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Categoria - Outras histórias 365 dias depois... 31 de dezembro de 1968 Autor(a): Luigy Marks - Conheça esse autor
História publicada em 12/09/2013

1968 - 31 de dezembro de 1968

365 dias depois, da virada de 1968, estávamos novamente subindo a Augusta, desta vez para comemorar a chegada do ano de 1969.

Desta vez em sentido contrário da passagem anterior, nossos primeiros passos se iniciaram no antigo prédio do Estadão. Passava das 19h. Ali seria o ponto de encontro rumo ao "Festival Lesma Azul.

Devidamente paramentado com "roupa de briga'' acompanhada de barraca e mochila, partíamos da Rua Xavier de Toledo em direção a Augusta como destino ao Parque do Ibirapuera.

Na época, as Rádios Difusora e Excelsior haviam divulgado exaustivamente notícia sobre a realização de um festival de música, no estilo de Woodstok, que levaria o nome de "Lesma Azul” que contaria com a presença dos Mutantes, Tom Zé e diversas outras bandas.

Devidamente acionados, todos os "bichos grilos", estavam a postos, esperando passar três dias acampados no "Ibira" para curtir um “som” e esperando usufruir do "Make Love not war". Todo mundo em uma "Nice". Uma imensidão de cabeludos veio para a cidade de São Paulo para curtir aquilo que poderia ser um dos maiores festival depois de Woodstok, talvez o fato mais marcante na área musical, no Brasil.

A expectativa era enorme. Notícias aqui e ali ajudavam a movimentar a ansiedade. Com dois dias de antecedência começamos a nos preparar para concretizar nossa presença no Festival Lesma Azul. A abertura seria em uma sexta-feira pela manhã e encerrando no domingo à noite.

Devidamente paramentado com calça jeans, saímos em uma quinta-feira à noite, às 18h em frente do "Mappin". Uma procissão de jovens cabeludos carregando suas mochilas e barracas seguiam em procissão animada.

Na Augusta passamos pelo Estadão, com o trânsito ainda em alta. Caminhávamos pelas calçadas cada um com seus pertences. Seguíamos em procissão, mas cada um na sua sem que tivéssemos conhecimento de quem eram os que seguiam a frente ou os que estavam na retaguarda.

Um amigo, Gil, que tocava nos Snacks, banda do bairro Vila Nova Conceição era o meu parceiro. Seguíamos bem animados com a perspectiva de participarmos de evento de tal magnitude e nosso objetivo era curtir um som e a vida. Alienação típica que jogavam para cima dos chamados "hippies"

Em marcha, cruzamos a Praça Roosevelt. Neste momento passa um carro veloz e alguém dentro dele grita:

- “Viva a liberdade e abaixo a ditadura.”

Outros carros seguiram gritando também. Todos que estavam na rua olharam tal manifestação sem interesse.

Estávamos fechando o ano de 1968... Estávamos em um dos mais difíceis e duros anos com relação à política da nação brasileira. E um grito nesse estilo, soava como algo bem provocativo.

Seguimos em frente. Ao cruzar a Rua Caio Prado, alguém traz a notícia que o regime havia cancelado o festival. Aquela notícia foi espalhando como fogo no capim. Aquilo caiu como um balde de água fria.

Novas notícias chegavam que o Exército havia cancelado tudo, para evitar aglomerações e para evitar pessoas que fizessem apologia a maconha e coisas do tipo. Pronto. Toda nossa expectativa de curtição tinha ido para o espaço. A frustração era total, deixando a todos sem rumo.

Conversas aqui e ali e nada. Um grupo resolveu que continuaria em marcha rumo ao "Ibira', para o que desse e viesse. Um outro grupo sugeriu seguirmos rumo a Iporanga, então um paraíso hippie próximo a Bertioga. Achei essa opção mais atraente.

Fizemos meia volta para se juntar ao grupo de umas 30 pessoas que pretendia seguir para a Iporanga de trem. Ao cruzamos novamente a Rua Caio Prado, notamos a passagem de quatro peruas de C1416 da PM em alta velocidade com sirenes ligadas. Todo mundo tentava entender o que estava acontecendo.

