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Categoria - Outras histórias Yawaritê permite viagem pelo tempo de São Paulo Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 21/03/2013

A caminhada pelo meio da mata é cansativa e eu me vejo desviando de árvores caídas e embiras que pendem do alto das árvores. Os urros dos bugios, difícil não ficar preocupado com aquele som estranho, borborigmo das entranhas da terra. Yawaritê espreita nas sombras, olhos feros seguem-me, pressinto. Sede.

A sede eu mato com as águas do Caxingui, caudaloso, mas fugindo dos remansos, permite vau, atravessa-se a braguilhas enxutas. Pisadas nos galhos caídos, revoada de ñambus, "ti...ti,ti,ti,ti,ti...”, canto alto e decrescendo. Fome. Não tenho fome, mas tenho as frutas do mato, as folhas e o que a Divina Providência se dignar me servir. Não tenho medo, não temo... Silêncio.

Yawaritê continua a me seguir. Paro e encaro a fera, olho seus olhos, olhares recíprocos, mas não desafiadores. Caio de coque, caipiramente. A onça deita-se, preguiçosa, imita a esfinge de Giseh, enormes caninos sorrindo para mim. As manchas de seu couro se movimentam em torvelinho. Continua sorrindo: "Homem em pé, me conte uma história"; não diria que pediu, diria mais que Yawaritê ordenou. Yawaritê é quem manda na Caa, dá as ordens que emanam de Tupan; Yawaritê abre e fecha as portas do tempo, é tomador de conta, premiador das coisas boas, castigador dos malfeitos...

Contei a história da anta e do tamanduá e levei todo o tempo que a jabuticabeira leva para crescer e nunca anoiteceu, nem choveu, nem fez sol quente, nem fez frio enquanto eu envelhecia.
- "Gostei da história. Ia pedir prá vossa mercê contar outra, mas o caminho ainda precisa ser aberto; a sua caminhada começa agora, homem em pé... agora vai!", Yawaritê me falou.
- “Não posso! Fiquei velho...minhas pernas não caminharão...”
- “A velhice é apenas tempo. Vosmecê é a sua parecença.”
- “Mas minha parecença é a de um velho, vejo meu reflexo nas águas...”
- “Permitimos que vosmecê desenvelheça, que se torne raparigo novamente... É um prêmio pelo seu desmedo e por sua história... Continue... caminhe...”

Minha peregrinação através do tempo paulistano, permitida pelo Yawaritê, verdadeiramente começa agora; propus-me uma missão, um encontro, mas deixei para lá, nada de perseguir um objetivo-bobagem, melhor imaginar, deixar as coisas acontecerem, preencher lacunas históricas com o imaginário, brincar com o absurdo, nada é normal ou definitivo, tudo é um exercício de surrealidade, nosso viver inclusive.

Do alto da Ladeira do Nhô Totico, que ainda não é, mas vai ser, um centenar de Jerivás desce até o Jurubatuba chegando a beirar seus meandros. Ubás estão amarradas para fazer a travessia até a mata de Curís do outro lado do rio. O nome Curí vai ser esquecido e restará apenas no falar dos guaranis que irão sobreviver e no nome de um Patrimônio chamado Curitiba que ainda não existe, mas vai existir; estamos vivendo em um tempo de passados futuros e presentes passados.

Dois réis! Dois réis foi o preço que Itamar Assunção cobrou para me passar até o outro lado do rio onde quase me perdi no meio dos Curís/Araucárias. Manejando o varejão cantou, versejou e me disse que seus ascendentes que estão por nascer, bisavó, avó e mãe, serão festeiras no dia de São Benedito em Tietê, que elas tocarão o candomblé e mais não falou. Caluda; com o queixo apontou-me a entrada de uma trilha e com outro gesto mostrou-me a Caaguassu, lá no alto. Era subir, subir, subir e descer, descer, descer até o covil de Anhangá.

