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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Domingo, dia sagrado para ir ao cinema Autor(a): Luigy Marks - Conheça esse autor
História publicada em 27/08/2013

Passei boa parte da minha juventude nas salas de cinemas do meu bairro, Vila Nova Conceição. Havia duas razões para isso:

Uma era reexperimentar as sensações vividas na aventura "em minha primeira sessão de cinema" ocorrida em uma praça pública. Os filmes nos reportam a viagens maravilhosas onde não pode prever ao certo qual será o destino. Cada diretor imprime em sua obra os anseios, dúvidas, certezas e aspirações que marcaram os diversos momentos de suas vidas.

Uma outra razão, muito interessante à aquela época, eram as duas horas passadas no escurinho do cinema, ao lado de uma garota. Uma coisa era ser adulto para ter intimidades com outra pessoa adulta. Mas aos jovens pré-adolescentes estar ao lado de uma garota durante 120 minutos gerava perspectivas inimagináveis.

Experimentar algum tipo de prazer e as sensações permitidas socialmente não eram difíceis para se concretizar, pois fazia parte de um rito de passagem para vida adulta. Sentar-se ao lado de uma menina em uma sala de cinema, acreditando-se que ambos tinham desejos secretos parecidos, era algo que nos fazia perder a respiração e tremer nas bases.

Conhecer uma garota dentro do cinema, entabular conversa e sair dali levando para casa a singela recordação de um beijo era algo além da imaginação. Mas isso acontecia, não raras vezes.

Como era escuro, mal dava para perceber a reação de qualquer uma das partes. Tais acontecimentos aconteciam por fases. Primeiro vinha uma enorme “cara de pau” seguida de um “converse” bem aplicado que poderia levar a permissão de pegar nas mãos graciosas da menina para poder elogiar a sua pulseira. Depois de pensar, pensar e pensar estratégias e já com as mãos úmidas e suadas de tanto se apertar, vinha o segundo passo: era hora de dar uma folga para as mãos passando para fase seguinte: colocar nosso braço descansando suavemente sobre o ombro da garota.

Após esse consentimento, era questão de minutos as cabeças querendo uma aproximação. Sutilmente a garota de olhos brilhantes repousava suas madeixas sobre o braço do garoto como um sim. Este por sua vez ia medindo e contabilizando seus passos. Chegar até ali era um misto de estratégias, avanços, retrocessos e sucesso. Tudo tinha que ser muito bem dosado para que não houvesse fracasso.

Então era a hora de relaxar um pouco e aproveitar a maravilhosa sensação de ter uma mulher em seus braços, cabeça com cabeça e poder sentir o seu perfume, poder ficar recordando mais tarde. Durante algum tempo, ficava suspirando internamente, curtindo aquela sensação com certa admiração por ter chegado até onde chegou.

Quase no meio do filme, que de preferência deveria ter alguma coisa de romântico, era a hora de oferecer um drops, doce ou chocolate. Este servia de experimentação para uma voz meiga e suave dizendo sim, eu quero (drops). O doce ou drops servia para suavizar o hálito quente e a boca seca e assim motivar a salivação.

Assim que percebia que o doce estaria no fim, estrategicamente levava um drops a sua boca já com a pergunta engatilhada: Você quer mais um? Seguramente ela responderia que sim.

Gentilmente ele oferecia o doce já preso nos lábios. Quase sempre. Pois era uma gentileza com certeza desejada no íntimo. Atenta ao filme, ela virava levemente a cabeça com os olhos fixos na tela oferecendo seus lábios rosados a espera de um drops. Mais que ligeiro ofertava carinhosamente o quitute com todo seu amor.

Um mistura de surpresa e desejo terminava em um beijo molhado entre ambos. Era um beijo demorado, talvez pela incerteza ou não de acontecer novamente... Os colegas da turma, também dentro do cinema, comemoravam como se fosse um gol na copa do mundo.

Talvez nos pensamentos da graciosa menina, de não ver a hora de contar para suas amigas aquele beijo. E na cabeça dele acontecia uma viagem de ida e volta como se fosse uma montanha russa. Era bem provável que se mantivessem com as cabecinhas coladas até o encerramento filme, pois o beijo representava que o céu é o limite.

Eram justamente esses acontecimentos que nos levava a dizer que: domingo era dia sagrado de ir ao cinema. E cinema era um lugar onde tudo poderia acontecer.

Na década de 60, morava no bairro de Vila Nova Conceição, na Avenida Santo Amaro, onde éramos bem servidos no quesito de cinemas. Em seu trecho inicial dessa avenida, havia cinco salas de exibições:

O Cine Graúna - 1960 (depois virou Chaplin), Cine Guarujá (Excelsior), Cine Bruni Vila Nova - 1966 (Cinelândia II), Cine Vila Rica - 1963 (Del Rey) e Cine Radar. E bem perto dali, na Rua Joaquim Floriano, tínhamos o Cine Iguatemi. No Brooklin, havia ainda o Cine Meninópolis. Entrando na adolescência, não perdia uma só matinê. Com tal variedade de salas, dava até para escolher.

Nessa época, os meninos andavam à caça nas matinês, especificamente para arrumar alguma namorada. Tentar fazia parte do jogo. Os resultados nem sempre eram satisfatórios.

E-mail: luigymarks@uol.com.br
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Publicado em 28/08/2013

Enaltecimento da melhor época de nossa juventude, Luigy, vc foi muito feliz em detalhar as emoções de uma nova garota conquistada. Que bela época de sonhos e fantasia, onde a conquista era um prêmio merecido, quando tudo dava certo, evidentemente. Belo trabalho, Luigy, parabéns pela sua narrativa.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 27/08/2013

Luigy, quantas doces lembrancas dos namoricos no cinema, do primeiro beijo, as vezes um carinho mais avancado! cada nova conquista era comemorada, parabens pelo texto.

Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
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