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Categoria - Outras histórias Um estranho episódio na Praça da República Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 10/04/2013

Eu não deveria, mas resolvi que algumas passagens de minha vida precisam de uma explicação, que eu não as tenho. Procurei Babalorixá na esperança de esclarecimentos, mas não consegui, segredo fechado, tabu! Aqueles que sabemos “os porquês” e os “pelos quais”, são de níveis hierárquicos elevadíssimos e trocam suas verdades em rituais de práticas milenares a que apenas eles têm acesso, são donos dos segredos, das cantigas, das histórias; são os ritos e, ao mesmo tempo, são os guardiões do tempo, somos formigas e eles são djambos(*) e simbas...

Foi-me permitido abrir meu segredo; explicá-lo depende de quem tenha o conhecimento e licença para desvendá-lo. Começo saudando e presenteando Exu Alegbá e meus ancestrais, egunguns, com versos-homenagem para que os sete caminhos se abram e minhas palavras sejam ouvidas e bem interpretadas:

“Malungo capoeira,
toca o urucungo,
capoeira...
se arrasta no chão
que nem caninana
capoeira...
voa no céu
que nem passarinho
capoeira!
Malungo capoeira,
toca o urucungo!
Capoeira...
A ginga, o meneio,
o faz que vai mas não vai
é tudo o que a boca come,
o negaceio.
O baticum dos atabaques
marca o som metálico do berimbáu
urucungo”

Negras vozes entoando chamadas para o jogo, para a luta; corpos negros se contorcendo, rastejando, voando, girando no ar, corpos negros no negror da noite e da madrugada na dança dos Orixás! Praça da República, 4h e “tralalá” da manhã. Fins dos anos 50 e início dos 60, meus anos mais loucos.
- “Disfarça que a baratinha da polícia parou; lá vem os meganhas prá encher nosso saco...”

Um negro velho assistia à roda de “capoeiragem” enquanto tomava conta dos locais onde seriam armadas as primeiras barracas da feira de artesanato que ainda estava em seus primórdios - era o início de tudo; ele pediu que parasse o toque, os cânticos e a rinha, "todo mundo calmo, olhando pros guardas, mas olhando firme! Que não vai acontecer nada, esse chão está rezado, cruzado, trabalhado, saravá Ogum com os Ferros e as Armas!"

Naqueles anos o mundo esteve enlouquecido, parecendo que engolira uma cartela inteira de LSD, o grande universo das visões, sons e loucuras psicodélicas: hippies, beatniks, rock'n'roll, samba-rock, a pílula, cinema, Teatro de Arena, futebol do "A Copa do Mundo é Nossa, com o brasileiro não há quem possa...", Vietnam; nas Coréias, desconfiados olhos amendoados vigiam através do arame farpado que marcava (marca) o paralelo 38, “assessores militares” norte-americanos espalhados pelo mundo, bomba A, bomba H, atol de Mururoa, atol de Bikini, Los Alamos, Jorginho, Promessinha... uma doideira total e absoluta, a batata começando a assar na chapa e a gente nem aí com o preço do robalo...

Meus amigos Fúlvio, Pedrão, Cláudio “Grosso”, Alexandre, Chico “Preguiça” de Assis, Paulo Patuska, este seu criado, obrigado, e mais alguns, coordenados por C. A. (dos maiores jornalistas do país, já falecido) às vezes saíamos com baldes, vassouras, escovões, água sanitária, pás para recolhimento de lixo e fazíamos a limpeza de alguns monumentos e áreas históricas do centro da cidade, cartões postais: o bebedouro para cavalos do Piques, o obelisco da Ladeira da Memória, a fonte da Júlio Mesquita, o grupo estatuário do Municipal, os bustos no entorno da Biblioteca Mario de Andrade, varríamos e recolhíamos o lixo do Pateo do Collegio... Terminadas nossas tarefas, vínhamos para o ponto de ônibus da Praça da República a espera do 101 - Belém/Previdência em sua primeira viagem ou para a Praça Ramos, onde tomávamos o bonde para Pinheiros.

Quando o pessoal do Embu começou a vir para o centro de São Paulo para expor seus trabalhos, nós nos acostumamos a ficar mais um pouco para ver as montagens, escutar as cantorias, ouvir e contar histórias, conhecer melhor aquela gente tão estranha, com suas roupas floridas, seus cabelos compridos, ponchos, sandálias, colares, medalhões e que fumavam (alguns, não todos) estranhos cigarros artesanais de cheiro fortíssimo.

