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Categoria - Outras histórias Porque sou cabreiro em caminhar em alturas ou enfermagem: profissão perigo! Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 15/03/2013

Quando toco no assunto “enfermagem”, o texto acaba sendo meio que autobiográfico, não tem jeito. Sinceramente não quero que alguém pense que sou um sujeito pernóstico, egocêntrico, “metido a besta”; a verdade é que eu me conheço, eu sei quem sou e sabendo como costumo ser, não vou envolver meus antigos colegas vivos ou mortos, por ordenações éticas da profissão, nas narrativas que costumo escrever sobre meus tempos em hospitais e empresas. Que fique bem claro: não sou herói e nem pretendo ser protagonista em nada; apenas eu estava lá quando dos acontecimentos, só isso!

E eu estou aqui para contar um pouco de minha experiência e minha atuação profissional. Domingo, muito sol, quase 14h, plantão terminando. Peço para meu colega esperar que eu lhe daria uma carona até a Miguel Stefano, ou pelo menos até o relógio de ponto, mas ele agradece:
-"Não precisa não, Juca! Vou subindo a pé ou pego carona em algum caminhão... Fico esperando no relógio... Domingão? Domingão é dia de mandar umas “espumosas pa dentro” com uns tira-gosto de torresmo... Vou ficar um pouco no botequim do japonês..."
- “Tá muito quente, muito calor e você ainda vai passar pela aciaria e pela laminação... Mas você que sabe!”

Trabalhar em uma siderúrgica é trabalhar no inferno. Fogo para tudo quanto é lado, ferro fundido passando sobre as cabeças, fornos a carvão, fornos a gás, altos fornos, silos, locomotivas, carvão, fumaça, pó de refratários, queimaduras horríveis, óbitos, enfermagem do trabalho atuando sem parar... É trabalho para macho, no dizer da mineirada (90% dos trabalhadores em siderúrgicas vêm de Minas Gerais).

Acabei de escrever o relatório do plantão e fechei o grande cadernão de capa dura ao mesmo tempo em que o telefone tocava:
- “Corre aqui, seu Joaquim, tem acidente na aciaria...”
- “O que aconteceu? Fala sem gritar, calma... Respira fundo...”
- “... Tem um eletricista pendurado no trilho da ponte rolante... A cabine está em cima da perna dele...”
- “Tou indo aí! O engenheiro já está aí?”
- “Engenheiro?”
- “É...! O engenheiro de segurança... Bipa ele, pede prá ele chamar o médico, cazzo!”

A situação estava mais feia do que espancar a mãe por causa de “mistura” na hora do almoço. A ambulância não poderia “entrar dentro da aciaria”, um galpão “enormíssimo” e cheio de máquinas, pistas para a “corrida” do aço, pórticos, trilhos ferroviários, fornos, lingoteiras, calor extremo; a 40 metros de altura, a cabine da ponte rolante parada em uma posição estranha; o gancho da ponte segurando uma caçamba suspensa no ar com aço derretido a 1200ºC e assando, praticamente, o acidentado, quase que totalmente exposto à radiação. O que fazer? Simples:
a) baixar a caçamba imediatamente até o chão.
b) isolar o acidentado com mantas refratárias.
c) prendê-lo ao trilho com cordas.
d) preparar um balancim para baixar o acidentado quando tudo estiver resolvido.
e) com o acidentado em choque, tomar o máximo cuidado ao manipulá-lo durante curativos e medicações para analgesia.
f) afastar a cabine da ponte que, praticamente estava segurando o acidentado no espaço...

Como dá para se depreender, tudo muito simples, corriqueiro... O problema era chegar até lá! Pelas escadas em caracol eu não conseguiria, pois a cabine estava a meio caminho sobre os trilhos; a saída foi fazer uma espécie de ponte feita com escadas de pintura, amarradas umas as outras e colocadas entre a plataforma de um alto forno e os trilhos da ponte rolante, em um vão solto no espaço de uns 20, 25 metros.

Foi por essa ponte improvisada que eu consegui chegar até o acidentado me arrastando pelos degraus, com cinto de segurança, ganchos, mosquetões, mochilas com material para primeiros socorros, muita vontade de fazer alguma coisa, mas morrendo de pavor. Em determinado momento de minha tormentosa travessia senti o bafo do Satanás queimando meu peito, estavam colocando a caçamba sobre o vagonete na ferrovia e o balanço fazia o aço derretido lançar baforadas que subiam até onde estávamos; olhar para baixo? Nem pensar...
- “Seu Joaquim, me mate... Não vou aguentar muito tempo... Pede pro guindasteiro passar com a ponte por cima de mim 'duma' vez... Por favor...”
- “Para de falar merda, cala essa boca, meu... já-já a gente tira você desse sufoco...”

A verdade é que não havia nada que eu pudesse fazer a não ser medicá-lo para dor e fazer o possível para que ele não perdesse os sentidos, mexendo com seus brios, fazendo-o reagir às provocações...

O rapaz acabou sendo retirado pelos bombeiros que trouxeram um super macaco para levantar a cabine e, em seguida, levado para o hospital que atendia acidentes do trabalho. Seu fêmur direito foi reconstruído, pois fora esmagado e partido em quase uma dezena de pedaços... De alta no hospital voltou para Minas Gerais para se recuperar junto à família e assim a vida continuou por algumas semanas.

