Leia as Histórias

Categoria - Paisagens e lugares Travessa do Gasômetro Autor(a): Modesto Laruccia - Conheça esse autor
História publicada em 15/04/2013

Quem entra na Rua Assumpção, no glorioso bairro do Braz, bem em frente à lateral do Palácio das Indústrias, (que já foi "9 de Julho" e a "Assembléia Legislativa", onde Osasco, em 1964, conseguiu sua emancipação), a primeira ruazinha que encontra, a sua direita, é a antiga, (bem antiga, põe antiga nisso) "Travessa do Gasômetro", hoje ostentando outro nome. Essa viela, com cem metros, se tanto, por dez de largura, não tem saída.

No início do século passado, os fundos da travessa era ocupado por um rinque de patinação, segundo minhas e meus irmãos mais velhos. No local, armazéns cuja entrada é pela Rua do Gasômetro A, área a sua direita (hoje, mais armazéns) era da siderúrgica Stamato; a sua esquerda, só residências, bem simples, de porta e janela no antigo estilo, isto é, sem nenhum estilo. Por favor, não pensem em jardim ou entrada para carro. Nem carrinho de rolimã, pois a ruazinha era de terra, sem nenhum calçamento.

Havia, também, entradas para duas pequenas vilas onde, por capricho do engenheiro, na época, deu guarida para mais três famílias em cada vila, se não me falha a memória. Do lado direito, ao lado do Stamato, uma residência de um funcionário da siderúrgica, "frastiere", ou seja, forasteiro, pois quem não era “bares”, de Polignano a Maré, província de Bari, sul da Itália, era considerado "estrangeiro", em sua própria terra.

Essa "Travessa", como nós nos acostumamos chamá-la, (até hoje) traz muitas recordações que aos poucos vou relatando, conforme minha memória assim o permitir. Morava na Rua Assumpção, bem em frente à travessa, meu pai tinha um empório na esquina da Assumpção com a travessa. Quando eu nasci, em 1932 na mesma Rua Assumpção, onde hoje tem uma belíssima agência do Bradesco, ele já havia passado o armazém para seu irmão, Santo. Esse irmão, falecido em 1938, juntamente com meu avô paterno, Vito, mestre de obras e minha tia Maria. Dois irmãos e o pai, no mesmo ano, é doze, abalou muito meu pai que já havia perdido sua irmã, Carmela na revolução de 1924, cuja estória relatei no nosso glorioso site SPMC, sob o título "Carmela", em 11 de novembro de 2009.

Pouco tempo depois o empório foi vendido ao sr. Seripieri, o "Cafarilo". Na "travessa" tive bons e surpreendentes momentos de minha infância, principalmente nos finais da década de 30 e início da 40. Com total liberdade, sem nenhum risco aparente, eu e meus amigos da mesma idade, brincávamos com bola, pega-pega, uma-na-mula, palha-ou-chumbo, correndo, gritando, pulando sem nenhuma preocupação. Vez ou outra, com fome e a vontade de comer pão de minha avó materna, Maria Labate Mônaco, que morava nos fundos da "travessa", em uma área coletiva com três famílias.

Ao chegar a sua casa, de lá, em outra porta, na mesma vila, ouvia a saudação que me dava, em polignanês, a irmã de minha avó, tia Anina (tia Aninha), em dialeto dos nascidos em Polignano:
- “a Maré, Bari”, sul da Itália e, na tentativa, vou transcrever conforme a pronúncia:
- "Mu vaine u uomane du pene" (lá vem o homem do pão).

Adorava aquele pão de massa branquíssima, macio, gostoso mesmo, que chamávamos de "pão suíço". Para minha avó, que, carinhosamente, chamávamos de "Nonó", era um prazer enorme me dar o "papaccilo", (bico ou ponta do pão), fazia um buraco no miolo e enchia de azeite. Agora, para o meu avô, Vicenzo Mônaco, era uma despesa a mais nos “parcos” recursos que lhe dava a venda de peixes em balaios, pelas ruas do Braz e Mooca. Carrancudo, pouco dado a conversas, não era muito carinhoso, mas boa pessoa, trabalhador e correto. É bem provável que esse perfil seja reflexo de sua atividade em sua terra natal, pescador, que chegava a ficar semanas e até mês e alto mar, aguardando um pesqueiro que lhe garantisse o capital investido.

