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Categoria - Outras histórias A última vez que vi Domingos da Guia jogar: pedacinhos bem pequenos e felicidade Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 02/04/2013

Deixei aquele aroma delicioso de manjericão no molho da macarronada que Dona Maria Capuano e outras senhoras italianas preparavam aos domingos, despedi-me de minha mãe e saí com um sanduíche de pão com ovo frito que vou mastigando até a esquina do Cine Rex, onde a turminha costuma se reunir. Hoje nós vamos ao Pacaembu, o meu tio Manezinho vai levar a gente, todos nós com oito, nove anos de idade e muita vontade de ver o futebol, o jogo entre Corinthians e Palestra (já era Palmeiras, mas a força do hábito...).

Meu pai tinha me dado 2000 réis para gastar no estádio, comprar bala mistura, amendoim salgadinho ou pipoca americana; devido nossa pouca idade pagaríamos meia geral se meu pai não tivesse ganho os ingressos da chefia da Casa Civil do Palácio do Governo, onde ele trabalhava. Futebol de graça? Nada melhor! No Pacaembu? Um sonho! E ainda mais com uma moedinha de 500 réis no bolso...

É... 500 réis; minha mãe ficou com 1500 réis:
- "Eu vou guardar pro cê esses 1500; seu pai é um mão aberta... onde já se viu criança andando com 2000 réis no bolso... é muito dinheiro prá quem nem consegue se limpar direito... (de vez em quando minha mãe aparecia com uns exemplos de vida bastante escatológicos!); fiz outro pão com ovo prá você comer no campo, 'num me vai gastá esses 500 réis atoa... Agora vai... vai com Deus... Num vai se perder... fica junto com o seu tio... - Tá bom, mãe... 'bença'... - Deus te abençoe... anda na calçada, num me vai pisar no trilho do bonde que você toma choque...”

Meus colegas já estavam esperando, matando o tempo olhando as fotos de cenas de filmes que ficavam expostas em uma espécie de display na entrada do cinema e tentando adivinhar o que estava acontecendo. É nessa hora que o 'Roqui Lãne' fala pros bandido:
- “camondibói! 'cês ta tudo preso...”
- “Não, é quando o mocinho faz o cavalo ficar quéto pros bandido num sabê que ele ta escondido! Só depois que ele grita 'camondibói'!”
- “É... acho que é...”

Não demorou muito e meu tio Mané chegou; deve ter descido do bonde na Humaitá e subido até o Rex:
- “E aí, Inácio? Seu pai te deu os ingressos?”
- “Num brinca tio! Meu pai disse que os ingressos tavam com o senhor...”
- “Brincadeira... tão comigo... Eu só queria dar um susto nocês!”
- “Qui susto, tio...” 1947.

Meu tio era um “molecão” de seus 17, 18 anos e já trabalhava em uma fábrica de artigos de borracha, a Nogam, no ponto final do bonde 47, pertinho da garagem dos bondes na Domingos de Morais, ao mesmo tempo que, não desmentindo sua pouca idade, podia ser visto empunhando um estilingue ou jogando futebol de pés descalços no meio da rua Borges Lagoa ainda sem calçamento, mil topadas, dedões estourados...
- “Nós vamos de bonde, tio?”
- “Não, ocês tão pensando que eu sou rico? Metade do caminho nós vamos andando, depois vamos a pé...”

Canhotinho tabelou com Lima, recebeu a bola de volta e fez o centro para a pequena área do Corinthians; Eduardinho se preparava para saltar e cabecear contra o gol do Gato Preto quando Domingos da Guia “passou à sua frente e matou” a bola no peito, colocou-a no “solo pátrio” (auê Geraldo José de Almeida!) e ficou como que esperando. Eduardinho se recompôs e acossou o Mestre, mas tomou uma bola entre as pernas; em seguida Domingos fez um lelê com a bola e fez menção de atrasar a bola para o Bino Gato Preto (os cariocas sempre falaram "embaixada ou embaixadinha", mas em São Paulo, especialmente naqueles anos 40, o termo usado era "lelê"); os palestrinos correram para marcar o goleiro, mas tomaram uma “touca” coletiva e Domingos da Guia saiu com a bola para a linha média, passe para Dino Pavão... Eu assistira talvez uma das últimas domingadas do Divino Mestre, coisa que ainda está viva em minha memória mais de 60 anos depois!