Duas das peruas acabaram retornando em sentido contrário, fechando o cruzamento da Caio Prado e as outras duas fecharam todo o quarteirão. Olhávamos abismados com aquelas manobras e sem entender o que acontecia.

Eles haviam fechado o quarteirão todo para prender alguém... O grupo aguardava curioso para ver quem seria as pessoas que seriam presas. De repente os guardas avançam em direção ao nosso grupo. Aí foi um tal de corre para cá corre para lá. Foi um Deus nos acuda.

Percebendo a dificuldade para correr com a barraca que era pesada, acabei por jogá-la no quintal de uma casa para poder correr. Que nada. Fomos todos cercados e sendo forçados a entrar no chiqueirinho.

Sem saber direito o porquê, éramos jogados na traseira da C1416 que saiam em alta velocidade pelas ruas com sirene ligadas. Em cada chiqueirinho eram jogadas umas 10 pessoas, em um total de 20 pessoas presas.

As peruas avançavam em alta velocidade em direção desconhecida. Não tínhamos a menor noção do que ocorria e nem para onde estavam nos levando.

Fomos levados a um prédio da polícia sem a menor noção de onde estávamos. Os carros entraram rapidamente por um portão alto que se fechou rapidamente. Estávamos dentro de algum tipo de quartel ou pátio de um edifício desconhecido. Ao fundo um apito de trem avisava que estava de partida...

Com "toda delicadeza" nos colocaram para fora dos veículos e nos empurravam em direção a diversas portas de madeira. Fomos passando por corredores e salas até encontrar uma escada que levaria ao andar superior.

Subimos diversos degraus e caminhamos até uma sala onde recebemos ordem para sentarmos todos no chão. Mais tarde descobrimos que ali passaríamos à noite. Esta sala ficava no primeiro andar. Ali éramos inicialmente interrogados sobre o nível da escolaridade de cada um. O que cada um fazia. Se trabalhava...

Aqueles que cursavam ginásio e colegial iam para uma sala. Os que faziam cursinho ou faculdade tinha outro destino. Ao todo eram 18 estudantes ginasial/colegial e apenas dois eram universitários. Estes últimos foram levados para as celas.

O grupo dos 18 permaneceu na sala sobre a guarda de um homem com quase dois metros de altura e um cão pastor até o dia raiar. Pela manhã cada um era chamado para ouvir um discurso sobre civismo e disciplina. Em momento algum fomos informados sobre o motivo de nossa detenção e por que estávamos ali.

A cada meia hora éramos chamados por ordem alfabética e liberados. Ao ser chamado fui informado que seria colocado em um ônibus de volta para casa do bairro onde morava com recomendação para descer somente no ponto final.

Fui levado para a rua aos empurrões. Um soldado me levou até o ônibus que fazia ponto final ali dando recomendação ao motorista para me liberar somente no ponto final. Ao sair percebi que estava nas proximidades da antiga Estação Rodoviária Julio Prestes. Ao olhar para traz percebi que estivera preso no prédio do DEOPS, aquele de tijolinho aparente.

Embarcado a força no ônibus devidamente abraçado a minha mochila, cheguei em casa em menos de 1h. 3h depois estava de volta à Rua Augusta para tentar reaver minha barraca que havia jogado no quintal de uma casa. Nunca mais tive notícias dela. Mas nem por isso deixei de passar por ali. Esta foi a passagem de ano mais triste de que me lembro.

E-mail: luigymarks@uol.com.br
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Publicado em 16/09/2013

Luigy, eu me lembro desse festival que foi cancelado sem explicacao, resultado de um momento politico da epoca, parabens pelo texto.

Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 16/09/2013

Luigy, que aventura! Eu nessa data estrava em casa da minha sogra, nessa mesma Rua Augusta, no número, 1172, ao lado de minha exposa barriguda esperando o presente que nos seria entregue em 18 de Março, nossa primeira filha, de nome Renata! Como se nota, cada um com sua aventura.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 13/09/2013

Luigy, está claro que era de se esperar. Imagine que naquele tempo, depois das 22hs, três pessoas juntas andando na rua, já era considerado suspeito, pense então um monte de jovens...ainda tem gente que acha que era bom. Deus me livre.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcos.lour@yahoo.com.br
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