Paro para descansar no início da proto Theodoro Sampaio, no Largo de Pinheiros. Uma missa está sendo rezada pelo jesuíta Belchior de Pontes, em uma clareira; ele vai precisar andar muito até chegar no Embu e começar a levantar a igreja de Nossa Senhora do Rosário... Me pergunta como deve fazer para atravessar o Jurubatuba e eu explico que Itamar deve ter ido até a Cidade Universitária para assistir o show do Milton Nascimento e do Vinicius de Morais; como estou em um lapso de tempo, indo e voltando, não vejo necessidade em informar que o show vai terminar em pancadaria com sangue derramado, gás lacrimogêneo, um outro tipo de gás com um fedor absurdo e que provoca vômitos e diarréias instantaneamente, e prisões pelo DOPS, mas ainda tem uns bons 300 anos para isso acontecer, é aguardar...
- “Vai ter que esperar, padre! O barqueiro vai demorar, mas deve voltar até a hora da reza!”
- “Em nome do Santíssimo, que...! Eu não tenho paciência...”

Deixei o padre boca-suja resmungando e fazendo o “em nome do padre” a cada blasfêmia. Estou no espigão do Caaguassu. Vou começar a descer (o Nêgo Levino, que já “subiu para cima” e virou entidade, saravá! diria “começar a descer para baixo”), repito, vou começar a descer em direção do centro da cidade, agora simplesmente centro ou “futuro centro velho”.

Respiro fundo e olho em volta: naquele pedaço de mata vai ter uma esquina onde será construído o Riviera Bar, reduto de “pseudos intelectuais” hiperautovalorizados”, teatrólogos fajutos, cineastas cheios de teorias, atores desempregados que conversam o tempo todo com voz empostada dizendo que a salvação do mundo está no teatro - "estou preparando um monólogo que vai abalar todas as estruturas, mas dependo de patrocínio..."

Em frente ao Riviera o cine Ritz Consolação, depois Trianon e em seguida Belas Artes, mudanças de nomes e de conceitos, desativado, talvez porque a plateia de “bebuços” frequentadores do Riviera não aguentasse mais ver filmes iranianos, entre outras razões, mas nada disso aconteceu ainda, tem que passar muito tempo! Em seguida o Cine Rio, depois Teatro Record que vai assistir o surgimento de um artista completo, Wilson Simonal que, infelizmente, cairá no ostracismo devido a acusações de espancamento de um funcionário por seu guarda-costas e por campanha do pessoal do Pasquim, Jaguar à frente, que o acusou de X9 para a repressão...

Ao mesmo tempo outro astro surge, Roberto Carlos, que também tem lá seu guarda-costas. O nome desse guarda-costas, no entanto, entrou para a história e ficou tão famoso quanto seu protegido: Sérgio Paranhos Fleury, famoso pelas bordoadas que distribuía a mancheias entre os fãs do cantor e por outros motivos posteriormente, quando chefiou a tenebrosa OBAN, já como Delegado de polícia, coisas de um futuro sombrio e assustador.

Agora estou subindo em direção à Sé pela Riachuelo, o antigo Beco da Casa Santa. Resolvi que preciso assistir um acontecimento dito histórico que sempre me intrigou. Esta amanhecendo e faz frio. Aguardo. Castro Alves, o poeta Castrinho, está se dirigindo para o Porto Geral. Eu o acompanho à distância. Cruza o Tamanduateí em uma barcaça, desembarca e começa a caminhar pela margem; em bandoleira leva uma espingarda para caça... Um tiro. Grito desesperado de dor. Revoada de pássaros, gritos das jandaias e maritacas. Os gritos continuam.

Os barqueiros socorrem Castrinho que tem ferimento sangrante no peito do pé direito, explodido, esburacado por dezenas de grãos de chumbo. A enorme ferida é coberta com o barro argiloso da margem do Tamanduateí, péssimo procedimento terapêutico, mas foi dessa maneira que os barqueiros procuraram estancar o sangramento, única maneira que conheciam. Castro Alves foi levado para a pensão de estudantes onde morava e ficou aguardando um médico para atendê-lo...

