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Categoria - Outras histórias Uma visão mais humana da fundação de São Paulo Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 18/04/2013

O padre Manoel da Nóbrega estava nu e rodeado de índios guaianás que riam às gargalhadas de seu corpo mal cheiroso e cheio de pelos; André Ramalho, dos primeiros caboclos e filho de João Ramalho, notara que o padre não parava de se coçar desde que ele e sua pequena comitiva chegaram ao aldeamento comandado por seu pai, na entrada do planalto, na borda do campo. André deveria conduzi-los a um pequeno platô, duas léguas para o interior, conhecido pelos da terra como Inhampuambuçu (morro que se avista de longe), que, além de ponto de referência, ficava entre três águas – “Anhemby, Anhangabau e Tamanduatey” - e era bem protegido, como uma menagem, uma fortificação natural em acrópole.

- Carrapatos, padre! Carrapatos, pulgas, piolhos, muquiranas e sei lá mais o quê... Vou precisar queimar essa pelagem toda...
- Vais a me queimar, Mestre André! Por Deus!
- “Non”, padre, vou passar a tocha de fogo sem tocar seu corpo, que é prá queimar esses pelos e matar esses carrapatos..., mas vossa mercê precisará tomar vários banhos para sarar essas feridas que se abriram, tanto vossa mercê vem se coçando (e prá melhorar esse cheiro!)
- Banho? “Non”! Nunca, jamais!... Só tomei quatro banhos em minha vida e foi para cura de doenças... banho e sangria, banho e sangria, banho e sangria, banho e sanguessugas, ordens dos irmãos médicos...
- Vossa mercê e seus companheiros, padres e freis, estão carecendo de banho, de lavar essas feridas, de se livrar dos carrapatos e pulgas, será em nome da cristandade, “hay” de ser um pequeno sacrifício para atingir as portas do céu, vós que viveis pedindo que nos sacrifiquemos pelo Senhor!
- Vou pensar...
- “Non hay” que pensar; são muitos os da terra e poucos são vossas mercês, curas e, como vedes, os da terra estão se preparando para jogá-los dentro do “Tamanduatey” ou do “Anhangabau”... são um “rór” e vós sois poucos..., vale o sacrifício, padre! Tudo em louvor a Deus...
- Estou a ver que seu pai, mestre João, não vos ensinou a respeitar a santíssima igreja de Jesus e seus representantes na Terra...

As argumentações do padre Manuel da Nóbrega de nada adiantaram: profecias bíblicas, tradições europeias, frio, "banho-me com as águas que o Senhor nos agracia, com as gotas da chuva abençoada", etc., etc... A um sinal de André Ramalho, dezenas de caboclos e índios avançaram para o grupo de jesuítas e, aos gritos e às gargalhadas, os foram tangendo em direção à margem do Tamanduatey, fingindo armar seus arcos com flechas de dois metros e ponta serrilhada ou cutucando-os com tangapemas, bordunas e chuços, até que, aos gritos de desespero, todos entraram dentro d'água e foram, literalmente, derrubados, mergulhados, esfregados, lavados pelos índios e pelos primeiros paulistas:

- Ai Jesus! Que vamos todos a morrer - vamos orar irmãos para que o Senhor nos acolha no paraíso dos mártires da santíssima madre igreja... - Ave Maria, gratia plena, Dominus te cum...

Claro que ninguém morreu e nem foi levado pela correnteza para Finisterra, fosse lá onde ficasse essa tal de Finisterra, ou para os braços do Cramunhão ou ainda, para o Hades infernal de Lúcifer! Foram ajudados a sair da água e saíram, não agradecendo a Deus pelo fato de não terem morrido levados pelas águas, mas imprecando interdentes em latim, grego, espanhol, galego, catalão, português; nenhum dos padres quis confessar abertamente, mesmo entre si, mas todos sentiram uma sensação gostosa após o banho forçado, uma refeição quente de carne de capivara moqueada, mandioca e cabaças de cauim; ao término do dia, orações e todos foram para debaixo da tapera e dormiram imediatamente, bem alegrinhos, de pilequinho eclesiástico; dormiram toda uma noite sem sonhos...

Na manhã do dia seguinte, 29 de agosto de 1553, o padre Nóbrega celebrou a 1ª missa no local onde seria erguido o Colégio dos Jesuítas, marco inicial da cidade de São Paulo dos Campos de Piratininga, dando início aos projetos de cristianização do gentio e a construção de um local que pudesse abrigar àqueles que viessem do aldeamento de João Ramalho, Santo André da Borda do Campo.

25 de janeiro de 1554. O noviço ilhéu espanhol José de Anchieta, após a missa de fundação celebrada pelo padre Manoel de Paiva, em um portunhol misturado com termos bascos e castelhanos, oficializa a fixação de 130 pessoas, homens, mulheres e crianças curumins no Inhampuambuçu, em uma espécie de terreno aplainado, como um “páteo”, em frente ao Colégio; nem Nóbrega, nem Anchieta, nem Manoel de Paiva, nem Aspilcueta Navarro, nenhum dos fundadores, ninguém poderia imaginar que aquele aldeamento cercado e protegido pelos índios guaianás de Tibiriçá e Caiuby, chegaria aonde chegou mais de 500 anos depois, São Paulo das águas e dos montes, do “Tamanduatey de sete curvas, do Anhemby, do Anhangabau, do Saracuraçu, do Itororó, do Jurubatuba, da pedra gigante do Jaraguá”, lá longe, onde o mundo acaba...

