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Categoria - Outras histórias Cães bravios, bambus, pandorgas - a turminha de três Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 11/03/2013
Início dos anos 1950 - Vila Clementino - São Paulo - SP. Quarteirão da Leandro Dupré, no ladeirão entre a Loefgren e o córrego Minhocão (sei lá se esse era o nome do córrego, pelo menos era assim que era chamado). Sem nenhuma alusão à Mme Leandro Dupré, “éramos três”: o Antoninho e o Clovis, que eram irmãos, e eu, Ignácio, nós três regulando em idade e altura, mas todos de calças curtas ainda!

- Lá no fundo do quintal do seu Plínio deve ter taquara, mas tem que ser taquara verde que é mais fácil de envergar... - disse o Antoninho, dando uma solução parcial para o problema que nos afigurava como insolúvel; todos os garotos da rua de cima, na 11 de Junho, já estavam empinando quadrados, estrelas, pipas, maranhões, pandorgas, peixinhos, caixas e capuchetas e nós? Néris de pitibiriba; nós tínhamos grandes ideias, mas não tínhamos varetas para montarmos nossos objetos voadores bem identificados...

- Tem um bambuzal na beira do córrego, de noite nós vamos lá com um serrote e cortamos um bambu para a gente...

Óbvio que nós não fomos roubar bambus na calada da noite, não éramos tão corajosos assim e mesmo que fôssemos teríamos que pedir licença a nossos pais para tanto. Modéstia à parte éramos filhos excelentes, nós três, a turma da Leandro Dupré:

- Mãe, a senhora deixa eu ir lá no quintal do seu Plínio para roubar (palavra forte!) bambu? (ridículo, absurdo não é?).

Brincadeira: de verdade, de verdade, a gente tinha muito medo do seu Plínio, diziam que ele dava tiros de sal na bunda de quem entrasse em seu quintal, que ele tinha cães bravios ("cães bravios" acho mais assustador que “cachorros bravos”, além de ser mais chique!). Tudo invencionice, o homem era uma flor...

Por aqueles dias, estávamos brincando e nos balançando em uma corda presa a um galho de uma grande árvore e que se projetava sobre o córrego quando vimos o seu Plínio:

- Cuidado, meninos! Vocês podem cair e esse córrego é um esgoto só, vão se contaminar, ficar doentes...

Apesar das pernas bambearem, notamos que ele não estava armado e nem conduzia uma matilha de cães bravios (santa perspicácia!). Criamos coragem e o Antoninho, por ser o mais velho, líder nato, tomou a palavra:

- Seu Plínio (gagueja quase imperceptivelmente), o senhor deixa a gente pegar um bambu?
- Paea que vocês querem bambu, meninos?
- É (“errr...”) para levantar o varal...
- Ó! Não mente, é feio mentir, meninada! É para fazer papagaio, não é?
- É, sim senhor! (engolimos em seco, nossos incipientes gogós subindo e descendo, a boca seca, nossas línguas parecendo lixas!)
- Doeu falar a verdade?
- Não senhor, não doeu, não!
- Então... Deixa que eu pego para vocês... Quantos bambus vocês querem?

Acabamos por fazer os papagaios, alguns com papel de seda comprados com as moedinhas que tínhamos e os restantes com papel de jornal, todos uma droga... Nós não éramos tão bons quanto imaginávamos ser. Quanto ao seu Plínio, vimos que ele não era o vilão da história de terror que maquinávamos. Podíamos colher jabuticabas, goiabas, pitangas, amoras, uvaia e abil em seu quintal. Tingíamos nossas mãos e rostos com urucum... Sem contar que tínhamos os melhores bambus das redondezas, que usávamos para pegar balão (que nunca pegamos!) e como varas para apanhar marmelo e caquis, ou para saltar alguns obstáculos como se fôssemos atletas olímpicos.

Tudo era risonho e franco naqueles tempos... Saudades? Sinto. Sinto saudades de meus amigos, da Marily, da Suely, da Cleomar (tinha um amor escondido pelo Clóvis), da Clarice, do Gabiroba, do Fasolin, do Vadão - que não ia muito com a nossa cara, do Wilson, do Nardo, do Raimundo e até dos nossos "inimigos" da 11 de Junho, do Astor, do Piturico, do Edmundo, do Lamparina, do Cláudio... E das meninas que a gente amava desesperadamente à distância, sem saber seus nomes, baixando nossos olhos quando as víamos! Ah! Nossos 9, 10 anos...! "Você gosta de amora? Vou contar pro seu pai que 'ocê' namora!”

Não vou ser um “clichezão” humano, dizendo que “hoje, do alto da minha experiência e blábláblá”... Conversa mole... Olha o boi dormindo aí, gente! No duro, no duro, Peter Pan deveria existir, mas já que ele não existe fazer o quê, não é? O negócio é aguentar a mão, quem mandou crescer, viver uma vida, envelhecer?


E-mail: jdesouzanetto@gmail.com
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Publicado em 22/03/2013 Parabens, voltei no tempo. Eu morei nos fundos da igreja evangélica na rua Borges Lagoa n. 1050.
Abraços.
Enviado por carlos GUILHERME heiffig - carlos.heiffig@hotmail.com
Publicado em 13/03/2013 Ignacio lendo sua historia , fechei os olhos e me me envolvi nela como se fosse parte da tua turma , sou um pouquinho mais velho que voce , mas as lembrancas sao quase identicas , so que nao tinhamos taquarais no Braz e no silencio da noite iamos surrupiar os varais da vizinhanca , e procuravamos sempre os mais novos que eram meio verdes. Quando nao tinhamos bambu faziamos capuchetas. Quantas saudades teu texto nos provoca
Abracos Felix
Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 11/03/2013 Ignacio, não fica triste não, eu também nunca consegui fazer uma pipa que subisse, e também morria de medo do seu Val, embora ele nunca tenha me feito nada. Mas que era bom aquele tempo era. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 11/03/2013 Joaquim, ótimas recordações e aprendizagem. Gostei muito. Parabéns. Um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 10/03/2013 Joaquim, imagem perfeita de uma época que ficou no passado de peraltices com a qual me identiquei, parabéns,Estan Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 10/03/2013 Recordar nossa infância é bom e belo e só faz bem, mas crescer também faz parte! Abraço Célia Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - rccsimonato@hotmail.com
Publicado em 10/03/2013 Penso que todos nós na infância tivemos algum argoz que nos metia mêdo,tivemos amigos da mesma rua inesquecíveis,tivemos vizinhos que nos deixava pegar frutas no pé,tivemos nossos corações pulsando escondido por alguém,tivemos uma magia encantadora por alguns professôres,só não tivemos o pózinho de pir-lim pim-pim para que estes momentos fossem eternos... Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 10/03/2013 Joaquim eu ia escrever aqui que "amei" a sua história, mas o pessoal ai vai ficar pensando coisa errada a meu respeito. Legal o seu texto contando uma história sem tirar nem por no que acontecia na nossa época. Parabéns e um forte abraço... Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
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