Capoeira e as rodas de samba, e os ritos de preparação das áreas das barracas: chão rezado, cruzado, trabalhado, me defenda das doenças, do mau-olhar, Atotô Obaluaiê Babá, condutor de meu Ori... Em vista de todo esse universo desconhecido que começou a se abrir para nós, jovens então, percebemos que não sabíamos nada da vida, que éramos playboys bem intencionados tentando ser salvadores do planeta...

"Firmem o olhar, firmem! A polícia não vai ver a gente... Não desviem os olhos... nem pisquem!" O negro velho insistiu e, ao mesmo tempo, foi baixando o tom de voz enquanto apontava sua bengala, diria um cetro, para os soldados... 20, 30 pessoas estavam vendo a roda de capoeira e acompanhando as cantigas com palmas. De repente o silêncio, a imobilidade dos corpos. Os policiais desembarcam da viatura, são três, e se dirigem a nosso grupo.

Os capoeiristas permanecem em pé, corpos imóveis, apenas acompanhando com os olhos a aproximação dos “guanapos”; nós permanecemos firmes, não desviamos o olhar embora temeroso, sem saber o que poderia acontecer... E não aconteceu nada! Os policiais iam avançando, desviando-se das pessoas estáticas, desviando-se de nós, como que nos driblando; vão até o fim da alameda olhando para todos os lados, procuram nos jardins do Caetano de Campos com seus faroletes; retornam refazendo seus passos, passam novamente por nós. Um dos soldados, um sarará, para à minha frente olha através de mim, mas percebo que ele parece cego, os olhos esgazeados, está confuso, mandinga do mandingeiro...
- “Esquisito, sargento, os caras sumiram... Aqui tava cheio de gente...”
- “Malaco é bicho esperto... quando eles viram a gente saíram no pinote...”
- “... sei não, sargento... Foi tudo muito rápido...”
- “Que se..., não quero nem saber, não vou ficar esquentando a moringa por causa desse pessoal, vamos continuar a ronda que dá mais certo... Aposto que os caras já devem estar correndo lá no Mappin...”

Quando o negro velho, finalmente, baixou sua bengala foi que me dei conta do que tinha acontecido... Parecia que a escuridão da madrugada tivesse ficado mais densa, uma escuridão quase pastosa ou aveludada, não sei explicar muito bem aquela sensação, uma espécie de explosão, não de luz mas de trevas, em contrapartida ao azul, ao verde, ao vermelho, ao branco, cores pulsantes que inflavam e desinflavam as veias e artérias de minha cabeça, flashes, enxaqueca “pós-decorrer-de-um-mistério”...

Esperando o bonde em frente ao prédio da Light ninguém comentou o acontecido, quase uma ressaca, evitávamos até olhar um para o outro... O medo do desconhecido e do imponderável é coisa séria! "...e, prá completar, o polícia ainda chamou a gente de malaco... malaco é a mãe!”

Passados 50 anos, mais ou menos, as coisas que aconteceram naquela madrugada ainda me deixam intrigado; o que teria acontecido? A polícia nos viu ou não nos viu?... O polícia sarará disse ter estranhado o desaparecimento, em um átimo de segundo, de cerca de 30 ou 40 pessoas... E aquele negro velho com sua bengala de madeira esculpida com signos de origem nitidamente africana? Teria ele algum poder? Existem pessoas que tem esse poder todo? Babalorixá não quis responder a nenhuma pergunta que fiz; apenas afirmou que mais dia menos dia eu teria as explicações, o conhecimento que procurava... Um mentor abriria meu Ori...que aguardasse. Estou aguardando!

Alguns anos atrás conversei a respeito com um dos colegas da época, então sócio do Camuraí Drinks, Night bar que ficava próximo à Praça da República, na Arnaldo Vieira de Carvalho:
- “Pô, Ignácio, faz tantos anos, eu nem lembro mais daquele tempo! ...mas, pensando bem... de madrugada, quando passo pela praça, tenho de apressar o passo; parece que... sei lá!... não é medo, sabe? a malandragem toda do pedaço me conhece e eu conheço toda a fauna que vive nas redondezas... sei, não!... foi você tocar no assunto e eu me arrepiei todo...”