O “Hermano” Joselito de Anchieta pertencia a uma família abastada de cristãos-novos bascos, que, devido à atuação do Santo Ofício na área de Castilla La Vieja, por via das dúvidas, migrou para as Canárias, razão pela qual foi enviado para estudar em Portugal, país mais condescendente com judeus e cristãos novos àquela época. Sua vinda para o Brasil, a vinda de Manoel de Nóbrega e dos outros jesuítas deveu-se a uma missão a ser cumprida, missão com conotação de evangelização, fixação de alguns degredados e postura estratégica militar, pois a Companhia de Jesus era (é?) uma espécie de “Ordem dos Templários light”.

José de Anchieta chegou ao Brasil com 19 anos de idade e deve ter sido tratado melhor, embora tenha passado pelos mesmos problemas pelos quais passaram Nóbrega e sua pequena “entourage”; Anchieta tinha uma escoliose bastante acentuada, problemas respiratórios e era um rapaz bastante fraco... Os índios e caboclos devem ter aliviado a mão... o "trote" deve ter sido mais suave.

Como esse texto baseia-se em alguns fatos históricos sobre a fundação de São Paulo, dei asas à imaginação e criei umas situações que bem poderiam ter acontecido, pois nossa cidade foi fundada não por super homens, mas por seres humanos, com fraquezas, manias, superstições, cultura e comportamentos ibéricos quinhentistas. Pensando bem, não vejo porque os acontecimentos “inventados” não devam ter acontecido, afinal de contas, São Paulo desde o começo sempre foi diferente, é uma cidade única em todo o planeta!


E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br

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Publicado em 18/04/2013 texto. Toda vez que me deparo com um texto e um autor deste seu quilate, eu imprimo para a posteridade. Erudito, culto, e muito, muito mesmo de talento inato. Parabéns! Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 18/04/2013 Joaquim, outro lado do fato histórico paulistano,com humor e realidade, creio que seja veridico, pois os europeus não tomavam banho com frequencia por isso os franceses e outros desenvolveram otimos perfumes e aqui no Brasil esse costume tem consequencia grave, como voce relatou devido ao calor e com isso a proliferação de insetos, parabéns,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 18/04/2013 Ótimo, Joaquim, Brilhante. Só lendo mais uma vez paa poder saborear melhor o seu texto. Meus parabéns e um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 18/04/2013 Continuando nosso assunto, Joaquim, eu estava, realmente nas imediações do local do futuro HC mas, esperando ser atendido pelo dr. Kiu pra minha cirurgia das cataratas que desaguaram no Tamanduateí, outrora de cristalinas águas (onde foi extraído meu cristalino); depois do banho dos padres, até hoje, cheira mal. "Scuzati lo scherzo", (desculpe a brincadeira), sua narrativa é maravilhosa, dentro e fora da virtualidade. Parabéns, Ignácio.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 18/04/2013 Sr.Souza Netto, muito divertida essa releitura "joaquiniana" dos primeiros tempos da colonização; bem que poderia ser aproveitada num caso especial de TV. Não queria comentar, não sou de divulgar as más falas, o que fiquei sabendo na barbearia do centro é que depois de 458 anos ainda tem uns "carcamanos" que só mostram a canequinha d'água ao corpo miserável aos sábados. E isso é por segurança, para não se adoentar. Uma receita da tataravó...Abraço do Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 17/04/2013 Põe imaginação nisso!!mas foi muito gostoso e interessante de ler esta sua mais ou menos acontecida narrativa do começo da nossa história
do Brasil que pensando bem acho que foram assim mesmo os acontecidos...
Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 17/04/2013 Suas colocações poderiam muito bem ter acontecido, como o sr. mesmo o diz! Suas ideias romanceadas devem ter chegado bem perto da verdade, pelo que os meus professores de História diziam...Parabéns pelo rico texto! Abraço Célia Enviado por Regina Célia de Carvalho Simonato - rccsimonato@hotmail.com
Publicado em 17/04/2013 Ignácio, quanta criatividade, meus parabéns! Com certeza foi muito tumultuado a chegada dos Jesuítas e da Família Real em terras brasileiras.Nada muito confortável...rsrs. Um abraço. Enviado por margarida peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 17/04/2013 Prezado
Joaquim

Creia-me, tua versão, elegante e divertida, ilustrando a história com estória, conduz o leitor ao século XVI com uma leveza e mexe com a imaginação, de como teria sido a fundação de nossa amada urbe.
Parabéns pelo belo trabalho
Sergio
Enviado por Sergio liblik - Sliblik@gmail.com
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