje a maioria da população prefere ficar horas e horas em congestionamentos das estradas para gozar alguns momentos de lazer, é uma pena, parabéns pelo texto.- Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 05/03/2013 Joaquim, em 1930 eu ainda nem tinha nascido.E sobre o BUB, o que é? Heitor Enviado por heitor felippe - heifeltec70@globo.com
Publicado em 04/03/2013 Souza Netto,vc.disse tudo do carnaval de Sampa.Virou profissionalismo e profissão literalmente e infelizmente,triste para nós vermos o q. acontece. Ainda bem que os blocos estão voltando,o que fizeram contigo é triste.
Para vc. como diz o cantador de notas: È Dez,para seu texto. Quero fazer parte dessa ira sua com relação ao carnaval de Sampa é só para ricos e TV.
Enviado por vilton giglio - viltongiglio25@gmail.com
Publicado em 04/03/2013 Relato sensacional ! Parabéns Joaquim !
Acabaram com os bailes noturnos nos clubes, os blocos e os cordões viraram raridade e o carnaval em Sampa ficou assim reduzido ao sambódromo... Até certo ponto é amargo sim, carnaval apenas num local restrito, parece pouco para São Paulo. Gonzaguinha estava certo: - " Você merece, tudo vai bem, tudo legal... cerveja, samba e amanhã seu Zé... Se acabarem com seu carnaval " ! Abraços !
Enviado por Claudio Bertoni - bertoniclaudio@yahoo.com.br
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