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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Nasce um bairro, histórias, vidas... Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 03/09/2013

Lembranças, entre muitas, de tempos idos e vividos, remetem aos jogos de futebol na várzea, naqueles domingos de manhã, às feiras livres, aos almoços um pouco mais caprichados, todo mundo em casa, do bate-papo em frente às casas, das subidas e descidas do arruamento precário dos loteamentos nos anos 40 e 50, o sol a pino, a alegria de ser proprietário de um quarto e cozinha:

- “...prá começá tá bom; dipois a gente vai aumentando...”

Lembranças dos balcões feitos com caixotes e tábuas, montados nas duas laterais do campo de futebol de terra batida, onde eram vendidos bolinhos de batata recheados de carne moída e um molho de pimenta que provocava lágrimas de sofrimento nos “gourmands” mais corajosos, rabo de galo, pinga do 'O´' com groselha, tubaínas, cerveja “quente”, Antarctica Faixa Azul, ainda não existiam os “coolers” ou as caixas de isopor para conservar gelo, portanto beber cerveja? Bebia-se mais por força do hábito:

- “Arre! Que essa cerveja tá quente, tá parecendo Limonada Purgativa...”

- “Intão num bebe, pô!”

- "Fazê o que, né?... eu vô bebê de quarqué jeito, já paguei ela... Ô meu! bota essas garrafa dibaixo das arve que lá num bate sór..."

- "...para de recramá... Come mais um crocrete prá forrar o estômo, dipois cê paga..."

Os preparativos e as estratégias para os jogos dos domingos ou outra atividade qualquer começavam sempre na quinta-feira durante reunião informal no boteco que servia de sede, sempre em uma esquina de uma rua sem calçamento do bairro distante do centro da cidade, uma daquelas famosas Vilas ou Jardins, que de vilas e jardins não tinham nada, eram mais aglomerados de pequenas residências semiconstruídas de alvenaria, com seus “puxadinhos”, cisternas, banheiros nos pequenos quintais, vasos sanitários feitos de tijolos, os tais bairros ocres ou cinzas, de casas sem revestimento ou pintura, sem iluminação nas ruas, paraíso dos “gatos” na eletricidade...

Os jornais da cidade, naqueles anos, em seus classificados anunciavam a venda de terrenos e 3 mil tijolos ou 2 mil blocos, a preços populares, em lugares distantes, Parques, Vilas, Jardins: Parque Pierucci, Vila Nova Cachoeirinha, Jardim das Rosas, tudo longe, longe, longe, fim de mundo! Mas o que fazer? Sempre foi preciso sair do pagamento do aluguel e aquela era a chance de construir e ter a casa própria; então, mãos à obra! Toda a família ajudando, mutirão com os vizinhos, mudança em uma semana:

- "tem de fazer sór, pelo amor de Deus"

Cobertura, chão de terra batida, perfuração do poço, sarilho, lampiões:

- “... não tem força e a gente fica olhando pro rádio... A gente dorme cedo e acorda de madrugada prá poder ir prá trampa... Mas vale o sacrifício... Diversão? Só sábado e domingo que tem a feira e o futebór. Igreja? Ainda não tem não senhor, mas a gente reza sem padre, Deus tá só na campana, tá de olho ni nóis!”

- “Domingo o jogo é contra quem? Marcão, foi 'ocê' que marcou, né?”

- “É contra o Palmeirinha da Vila Jacó; é um pessoal da firma em qu'eu trampo. Tudo gente fina, da melhor qualidade...”

- "E os cara é bom? Tem intimidade cá bola?"

- "Ansim, ansim"... dá prá ganhar dos cara, fácir, fácir...”

- “Óia que tá valendo taça!”

Essas reuniões de planejamento, de início, eram realizadas à luz de fifós ou lampiões, logo no início da ocupação do loteamento, tempos heróicos foram aqueles; com a chegada da eletricidade as coisas começaram a melhorar, podia-se ficar até um pouco mais tarde no bar “batendo uma caixa”, os pequenos empórios e quitandas começavam a ter geladeiras e outros equipamentos, deixaram de cortar na faca a mortadela e o salame para “tira-gosto” e já começavam a usar “fatiadores à manivela” ou elétricos:

- "...pogréssio, pogréssio, nóis sempre escuitô falá... (a voz do samba...). “

- “Gêra, vai na venda e compra 300 grama de mortandela; pede prá cortá bem fininho qu'eu vô fazê uma melete pro armoço; avisa que é prá cortar na máquina!”