Antonio Frederico de Castro Alves, poeta, teatrólogo, estudante de Direito, polemista, quase um ator, vinha morrendo lentamente já há alguns anos, sendo corroído pela tuberculose pulmonar; aquele tiro apenas aumentou seu sofrimento físico e apressou sua morte... A história oficial fala em acidente de caça, e é o que é ensinado nas escolas, nas aulas de literatura, no entanto...

No entanto, não devemos esquecer que estamos fazendo nossas caminhadas em uma ambiência surreal, em um universo onde o tempo não conta, as verdades são questionáveis e, quando não, contestáveis; personagens vão e vêm, encontram-se e desencontram-se, transitam através dos estratos de tempo e dos acontecimentos, não estão nem aí para Hora do Brasil...

Castro percebe que não vai conseguir disparar a espingarda dentro de sua boca, os canos são muito longos e seus braços não conseguem chegar aos gatilhos. Encosta a arma junto ao tronco de um salgueiro à margem do rio e sai à procura de um graveto com a ponta em forquilha para poder disparar a espingarda. O coração batendo forte começa a perder a coragem, pensa, reflete. Senta-se em uma pedra e, ensimesmado, olha os barqueiros trabalhando a 100, 150 metros...

Desiste. A saída através do suicídio está afastada, por enquanto. Vai seguir com seus problemas, com o suicídio do irmão, com o abandono de sua companheira (desse mato não sai coelho, teria dito Eugênia Camara), com suas doenças, com sua orfandade total, com sua solidão... Levanta-se, vai desengatilhar a arma. Manobra errada, um tiro! Castrinho cai, a perna despedaçada. Barqueiros correm para socorrê-lo. Já vi o suficiente e prefiro essa versão do início da morte de Castro Alves.

O bonde me deixa no Largo de Pinheiros. Vozes, acordes de violão, o som fino de um cavaquinho vem do bar do Narciso. Vou até lá e lá está gente conhecida: Geraldo Filme, Solano Trindade, Jangada, Talismã, Cabo Verde, Galo Cego, Cecê, Boca de Barro, Jaburu, Marião, Pé Rachado, Brandão, Ademar Ferreira da Silva...
- “Chega mais, garoto, o Geraldão tem um samba novo. Canta aí pro menino ouvir, compadre!”
"Quem nunca viu samba amanhecer
Vai no Bexiga prá ver
Vai no Bexiga prá ver...”

"Preciso engraxar minhas chancas, tô jogando no Nacional do Caxingui e sábado tem jogo contra o Botafogo da Vila Sonia... Segunda-feira tenho sabatina de Latim, não sei como traduzir o “De Bello Gallico...”


E-mail: jdesouzanetto@gmail.com

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Publicado em 30/03/2013 Que lindo texto!
Fala de Castro Alves um dos meus poetas queridos.
Gostei muito.
Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 24/03/2013 Joaquim, maravilhoso demais. Apaixonante. Só relendo mesmo para extrair o máximo dessa narrativa. Receba os meus parabéns e um enorme abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 23/03/2013 Epopéia paulistana terra mater. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 20/03/2013 Feliz de quem, como eu, pode morrer, renascer e remorrer no texto do Joaquim. Enviado por Edmilson Mário Jacoud - mariojacoud@gmail.com
Publicado em 20/03/2013 Joaquim, que aventura virtual, transportando se para o passado e reencarnando no presente. Lembrei me do meu passeio programado na descida a pé da Serra do Mar pela estrada velha, imortalizada na musica de Roberto Carlos, hoje fechada para turismo, assim como você, me transportei para o século XVI, quando desci essa estrada e depois no meio do trajeto caminhei pela trilha da calçada do Lorena, uma trilha de pedras lisas onde índios e escravos subiam a Serra com cargas no próprio ombro e em lombos mulas, como era possível essa subida, pois ali é uma verdadeira muralha, parabéns pelo estilo do texto,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 20/03/2013 Seus textos prendem a minha atenção de tal maneira que o leio inteirinho, tentando adivinhar o que virá na próxima linha. Admiro muito seu estilo, a facilidade com que relata os "fatos" dando um grande ar de verdade.Mais uma vez, parabéns pelo belo texto! Abraço Célia Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - rccsimonato@hotmail.com
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