Aquele domingo foi das últimas vezes que me reuni com meus amigos do Bexiga; o Liquinho entrou em um seminário e deve ter virado padre, acho; o Vando, uma ou duas semanas depois teve poliomielite e foi para o Emilio Ribas. Morreu no pulmão de aço. Os irmãos Carlinhos e Dedé mudaram-se do Bexiga e nunca mais tive notícias deles; acabei ficando sem amigos de minha idade de uma hora para outra... Mas aquele foi um domingo para não ser esquecido, definitivamente. O Corinthians ganhou do Palestra por 2 a 0, fez sol o dia todo, um sol muito alegre, o ar que a gente respirava parecia ser mais leve, um dia muito gostoso. Quando saímos do estádio meu tio Mané comprou um pacotinho de pipocas para cada um de nós e, juro por tudo quanto é sagrado que nós nunca comemos pipocas tão gostosas, ainda mais gostosas que os lanches que fizemos no intervalo do jogo, sanduíches de pão de bolso e goles de água de torneira.

Claro que voltamos a pé; naquele dia nós andamos, não é nada, não é nada, uns bons dez quilômetros, indo e voltando. Ninguém ficou cansado ou se queixou, voltamos alegres, conversando, brincando pelo caminho. O Carlinhos e o Dedé ficaram em casa na São Vicente, pertinho da Acheropita. O Liquinho morava no “vilão” da Fortaleza e continuou com a gente até a porta do cortiço onde eu morava; “parmeirista”, não reclamou das brincadeiras que a gente fazia, até ria junto conosco, seu time estava bem e seria campeão paulista de 1947 treinado por Osvaldo Brandão, que assumiu o time após cirurgia de menisco que destruiu seu joelho e o afastou dos gramados como jogador... Meu to Mané "jantou" com a gente uma macarronada esquentada no banho-maria, pão, ovo frito, salada de chuchu cultivado em uma lata de óleo de 20l e os indefectíveis copos d'água.

Acompanhamos meu tio até a rua e ficamos por lá, minha mãe e eu; minha mãe conversando com os vizinhos e eu olhando o bonde passar, vendo quem descia ou subia no ponto... E pensando naquele domingo maravilhoso que não deveria acabar; eu vira Domingos da Guia, o “Divino Mestre”, meu ídolo no futebol, vira o Corinthians bater o Palestra, vira um bocado de grandes jogadores: Eduardo Lima, Canhotinho, Oberdan, o genial Waldemar Fiume, Cláudio, Baltazar, Belacosa, Palmer, Bino 'Gato Preto', Servílio, Caieiras, Tulio, Eduardinho...

Lá vem meu pai, subindo a Ruy Barbosa; vem a pé do trabalho. Além do Palácio do Governo, meu pai trabalhava na São Paulo Railway, em 1947 já Santos a Jundiaí. Escapara do incêndio da Estação da Luz em 46 e seu setor – Rádio Telégrafo - fora transferido para a estação Barra Funda; ele levava uma vida atribulada, economizando os tostões e vinténs dos bondes que sempre eram transformados em meio filão de pão e 1/4 l de leite; também fazia rádio-escuta para a France Press, para a Reuters, Associated Press, United Press e checava as frequências das rádios comerciais da capital cada 15 dias (ainda um resquício de exigência do DIP), uma correria só o tempo todo.

Naquele dia, apesar do cansaço, estava muito feliz, alegre; chamou minha mãe e a mim para um lado:
- “A Reuters e a Associated Press mandaram um office-boy me entregar o vale lá na Barra Funda...”
- “Ué! Por que então você veio a pé?”
- “Sei lá! Costume, acho... Mas agora tou me sentindo um milionário... hoje nós vamos comer pizza!”
- “Pai, o que é pizza?”
- “Não sei, mas deve ser mais gostoso que arroz com feijão...”
- “Ai Alcides! Vamos guardar esse dinheiro... Precisa comprar roupa prá você, roupa e sapato pro Ignácio...”
- “Zezé, só hoje, só hoje...”

Meus netos e meus filhos não entendem porque, de vez em quando, numa pizza mista, eu peço para fazer uma fatia de aliche...
- "Não sei como o vô pode comer pizza de peixe, e peixe ruim, de gosto horrível..."
A primeira fatia de pizza que eu comi na minha vida era de aliche, mas eles não vão entender nada... (o vô tem cada gosto estranho!) e nem adianta falar daquele mágico domingo de novembro de 1947, quando eu vi Domingos da Guia pela última vez, comi as melhores pipocas do universo, maravilhosos sanduíches de pão com ovo frito, vi meu pai contente, feliz e fui dormir quase meia-noite, “que nem gente grande”, depois de terminar a sessão da noite do Rex...