Na medida do possível, vou escrevendo mais sobre minha infância na "travessa". Obrigado a todos.


E-mail: modesto.laruccia@hotmail.com

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 18/04/2013 Texto bacana Modesto, tenho um amigo que é de Polígnano a Mare, seu nome é Stefano Modugno. E por favor, nos lembre em maio próximo, da Festa de São Vito. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 18/04/2013 Texto bacana Modesto, tenho um amigo que é de Polígnano a Mare, seu nome é Stefano Modugno. E por favor, nos lembre em maio próximo, da Festa de São Vito. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 18/04/2013 É Modesto, o Braz que você lembra,com àquele ar romãntico, povoado de imigrantes italianos, deixou de existir a muito tempo,tragado pela força do progresso que tudo sacrifica para dar passagem ao deus-automóvel e outros que tidos como meios de transportes, entopem as ruas de São Paulo.Mas sobre a sua tia Carmela,fica uma dúvida.Será que se essa moça recatada,laboriosa na sua modéstia, estivesse do lado dos malvados que lhe destroçaram a vida,não seria lembrada como uma heroina? Sim, parece que quem, não faz parte da turma dos rebeldes, é tido como inútil.Se a Carmela fosse uma revoltada, uma ativista,o desfecho seria outro.Mas como era uma boa mulher, pacata,que ia casar e formar uma família, (sses valores de nada servem para os malfeitores),ficaria, se não fosse os familiares,enterrada como indigente,no esquecimento.Só que na atualidade dos dias de hoje,parece que nada mudou.Num universo,cada vez mais explosivo,as bombas muito mais potentes,continuam sendo detonadas,ceifando vidas preciosas,impondo nas famílias, a tristeza do luto permanente.Só Deus pode nos defender e, nos salvar! Enviado por Maria Tereza - marialuizzeto@HOTMAIL.COM
Publicado em 17/04/2013 Caro Modesto. Bons traços revelados em sua narrativa, o Polignono de Mare, e "bares", “oriundi”, no seu querido Braz da Travessa Gasômetro - Rua do Gasômetro (?), sendo "sua terra natal", pescador de alto mar. Acho que compreendi. Não se esqueça de nos informar, para maio próximo, sobre a Festa de São Vito. Quero ir e me encontrar com você, se for possível. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 17/04/2013 Nós é que agradecemos a você Modesto. Agora, que dialeto " dei cani questo" em amigo!!! Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 16/04/2013 Welcome Back ! pelo menos nos textos . Nao sei quando voce enviou este.Talvez antes da cirurgia mas com certeza estamos felizes em ler alguma coisa escrita por voce.Esperamos voce muito brevemente ja comentando e com a continuacao da tua infancia bem travessa com certeza . Abracos amigo . Felix Enviado por Joao Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 16/04/2013 Que bom que voltou mais forte.
Com sua boa visão de sempre.
Que assim continue por muito tempo.
Parabéns sr. Ernesto.
Enviado por Edmir Espindola - edmirespindola@ig.com.br
Publicado em 16/04/2013 Muito bom Mestre Modesto! Agora enxergarás até nós os corinthianos. Brincadeira a parte! Aquele abraço! Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 15/04/2013 Caríssimo Modesto, você como bom descendente de italianos está relatando epsódios vividos durante a sua infância no glorioso bairro do Bra"Z" como vc faz questão que se escreva. Temos a curiosidade de ler a sua narrativa, cheias de histórias interessantes. Ficamos aguardando mais relatos.Um abraço Grassi Enviado por J Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 15/04/2013 Agora sim: o sr. Modesto voltou. Parece que agora o site está inteiro , andando direito e com mais segurança. Que sorte a nossa ter um companheiro das letras presente e firme. Ainda mais com os textos tão bem escritos, com leveza e presença. Lindo relato, o que é o nosso costume. Personagens especiais, de rara beleza e importância na vida do amigo. E como devia ser bom o pão, de massa tão branca... Parabéns, meu grande Modesto. Tenha um feliz retorno e que tudo tenha dado muito certo na sua cirurgia. Um abraço apertado. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br