Um dia ficamos sabendo que ele estava de volta e fazendo tratamento contra gangrena gasosa na câmara barisférica do metrô no Parque D. Pedro II. Foi-nos transmitido pela Assistência Social que na sua cidadezinha, lá em Minas, estavam lavando a incisão no que restara de sua perna com urina de mulher grávida. Depois não tivemos mais notícias dele, apenas tomamos conhecimento que estava aposentado por invalidez e que perdera mais alguns pedaços da perna... Conseguiram salvar alguma coisa...

Cheguei em casa quase meia-noite. A empresa me trouxe em um carro e outro motorista trouxe minha intimorata Brasília. Fui recebido pela Odete:
-“Ué, pensei que você fosse morar no emprego! E ainda me aparece todo sujo, mais preto do que você já é! Essa roupa que você está usando já pode jogar fora, não tem jeito dela ficar branca de novo... A empresa vai ter que te fornecer outra... Cobra deles...”
- “Tá bom, tá bom, Dé... Tô indo tomar banho... Você não quer esfregar as minhas costas?”
- “Não! Suas intenções me parecem ser as piores possíveis!”
- “Eu? Com más intenções?”
- “É! Eu te conheço... É assim que os rolos começam!”

E foi assim que eu “peguei” essa “cabreiragem” de andar nas alturas, pisando (ou me arrastando) em superfícies de 30 cm de largura... Ia esquecendo: a empresa não me deu outro uniforme. Precisei comprar outro, se não não poderia trabalhar! Mas tudo rotina no desempenho da profissão... Nada de novo no “front ocidental”. Como eu já disse, não sou herói nem nada, sou até meio medroso (precavido?); as coisas aconteceram em meu plantão, mas poderiam ter acontecido com outro colega. Sorte dele...


E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br

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Publicado em 18/03/2013 Você foi herói sim. O herói do cotidiano, daqueles que assumem e se assumem e não correm da raia. Aquele anônimo que faz a grandeza do homem comum como você e eu. Parabéns. Mas com todo respeito que ambos me merecem, bem que a dona Odete podia ter esfregado suas costas. Naquele dia você fez mais que merecer. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 18/03/2013 Para que fique bem claro:Até hoje,passados mais de 35 anos, não sei o que diabo o eletricista estava fazendo ao andar no trilho da ponte rolante! Talvez um teste antecipado para o Cirque de Soleil (que nem existia na época); vai entender a cabeça brilhante desse povo!
Abraço do Ignacio
Enviado por joaquim ignacio de souza netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 17/03/2013 Joaquim, você foi herói sim, cara. Este tipo de herói que somos todos nós, os heróis do cotidiano, que evitamos, mas não corremos de medo, quando a luta nos procura. Mas, com todo respeito que ambos me merecem, a dona Odete bem que podia ter esfregado suas costas. Naquele dia você mais que merecia. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 17/03/2013 Joaquim, você foi herói sim, cara. O herói como eu e um monte de gente, os heróis do cotidiano, que não procuram mas não fogem da luta quando ela aparece. Mas, com todo respeito que ambos me merecem, a dona Odete bem que podia ter esfregado suas costas. Naquele dia foi fez mais por merecer. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 17/03/2013 Aciaria, Fundição, Forjaria, Laminação...Trabalhei mais de dez anos em uma siderúrgica e conheço bem as condições de trabalho nesse ambiente. Não foi fácil, mas valeu a pena o aprendizado pela convivência com grandes profissionais e alguns heróis, como o senhor. Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
Publicado em 16/03/2013 Ignacio parabens pelo sangue frio , e pela sua coragem em enfrentar esses momentos de pavor como cofessas na narrativa .Ainda bem que tudo saiu bem.Mas que azar o seu heim ? depois de tanto sacrificio e tantas horas de trabalho , a D. Odete se negar a lhe esfregar as costas durante o banho .Com certeza ela sabia o pinta braba que voce era.
rs rs rs. Otima cronica mais uma vez ! Abracos Felix
Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 15/03/2013 Tenho o maior respeito e admiração pelo pessoal, assim feito você, que salva vidas. São nossos heróis, nossos anjos da guarda. Seu relato é grandiosamente assustador e eu só tenho que cumprimentá-lo pela coragem, presteza e competência. Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 15/03/2013 Voce me fez lembrar o acidente de bicicleta desta semana,onde o rapaz perdeu o braço direito
(não quero nem citar o montro que jogou seu braço no rio)mas quem o salvou foi alguém como voce que
naquêle momento só pensou em salvar...
Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 14/03/2013 Meu Deus, Joaquim! Nem sei o que dizer. Confesso que estou boquiaberta! Mas eu te dou os parabéns mais sinceros pelo seu trabalho e história de vida. Receba o meu grande abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 14/03/2013 Joaquim - Cada um com a sua profissão, tendo suas conquistas e suas derrotas. O mineiro que me perdoe mas a narrativa foi fabulosa. Prefiro ler as suas história que são as melhores do nosso dia a dia, do que noticiam na TV, com todo aquele sensacionalismo que no fim dão em nada, que vai do Datena até o Faustão. Forte abraço ... Ainda bem que a patroa não é mineira ou estou enganado? ... Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
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