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Categoria - Outras histórias De como vestir um defunto, ser ameaçado de linchamento e quase perder o emprego Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 28/08/2013

Manhã fria e garoenta em São Paulo, não lembro datas, dia do mês, nada! Mas creio que foi em 1978 ou 79 que se passaram os fatos que de vez em quando vêm atazanar meu sossego de aposentado “caraminholando” minhas lembranças... Tem ocasiões que eu rio dos acontecidos, mas não é sempre...

Íamos, eu e meu colega Fernando, começar a desembrulhar o “pacote” que estava nos esperando no primeiro terço do túnel do HC; a maca com o corpo estava a uns 20 ou 30 metros da grande porta de madeira que dava para a Radiologia...

Às 6h40 “de la matina”, começo da passagem de plantão na Neurologia. Desço do elevador no 5º andar, vindo do vestiário. Noto que as colegas que trabalharam à noite, quando me veem, sorriem e dão um suspiro de alívio, um grande “ainda bem” ou um “graças a Deus”. "Aí tem coisa", pensei... E tinha!

- Seu Joaquim, tem um “pacote” no túnel, logo na entrada, que precisa ser vestido e levado para o pessoal da faculdade; evoluiu para óbito logo no começo da madrugada...

- Desculpe, enfermeira, mas porque os colegas do plantão da noite não levaram o corpo? Não tiveram tempo?

- Até que tiveram, mas no meio do caminho chegou um pedido do Palácio dos Bandeirantes... Parece que o falecido tinha qualquer coisa a ver com algum figurão. Vai para um velório de bacana não sei onde e o caixão vai sair da faculdade. Trazer o corpo de volta? Esquece!

- Naquela mala - apontou - estão as roupas para vestir o cadáver...

- Já vi tudo... Posso levar alguém comigo? Sozinho eu não vou conseguir.

- Leva o Fernando... Vocês não estão sempre juntos?

O Fernando era um colega bem mais novo que eu, com seus 20 e poucos anos. De formação era técnico agrícola, mas como não conseguia emprego em Getulina, sua cidade natal, veio para São Paulo, onde prestou alguns concursos públicos e terminou por entrar no HC como atendente; totalmente jejuno em enfermagem, aproveitou muitíssimo bem o mês de treinamento - cuidados básicos com o paciente acamado e dependente, banho de leito, abordagem e alimentação do paciente, condução do paciente em maca ou cadeira de rodas, auxílio na deambulação, um rápido curso para exercer a função de pau para toda obra dentro de um hospital...

- Vamos logo que tem um defunto esperando a gente no túnel...

- Dá um tempo Juca, acho que vou tomar um café e fumar um cigarro e depois a gente vai...

- “Num” dá, Fernando... Vamos acabar logo esse “parangolé” se não vai atrasar tudo, tem os banhos, troca de lençóis, o café dos pacientes, relatórios... depois você fuma!

Nos anos 60 e 70 (não sei como está a situação hoje) o túnel que liga o HC à Faculdade na Dr. Arnaldo tinha sua entrada na Radiologia, no 3º andar; uma grande porta de madeira, padrão bem antigo, solene, era a boca da caverna de horrores.

- Pegou as chaves do túnel?

- Peguei... A “enfermeirona-chefe” disse que as meninas que trabalharam à noite não teriam força para preparar o corpo e...

- “Tá bom, tá bom, tá legal”... É muito “blábláblá”... No duro, no duro, a verdade é que sobrou para a gente... E, pelo que eu estou vendo, ainda vamos precisar higienizar o corpo... Mão de obra demais.

Começamos a expor o corpo que estava envolto em dois lençóis:

- “Vamos na manha”, não sei se fizeram um tamponamento decente... Pianinho, pianinho... devagar, devagar... “xi”, o defunto já empedrou... Vai complicar para vestir a roupa... Vamos dar uma lavadinha nele e ver “cumé” que fica esse negócio de terno, gravata, meias, sapatos...

- Vai vestir a cueca nele?

- Se tiver cueca para vestir, a gente veste, “uai”!...

Afastamos os lençóis e expusemos o rosto:

- “Ih”! Fernandão, não fecharam os olhos do morto; ele está com as butucas esbugalhadas...

- “Deixa eu ver”...

- Não olha nos olhos do morto, não deixa ele te encarar... Melhor ir por trás da cabeça e fechar as pálpebras... Vai precisar fazer uma forcinha e prender com “micropore”...

- “Tá”! Mas porque não posso olhar os olhos do defunto?

- Superstição, coisas da Enfermagem... Encarar os mortos que estejam com os olhos abertos dá azar... Faz você perder a coragem; amarrar as pontas dos lençóis para “segurar” vivos os terminais; não pronunciar certas palavras na presença de pacientes; começar os banhos de leito pelos rostos, “sacumé”, “né”? Você não precisa acreditar, mas é bom não abusar nem achar graça nesses procedimentos, vai que...!

- Bobagem, Juca!

- Ah é? Então faz um olho no olho com o falecido...

- Eu não...

- Não falei?