Continuo aguardando uma explicação ao menos plausível para o fenômeno, se é que posso usar esse termo; você teria como iluminar-me com o conhecimento? Não? Alguém de suas relações teria esse dom? Preciso saber, preciso saber, preciso saber... E você? Teria?

PS: Na ocasião precisamos parar com nossa “Operação Faxina” porque fomos denunciados (!) como vândalos (!) e que repetidamente procurávamos depredar monumentos e logradouros públicos em um total desrespeito à história de nossa querida cidade de São Paulo de Piratininga, indo contra todo o ideário de “paulistanidade e blábláblá”... ( o sujeito não foi reeleito!)

(*)“djambo=elefante em swaili – jumbo é a grafia inglesa e deve ser pronunciada, claro, djambo; simba = leão - qualquer criança obinubilada pelos puritanos desenhos da Disney sabe a tradução; a pronúncia é quase a mesma...”


E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br

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Publicado em 11/04/2013 Saravá, misi fi! Enviado por Luiz Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 11/04/2013 Realmente, a intenção foi fazer um texto delirante, sobre um acontecimento inexplicável (pelo menos para mim!) ocorrido numa noite/madrugada de um sábado para domingo. Na narrativa existem não-mentiras e desverdades, mas o cerne da coisa toda...hum!... mesmo pensando cartesianamente, ainda não entendi como tudo aconteceu...
Naquele tempo a polícia perseguia os artesãos que vinham do Embu expor e vender seus trabalhos, prendendo, derrubando as barracas, nomeando seus atos belicosos como 'combate à vadiagem'. Capoeiristas, músicos, sambistas, negros, não tinham a menor chance: 'balançou' o corpo, tocou pandeiro ou violão, era cana braba, não tinha 'perhaps', era ir ver o sol nascer escocês. Nós que procurávamos manter íntegros alguns monumentos e locais históricos de nossa cidade fomos tachados de "vagabundos, vadios, desocupados, bando de veados", e não fora nosso coordenador e sua posição dentro do jornalismo, não sei o que poderia acontecer...
Rubão, meu colega que era sócio do Camuraí Drinks era o Virgilio Oliva Neto, o Neneco, um baixinho, simpático, bem falante... a última notícia que tive dele faz muito tempo é que ele estava gerenciando duas lanchonetes no aeroporto de Cumbica..., lembra-se dêle? O Neneco jogou algumas vezes no misto do Corinthians, levado pelo Roberto Battaglia, nosso vizinho e amigo.
Abraço do Ignacio (desculpem, por favor, essa verborragia desatada!)
Enviado por joaquiim gnacio de souza netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 10/04/2013 Sr.Souza Netto, conhecimento, magia, cultura milenar e para quem não sabe dos segredos o olhar pasmado e a certeza de que o incerto também povoa o nosso universo físico. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 10/04/2013 Ignácio, coisas inexplicáveis acontecem e nem sempre a gente consegue entender, agora: taxar de vândalos pessoas que se propuseram a limpar a cidade isto sim é do outro mundo, parabéns pelo texto, Nelinho.- Enviado por leonello tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 10/04/2013 Ignácio, como diz o espanhol: brujas!!! non lo creo, pero que ai, ai.. Melhor não mexer com isso não deixa pra lá, um dia você vai saber. Saravá Ogum. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 09/04/2013 Estranho é isto tudo que voce escreveu,eu não entendi nada...achei um longo delírio. Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 09/04/2013 OH, ME DEU SAUDADES DO "CAMURAI DRINS", BELOS TEMPOS, BELOS DIAS QUAN DO EU IA LÁ, RUBÃO Enviado por RUBENS ROSA - RROSA49@YAHOO.COM.BR
Publicado em 09/04/2013 Dizem, " bá muito mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia". Simplificando, " há muito mais coisas sobre nossas cabeças do que os aviões de carreira". Ou como dizia minha saudosa avó, " yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay ".Um abraço, Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 09/04/2013 Que intressante, Joaquim. Confesso que nunca li ou ouvi nada igual. O que dizer? Só posso te dar os parabéns por aquele tempo de juventude, que ajudou a limpar espaços importantes da nossa cidade e tentou entendê-la também. Ótima iniciativa e uma experiência ímpar.Um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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