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Categoria - Outras histórias Pagando mico de Papai Noel no Teatro Paulo Eiro Autor(a): Luigy Marks - Conheça esse autor
História publicada em 03/09/2013

Em 1958, meu pai resolveu mudar de ares, saímos então do Horto Florestal, na zona Norte, e fomos para o Jardim Paulista, na zona Sul. Aos seis anos, minha mãe quis transferir sua frustração musical me colocando para estudar piano no Horto, sem perguntar se era minha vontade. Mas, na época, criança não discutia.

Ao vir para a zona Sul, fui colocado em um outro conservatório musical, cuja dona era uma espanhola, dona Conceição. Como já tinha formação musical anterior, logo me deram uma música, Le Lac de Come, para ensaiar. Duas vezes por semana, durante seis meses, era o tempo que levava para decorar aquela música. Havia momentos que eu tocava de olhos fechados e ficava viajando e pensando em qualquer coisa, menos na música. Na época tinha oito anos.

Após tanto ensaio, achava que já estava pronto para passar para outra música. Mas a professora não pensava assim. Ela já tinha suas programações. Todo final de ano, a escola fazia apresentações. Informaram-nos que haveria duas, uma seria em um orfanato de crianças que ficava na Rua Quatá, na Vila Olímpia, e uma apresentação pública, de Natal, no Teatro Paulo Eiró, em Santo Amaro. Doze alunos foram escalados para essa apresentação. Eu seria o terceiro a entrar.

Esta última tinha um lado social que deveria envolver todos, que nós alunos desconhecíamos. Dezenas de crianças de um orfanato local estariam entre os presentes. Todos ganhariam lembrancinhas e guloseimas além do evento musical. Os familiares dos alunos também estariam presentes. Não via a hora de passar tudo isso e me livrar dessa apresentação. Gostaria de ter sido um dos últimos para ter tempo e ganhar mais coragem. Mas fui colocado estrategicamente na lista para ser o terceiro.

Logo que chamaram o primeiro, uma tremedeira tomou conta de mim. As mãos começaram a suar e o coração a palpitar bem forte. Lutava internamente entre as possibilidades de esquecerem meu nome ou que me chamassem o mais rápido possível para acabar logo com aquilo. Afinal, chegou minha hora.

Ao ouvir o meu nome, sai da coxia e entrei no palco. Havia muita gente na plateia e ouvi ao longe palmas... Ao olhar para a plateia, percebi logo de cara a figura do meu primo que fazia caretas e micagens. O restante da plateia parecia ter sumido, somente a cara dele aparecia. Ele estudava harmônica (sanfona), mas tinha sido escalado para o evento. O cara fazia tudo para tirar a minha concentração e me azucrinar.

O piano ficava a esquerda do palco. Tive que atravessá-lo para chegar até ele. Ao me sentar na banqueta continuava vendo sua cara na plateia a me gozar.

Eu tinha que começar. E comecei, fiz tudo direitinho e toquei a música toda sem errar... E o primo na plateia gesticulava e falava o tempo todo coisas que eu não conseguia distinguir. Fechei a música e logo vieram os aplausos de praxe. Estava atordoado com aquilo tudo que não me dei conta de um erro que cometi... Suas gozações me tiraram do sério e me levaram a iniciar a música em uma oitava acima... E não me dei conta disso. Talvez o público também... Acabei levando um puxão de orelha da “profa” Espanhola.

Assim que sai de cena, fui levado a um camarim e rapidamente fui introduzido dentro de uma fantasia de Papai Noel. A professora e minha mãe me colocaram dentro de uma fantasia toda vermelha. Em seguida, vestiram umas botas pretas e por fim me colocaram uma máscara com barba branca.

Sentia-me tremendamente ridículo e tinha dificuldade de enxergar por trás daquela máscara. A roupa, as botas e a máscara eram de números maiores que meu manequim, fazendo com que eu dançasse lá dentro. A instrução passada rapidamente era para receber cada aluno que fosse anunciado para tocar. E ao final de cada apresentação, daria a cada um um presentinho, que eu não ganhei...

Ao aparecer no palco vestido de Papai Noel, fui rapidamente desmascarado pelo meu primo, que gritava bem alto meu nome dando risadas e pulando como um macaco. Para mim um grande vexame!

Depois do final das apresentações, tive que ir a plateia distribuir as lembrancinhas para as crianças do orfanato. Eu era uma criança tentando parecer um mito. Sofri muito em fazer aquele papel. Hoje, consigo ver aquele pequeno gesto como algo positivo em relação ao próximo. Talvez o meu papel tenha levado algum conforto para aquelas crianças e o meu desconforto não tenha sido em vão.

E-mail: luigymarks@uol.com.br
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Publicado em 04/09/2013

Luiz, no seu papel de Papai Noel com certeza foi o ponto mais alto de sua apresentacao pois levou alegria para as criancas, parabens pelo seu texto.

Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
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