Das reuniões do time de futebol para a fundação de uma Sociedade de Amigos do bairro, foi um pulo. Em pouco tempo o bairro estava mobilizado em busca de melhorias, iluminação pública, policiamento, transporte público, calçamento, água encanada, esgoto:

- “...a comadre Zefa tem poço na casa dela lá na Vila Formosa... Eu num tenho coragem de beber água quando vou lá; a água cheira defunto morto... Ela mora do lado do cemitério... Eu num confio...”

Com o passar dos anos algumas lideranças, boas e más, foram surgindo e se fixando e começaram a brotar divergências quanto às posições políticas, havia muitos conflitos de interesses, muito egocentrismo, muitas fotos com políticos do tipo papagaio de pirata em bares e sedes de associações, todas de cabos eleitorais:

- "...faz um projetinho, explica bem o que vocês tão querendo qu'eu vou levar pro vereador... êle é meu truta!"

E, dessa maneira, o bairro foi crescendo, evoluindo, mais por inércia do que por atuação de representantes no Legislativo ou na Prefeitura e suas infindáveis promessas e relações de compadrio com políticos e administradores...

50, 60 anos passados desde que o primeiro morador do bairro cravou a picareta em seu chão para abrir alicerces; velhinhos jogam dominó em uma pracinha arborizada de frente para a igreja:

- “O Marcão foi o último a ir prá Vila Formosa... Agora só sobrou a gente prá contar história...”

- “...e não vai demorar muito a gente vai também... Eu nem fui no enterro que meus netos num deixaram... Coração fraco, sacumé... E a minha velhinha tá enterrada lá também, eu num ía aguentar...”

- “Éééé Mario! Viver muito enche o saco... Só tem a gente agora, não dá nem prá bater um dominó com gosto, não tem mais campo de várzea, a televisão tá uma porcaria, o rádio tá uma... Sorte teve o Marcão que subiu antes de nós... Ele deve estar marcando algum jogo com os times lá de cima... Ele era bom nisso, lembra?”

A conversa entre os dois amigos, vez ou outra é interrompida pelo barulho de britadeiras, abrindo trincheiras no asfalto, buzinas de carros, ônibus e trólebus, som altíssimo em caixas de som de automóveis, “deseducação”, ruídos!

- “Tão falando que o metrô vai chegar aqui...”

- “...vai chegar, mas não vai ser prá nós... Chega mas custa... Quem diria, heim? A gente precisava andar mais de meia hora de baixo de chuva, pisando na lama, prá tomar um pau de arara até a Concórdia... Esse pessoal de hoje não sabe de nada...”

As pessoas passam e comentam:

- "O que será que aqueles velhos falam?... Deve ser papo idiota de velho babão...”

- “É... Velho só fala bobagem... Não têm o que falar, falam bobagem...”

E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br
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Publicado em 07/09/2013

Nossa, como se assemelham as histórias das vilas, parques ou jardins dos bairros distantes de São Paulo. Casas construídas com sacrifício, poços com sarilhos, lampiões e a diversão única nos campos de futebol. (ainda continua sendo o único lazer da periferia!!!) Até coincide com a chegada do metrô, ele também está chegando nos arrabaldes de Santo Amaro, no Jardim São Luiz. Parabéns.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 05/09/2013

Joaquim, curti demais essa leitura. Fascinante. Mas não tem essa de velho babão não. Tem história de luta, paixão, raça e busca de vida mais digna. Meus parabéns, Adorei Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 04/09/2013

Joaquim, boas lembrancas que nem mesmo o progresso pode apagar, parabens pelo texto.

Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 04/09/2013

Lindo Joaquim esse retrato literário de como nasceram a maioria dos bairros na periferia de nossa cidade, vi muitos deles nascerem desse mesmo jeitinho que você nos contou, parabéns e que bom poder voltar a ler suas gostosas e saudosas narrativas sou teu fã.

Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
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