Leia as Histórias

Categoria - Paisagens e lugares Os imigrantes e as “fazendas” na represa de Guarapiranga Autor(a): Carlos Fatorelli - Conheça esse autor
História publicada em 06/11/2013

“Ladino” é um apelido que representa relacionamento com algo próximo da esperteza com o comércio, a capacidade de barganhar qualquer coisa, nome usual ao homem de boa sorte aprendida dos árabes quando assumiram a Península Ibérica em 711 da Era Cristã.

Na pequena aldeia da Ilha dos Açores, em Portugal, vivia uma família tipicamente rural, que mantinham as tradições. O patriarca, senhor José Couto, morava em residência de grossas paredes dos tempos imperiais, vivia do sustento da terra, das vinhas, terreno plantado de videiras a enveredar pelas serras. Deste lugar retirava-se todo o sustento, das coisas que advém do local e também o meio de subsistência, maior que a "Providência" oferecia.

A vida difícil da Europa do pós-guerra, fê-lo decidir-se em imigrar para o Brasil e juntando todas as economias com a venda das terras formou-se pequena “renda”, não muita, guardada na “algibeira” para acertar sua vinda onde o aguardava seu primo Francisco Souza, que lhe forneceu a carta de recomendação às autoridades e que já havia aqui se estabelecido, tocando uma pequena “mercearia de secos e molhados” com o sobrinho Fausto Couto, na confluência da Avenida Santo Amaro com Brigadeiro Luís Antonio. Do lado mais ao sul, havia adquirido uma gleba de seis alqueires nas margens da Represa de Guarapiranga. A família tinha o tino comercial e outro Couto, Francisco, abriu um bar na subida da Alameda Santo Amaro, ao lado da sapataria do Toninho Engraxate, um bricalhão benquisto por todo santamarense e que morava em uma data (um lote de terreno) nas imediações da Penhinha.

Enviada a carta de chamada pelos idos de 1951 e se desfazendo das terras por poucos escudos, moeda corrente de então, “male male” cobria as despesas de viagem, toda a família partia no “vapore” para o Brasil. Os “paquetes” eram divididos em classes 1ª; 2ª e 3ª que tinham cabines conforme sua categoria e uma última reservada a imigrantes fixados nos porões mal iluminados que vinham superlotados para o Brasil e também outras localidades da América do Sul.

Como consequência desta aventura, a família encontrou o lugar para reiniciar a vida. Começava assim uma luta incessante pela subsistência, comum a maioria dos imigrantes aqui chegados, que para recuperar-se, “encaixava-se” a trabalhar incessantemente em qualquer serviço disponível, pois a realidade era totalmente diferente.

O mar, a aldeia, a casa ficaram para trás, mas pareciam eternizadas na paisagem natural local, parecendo fazer parte do universo tardio das vilas onde foram cercadas, por séculos, pelos mesmos processos produtivos passados por gerações, sem se interessar pela modernidade, um tempo parado, atemporal. Transformar este modelo fixo, de uma cultura tradicional, desenraizando costumes, não se conseguia com facilidade da noite para o dia no Brasil; os costumes eram outros. Pelo mar deixava-se para trás o velho continente e a família dos Pacheco formada pelo patriarca José Luciano do Couto, seguido de mulher Maria Alice Pacheco, sentia os ares da nova vida que se poderia ofertar aos filhos, Victor Manuel, o primogênito grande artista e fabricante de luminosos; José Francisco, Nuno Augusto e das Irmãs Marias: Helena, Eduarda e Fátima.

Tudo o que acontecia ao redor fazia parte de um todo e unidos precisavam ajudar-se mutuamente ligados a toda ação conjunta tinham o seu lugar determinado como indivíduo na família, fazendo parte do meio físico. Cultivavam nas terras do primo às margens da Represa de Guarapiranga, usavam a experiência dos Açores, das terras “nunca dantes cultivadas” tiravam milho, feijão, batatas e alguma leguminosa, todos viviam deste modo, de um trabalho relacionado ao esforço de todos.

Tudo parecia rude e tosco, mas não assustava o tratamento brusco, próprio daquele estado local peculiar, conformidade ao estilo de vida em Santo Amaro caipira, que possuía ares interioranos e mostrava a beleza refletida na paisagem. Algumas nêsperas, ameixas amareladas por vezes selvagens e azedas; ou um pé de caqui que fornecia o “convescote” de alguns encontros regados a almudes de vinho de uma serra brasileira ainda buscando o aroma e adaptação, sendo ainda aprimorado ao ambiente local recordava a “vinha” europeia, uma árvore mantenedora das tradições locais, pois uma videira pode passar nas mãos de muitas gerações e sempre estará dando frutos, reunindo-se para a poda e o esmagar dos lagares. A terra cortada com o “bico de pato” fincava na terra jogando a “marola” ora à direita ora à esquerda, e a charrua antiga sugava ao fundo a terra removida.

