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Categoria - Outras histórias Pente de tartaruga - Um cruzeiro Autor(a): Adilson G. Alencar - Conheça esse autor
História publicada em 25/04/2013

Em 1952, tinha eu 12 anos, morava na Vila Moraes. A viagem até a Praça da Liberdade levava uma hora. Às 8h da manhã a loja de atacados do João Grande abria as portas (J. Pinto dos Reis), era na Direita, 36, 1º andar. Eu mais alguns garotos comprávamos pentes/barbatanas para colarinho para “marretar” nas ruas de maior movimento no Centro da cidade, as preferidas pelos camelôs, verdadeiros artistas na arte da explicação.

Esses artistas formavam uma firma, como diziam, time para não ter prejuízo com o “rapa”. Tinham toda uma logística: duas campanas, olhavam “os tiras” da vadiagem; caso alguém estivesse vendendo na rua era levado para um distrito e assinava o artigo 59, tinha que apresentar a carteira de trabalho assinada em 30 dias. Tinha o “h”, que era letra morta e fingia que estava examinando o produto, elogiava o produto para induzir o “loque” a comprar, o boneco segurava o estoque de mercadoria a distância, caso “desse crepe” na firma nunca a perda era total. Normalmente o boneco era o patrão, dono do capital.

Deixei por último para falar do principal componente desta súcia: o boleiro. Este era o dono do disco que criava os argumentos de vendas, exemplo, vender guarda-chuvas Ferrini italiano, 24 varetas de aço, 12 que leva, 12 que traz fechado e uma caneta. Leva no bolso aberto uma barraca, cobre o corpo todo, canetas Scarter americanas. Esta e uma minúscula parcela do maior contrabando apreendido a bordo do cargueiro Mormak, eu trago a bordo: braceletes de filigrana alta, moda grande, novidade em Paris/Londres/Buenos Aires, rico/chique/elegante...

Não existia banquinhas na rua, o trabalho tinha que ser preciso e rápido: o campana ficava a 30m de onde o boleiro estava explicando a mercadoria para ter tempo de levantar. Terminado o trabalho, vinha a parte mais difícil: “bater a venda com o apurado”. Subíamos a escada do salão de bilhar maravilhoso, era o escritório dos camelôs, grandes artistas, meus ídolos: Rubens Louco, Jair Jaja, Suspireiro, Baiano Zoiudo, Lima, Miltinho, Nicanor João da Mata, Miguel Navalha, Siri, Tião, Cariocão. Trabalhavam de terno, gravata e sapato de cromo.

Esta narração é sobre camelôs, adulto. No meu tempo de garoto vem mais, aguardem.


E-mail: adilsonkiforma@facebook.com

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Publicado em 24/04/2013 Adilson ,trabalhei na esquina da Praça da Sé em
1965,na hora do almoço,eu e um colega Carlos
andávamos pelas ruas paraleles e transversais para
olharmos as novidades dos camelôs e assistir o show que eles proporcionavam (engana touxa) era assim que meu amigo sempre dizia...eu era muito bobinha e me deslumbrava com os argumentos dados por eles,mas meu amigo já era tarimbado e não se envolvia nunca.Parabéns por este texto tão significativo dos velhos tempos dos camelôs.
Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 24/04/2013 Adilson, não sabia que era assim tão planejado, penso que o rapa aparecia de surpresa. Muito bom seu texto, um abraço. Enviado por margarida peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 24/04/2013 Muito bom Sr. Adilson. Lembro os antigos vendedores ambulantes que cativavam a clientela com a sua lábia e elegância, muito diferente dos de hoje em dia. Com certeza o senhor tem história para contar. Estamos esperando. Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
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