Houve outros domingos felizes, mas aquele domingo de sol... Aquele domingo... Ah! Aquele domingo!


E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br

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Publicado em 02/04/2013 O Domingos da Guia, perguntei por isso Inácio, ouvi muito falar também, tinham jogos que ficava atordoado marcando o Oswaldinho, Oswaldo Buzzoni, já falecido também, era do Juventus, foi para o Palmeiras, Campeão em 1947, voltou acho que em 1949 para o Juventus e depois foi para a Portuguesa nos tempos daquele timaço da Lusa, cheguei conhecê-lo, ótima pessoa. Oswaldinho, tal e qual Copeu quando era marcado pelo Rildo, várias vezes aconteceu em Santos x Palmeiras, costumava infernizar a vida do grande Domingos da Guia, ouvi muito isso. Você chegou ver alguma vez? - abraços - Pedro Luiz -. Enviado por Pedro Luiz Boscato - plboscato@uol.com.br
Publicado em 02/04/2013 Pedro Luis, realmente o Domingos foi um monstro do futebol; seu filho Ademir da Guia, apesar de jogar em outra posição, deve ter jogado metade da bola que o pai jogava, prá c ter uma idéia!; que eu me lembre ainda vi o Mestre jogar mais uma ou duas vezes e depois num campeonato sul americano de veteranos. Satisfeito?
Abraços do Ignacio
Enviado por joaquim ignacio de souza netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 01/04/2013 Que texto bom de se ler, Joaquim. Meu pai se deleitaria com ele. Já repassei para o meu filho e para os meus tios, que adoram casos desse tipo. Gostei muito. Meus parabéns e um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 01/04/2013 Uma delícia de texto, Sr. Ignácio. Tive também domingos memoráveis, cujo ápice foi assistir as fantásticas exibições do meu grande ídolo, Ademir da Guia, filho do Divino Mestre Domingos da Guia. Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
Publicado em 01/04/2013 Sr Joaquim viajei contigo nesse lindo dia de domingo Enviado por alexandre ronan da silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 01/04/2013 Literatura, Cultura futebolistica, curiosidade, nostalgia, derby paulistano, pacaembu, crônica, Cine Rex: Previdão: Tú reune simultaneamente tudo que é de bom e o texto só poderia levar dez. Lí e reli.
(a) O meia direita de segundo quadro do Nacional do Caxingui do José Carlos Ymada(in memorian).
Enviado por Xico lemmi s.paulino - francisco.lemmifilho@yahoo.com
Publicado em 01/04/2013 Seu texto, tão lindo, me emocionou e eu terminei chorando,e, em alguns parágrafos cheguei a vislumbrar minha mãe querida, cujo refrão, " não me vai chegar tarde...", não me vai sair de perto do teu pai; eu já te falei prá você que não é pra me fazer isso", e meus dois irmãos tão queridos, e aqueles maravilhoso anos quarenta, tudo o que se perdeu e que o vento carregou.Meu pai só comia pizza de alicce com muzarella o resto dizia não ser pizza. Todos já se foram mas as lembranças que você trouxe nesse texto não tem preço.Um abraço, Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 01/04/2013 Texto realmente maravilhoso, Joaquim Ignácio, valeu a pena e bem ler e reler, parabéns, maravilha o conto, a ida ao estádio, o que comeu, a volta, beleza, falando dos pais, do tio, dos amigos, beleza pura. Eu não cheguei ver o Domingos Da Guia jogar, ouvi muito falarem dele, ouço ainda, os mais antigos que felizmente ainda aqui estão falam. Há quem o considere o melhor zagueiro do mundo de todos os tempos, já li e ouvi isso. Você chegou vê-lo mais vezes jogar? - abraços - Pedro Luiz -. Enviado por Pedro Luiz Boscato - plboscato@uol.com.br
Publicado em 01/04/2013 Que domingo feliz, mesmo! Como é bom sentir toda essa felicidade novamente! Meu marido fala muito do Ademir da Guia, dizendo que era um dos melhores jogadores que ele já viu! O eterno Divino, filho do "Pai" da bola! Ah, e a pizza predileta do meu sogro era a de aliche (gostava de quase de todas).Parabéns pelo texto! Abraço Célia Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - rccsimonato@hotmail.com
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