Passada a parte mais fácil dos procedimentos, tratou-se então de vestir o defunto. Sabíamos do complicador que teríamos com o “rigor mortis” estabelecido; felizmente, existe uma técnica para vestir a parte superior de um corpo em uma situação igual àquela que se apresentava; essa técnica - ou truque - é executada com certa facilidade por pessoas com um mínimo de experiência; no entanto, da cintura para baixo é que a porca torce o rabo; normalmente é difícil vestir um corpo em estado de rigidez total e, para complicar tudo, estávamos em um subsolo, em um túnel estreito, escuro, frio, sombrio, lúgubre, sem lenço, sem documentos e com um cadáver de uns 90 kg, seminu ou semivestido, tanto faz como tanto fez!

Por não conseguirmos manipular o corpo sobre a maca bastante instável, foi preciso colocar o cadáver em pé para poder vestir a cueca e a calça em seu corpo endurecido; o Fernando, com a mão em seu peito, segurava-o encostado a uma parede enquanto eu, agachado, tentava terminar de vesti-lo...

Aconteceu, então, abrirem-se as portas do inferno... Ou, dizendo melhor, algum alguém conseguiu abrir a porta da Radiologia e, como todo mundo está cansado de saber, a curiosidade matou o rato etc. etc.; de repente, umas 15 pessoas começaram a caminhar túnel adentro, conversando, fazendo piadas e rindo até darem de cara com a cena absurda formada por dois homens e um cadáver! Gritos, espanto, caminho de volta aos berros e na correria, burburinho, choro, comentários em todos os níveis, vozes, altercações, chamem os seguranças!

Voei até a porta escancarada e a fechei com força; dei duas voltas da chave na fechadura e fiz uma checagem com a maçaneta; a porta se abriu, fechadura quebrada. Fora assim que os falsos “espeleólogos” curiosos conseguiram entrar no túnel... as chaves só estavam funcionando pelo lado de fora...

Terminamos rapidamente nossa tarefa e saímos de volta para o ambulatório da Radiologia onde, evidentemente, não fomos recebidos com aplausos. Quase podíamos sentir aqueles dedos, quase físicos, nos apontando: "são aqueles lá!". E aquele elevador que não chegava... "vão acabar linchando a gente"!

Voltamos para a clínica, prontos para encarar uma demissão por justa causa, na melhor das hipóteses. Ao entrarmos no corredor da Neuro vimos que o rolo estava armado; a própria diretora de Enfermagem do HC, a nossa chefe e as enfermeiras encarregadas estavam nos esperando, algumas delas com um sorriso de vírgula e um esgar sádico na face... "É hoje que o couro come", pensei; as mãos do Fernando tremiam...

No entanto, tudo acabou bem; conseguimos explicar os problemas da fechadura, das pessoas que, por curiosidade, abriram a porta e entraram no túnel, o vestir o defunto em pé...

- É, “seu” Joaquim, vocês deveriam ter checado se a porta estava fechada, realmente...

- Falha nossa, enfermeira, reconheço... Mas, se a Manutenção tinha conhecimento do problema, podiam pelo menos ter colocado uma tramela na porta...

- Tramela? Faz-me rir...

Um comentário final: hoje em dia um acontecimento desse “naipe” seria inadmissível; funcionários não pertencentes ao corpo de Enfermagem são treinados para executar técnicas de preparação de óbitos e as próprias funerárias tem pessoal em suas dependências para vestir e maquiar os mortos sob seus cuidados... Não podemos esquecer que o que foi narrado aconteceu 40 ou quase 50 anos passados... Eram outros tempos e outros procedimentos...

E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br
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Publicado em 29/08/2013

Senhor Ignácio, suas histórias são sempre interessante, e esta me fez lembrar o causo contado pelo Rolando Boldrin, em que uma viúva não queria liberar o corpo do marido para o velório, porque ela não conseguia ajustar a peruca na cabeça do defunto.

Como morto deitado (óbvio), se a peruca fosse colocada na posição correta, ia escorregando aos poucos e até cair no fundo do caixão. E para ficar bem apoiada, teria que encobrir metade da testa do defunto, o que o deixava irreconhecível.

As filhas insistiam para que o pai você fosse enterrado mesmo sem peruca, mas a mãe não concordava, porque o marido, em vida, sempre usou peruca, e não seria depois de morto que ia mostrar sua careca em público.

Vendo aquela discussão, o rapaz da funerária se ofereceu para resolver o problema enquanto arrumava as flores no caixão. Em menos de dez minutos ele havia terminado o trabalho e chamou a mulher e as filhas para conferirem. A peruca estava perfeita. Bem assentada e bem penteada. Elas ficaram tão agradecidas que ofereceram uma boa gratificação ao rapaz:

- Não, obrigado. Mas não posso aceitar. Gastei só dois minutinhos a mais do meu tempo.

A viúva insistia:

- Se o senhor não quer cobrar trabalho, pelo menos me deixe pagar o material que o senhor usou.

- Isso é bobagem, minha senhora. Eu não vou cobrar a senhora por quatro ou cinco preguinhos...

Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
Publicado em 29/08/2013

Joaquim, esse tipo de história que você conta , leio somente a luz do sol, rsrs, são boas mas aterrorizante, estou aprendendo muito sobre o que voce conta com maestria, parabéns,Estan.

Enviado por Estan - estantec@gmail.com
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