Bem no costado da Represa de Guarapiranga, após o Clube Atlético Indiano, próximo ao Parque, estes seis alqueires da família Couto fazia vizinhança com a Fazenda Vera Caravellas, onde haviam criadores de animais de leite acompanhados por tratadores das ordenhas de vacas holandesas, por Cyro Mascarenhas de Campos que abastecia o laticínio e produzia leite “classe A”. Quanto aos animais de montaria eram cuidados pelo seu irmão, adestrador de cavalos, no início de 1950, Felisbino Mascarenhas de Campos. O único acesso para o local era descer no “ponto final”, o extremo da linha do bonde do Largo do Socorro que vinha da Praça da Sé, caminhar até as margens da barragem na Avenida de Pinedo com João (Ribeiro) de Barros onde permanecia à espera um barqueiro que fazia o transporte cotidianamente dos trabalhadores. A Fazenda Caravellas era um modelo de administração e mantinha a escola primária de crianças orientada pela professora Nicéia de Paula Assis, evitando que as crianças precisassem se locomover para o lado oposto da Represa. Os animais se abasteciam com as águas límpidas da Represa de Guarapiranga, e também mitigava a sede humana! Com o tempo foi feito loteamento da área e a fazenda perdeu seu apogeu e deixou de existir e a água límpida da Represa de Guarapiranga, que ficou imprópria para consumo.

A mata era tão fechada que todos andavam com uma “caçoleta”, espingarda rústica que acendia por meio de uma pederneira faiscando o pavio, usado de lado para qualquer eventualidade; errando o tiro, tratasse de correr pois de caçador virava caça de algum animal selvagem, que também foi aos poucos rareando.

Os Pacheco queriam ganhar sua independência e se estabilizar na nova terra; na mesma época Santo Amaro era um “burburinho” de indústrias dos mais variados seguimentos em seu vasto território de mais de 640 quilômetros quadrados cobiçado pelo urbanismo que no instante oportuno apoderar-se-ia de sua grande estrutura de produção. Deste modo vendo que havia campo de trabalho enorme na região, resolveram, em 1954, mudar-se para Chácara Santo Antonio, na Rua Julio Ribeiro, atual Alexandre Dumas, onde os filhos encaixaram-se no ramo industrial e no seleto sistema bancário, outros na estrutura comercial, muito forte também na região. Pagavam aluguel e a família resolveu buscar outro espaço para evitar o custo transpondo o Rio Pinheiros, compraram um terreno da Companhia Paulistana de Terrenos e em 1956 se mudaram para o bairro de operários do Jardim São Luiz.

As Romarias ao Bom Jesus de Pirapora faziam nosso amigo Pacheco recordar-se da sua meninice da Ilha dos Açores agora distante; quando as cantorias ao Divino Espírito Santo ecoavam durante um mês inteiro, sendo o mesmo coroado, passando de casa em casa até ser solenemente transportado para a Matriz. Tudo isto era completado com grande festa de violeiros regada a vinho e carnes de animais abatidos somando a refeição broas que se deixavam a cozer.

Mas os desastres são inerentes e seu irmão Victor, grande artista que desenhava com grande precisão com letras das teclas de uma máquina de escrever obras de autores famosos, imagens belíssimas, por exemplo, a Santa Ceia, foi ceifado em um desastre juntamente com seu cunhado Dourival, na antiga Avenida São Luiz, atual Avenida Maria Coelho Aguiar, no Bairro Jardim São Luiz. Não cabia mais a vida pacata do lugar e o progresso vinha rápido a trazer o infortúnio.

Sair desta condição faz parte do novo modelo de vida, parece difícil, mas não para o patriarca, que precisa viver e para isso estava disposto a ser “vendedor de tremoços” para ajudar, dependurava ao braço um cesto de vime, tampado com um pano alvo, com a medida certa recolhida por uma caneca que fornecia um volume certo, “nem mais nem menos”. Por vezes, por falta de mercadoria trocava-a por amendoim salgado, que era mais próximo do paladar brasileiro, contrário aos patrícios que apreciavam os “benditos tremoços”.

Não possui “medos” que lhe afastasse do trabalho, tendo ao lado, vigilante, a patroa ajuizando a todos em sua condição de matriarca, controlando os impulsos da juventude dos filhos que ela se orgulhava em dirigir bem sua “casita”.

“De lá para cá não vem mais os braços fortes de outrora meu amigo”, dizia em sinal de profecia! Os tempos são outros e as máquinas motrizes se sobressaem ao homem do campo sulcando a terra ao seu limite de esgotamento, outrora das pareias atreladas a sangrar a terra para produzir, descansando de tempos em tempos.

Ponderemos uma semelhança com crescimento atual imobiliário da cidade de São Paulo onde a expansão demanda prédios de alto luxo edificados em áreas nobres espoliando aqueles que tinham direito a estas áreas pela permanência de longevidade. São Paulo é um vasto canteiro de obras de alto padrão, nunca fizeram edificações descentes para a classe operária, proliferando aglomerados humanos nos morros e mananciais em favelas.

Como um lamento declama a trova em tom de saudade:

“Seu bisavô fora guardador de gado,

Guardador de gado seu avô, seu pai;

Criou filhos e netos como foi criado,

E morreu ditoso porque o seu cajado

Seu rebanho ainda pastorando vai!”

(Não me pergunte de quem a trova é, porque eu cá nem sei!)

E-mail: cafatorelli@gmail.com
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 08/11/2013

Relato de mais uma familia lusitana que povoa nossa região e como a maioria veio para fazer a America e o caso do Sr. Pacheco retrata essa saga, ao qual conheço, bela e justa homenagem a um homem simples do bairro, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estantec@gmail.com
« Anterior 1 Próxima »