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Categoria - São Paulo do século XXI Duelo na Terceira Idade Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 16/09/2013
Existem hoje poucos clínicos gerais, não é mesmo? Nada como o velho médico da família, que tudo via, ouvia e sabia, em outras gerações.
 
Geralmente o novo doutor examina só a parte do corpo em que se especializou. Se é otorrino, só olha do pescoço para cima, como se o paciente tivesse sido guilhotinado, e o resto não existisse. A pessoa pode estar com tuberculose, pneumonia, que sequer é auscultada. E pode até morrer, que ele terá feito o julgou ser seu dever na profissão, o bolso cheio e a alma limpa.
 
Felizmente, nem todos médicos são assim, ainda. Existem uns poucos abnegados, que procuram ver e tratar o paciente como um todo. São verdadeiros heróis. Vou falar de um destes, no qual o heroísmo excedeu, como verão, em muito suas reais funções.
 
Faz muito tempo que o conheço. Uma tarde de 1977, senti-me com febre e dor de garganta, no trabalho. Fui para casa, e a temperatura estava na marca dos 38 graus, o que deixa qualquer adulto delirante. Liguei então para meu tio Sebastião, que me indicou um seu ex- aluno de educação física no Mackenzie.
 
Foi assim que conheci o Dr. Stanley. Clínico geral. Tratou-me e o problema  - que era das amígdalas, cedeu.
 
No decorrer dos anos, recorremos, eu e toda a família, várias vezes a ele. Mesmo não sendo do meu convênio - aliás, de convênio nenhum - sempre foi nosso último recurso, em situações muito difíceis.
 
Recentemente, minha filha Carolina, após ter pneumonia e, apesar de tratada, continuar com febre e tosse resolveu ir ao bom Stanley. Ele diagnosticou bronquite, a qual não havia sido notada por outros médicos. Mas, ela voltou do consultório com um relato espantoso.
 
Dr. Stanley tinha ido ver um filme no Market Place, shopping entre o Brooklin e o Morumbi. Creio que ele seja um cinéfilo, mas não sei se fã de bang bang. Nem sei o que iria assistir... Pois mal poderia imaginar que a violência se abateria sobre ele, mesmo não sendo coadjuvante do filme.
 
Estava na fila da terceira idade, quando surgiu um rapagão que arrogantemente furou a fila, postando-se à frente do primeiro idoso (Stanley era o segundo). Diante dos protestos do pessoal, o “valentão” vociferou: 
- “Calem a boca, seus velhos. Eu vou entrar primeiro, e se alguém não gostar, meto a mão!”
 
O Dr. Stanley então interveio, tentando discutir com o salafrário - ou seria melhor dizer biltre?, que retrucou:
- “Não se meta, velho!”  - e deu-lhe uma cotovelada no estômago.
 
O Doutor, com seus 74 anos, reuniu forças e lembranças de quando chegara a treinar boxe e derrubou o canalha com um tremendo murro na cara.
 
Este ainda se levantou, chutou o médico, mas foi acertado novamente e caiu outra vez, então foi finalmente agarrado por populares e arrastado para fora pelo segurança, com uma chave de braço, uivando alucinado.
 
Cena de pugilato mais propícia a “Duelo no OK Corral”, “Os Brutos Também Amam” ou apenas mesmo a um sórdido boteco na periferia, nunca imaginável em um cinema do sofisticado Market Place.
 
Então, parabéns novamente ao bravo Dr. Stanley, que mais uma vez protegeu e salvou pessoas, desta feita em uma operação mais que radical.
 
74 anos. E velho, uma ova!
E-mail: lssaidenberg@gmail.com
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Publicado em 19/09/2013

Pois e , esse e o velho que não sente vergonha de ser velho . E o tipo da hora que gostaria de ter sido testemunha ocular. Parabens Saidenberg pelo texto , e que bom que estamos de volta . Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 18/09/2013

Luiz, que bom reencontrá-lo nesse espaço. Sabe,tenho um conhecido médico que sempre diz que os profissionais de hoje enxergam os pacientes assim: cardiologista vê um enorme coração entrando em seu consultódio; ortopedista vê um esqueleto. Pois é, de uns tempos pra cá, nem gosto de entrar em consultório de ginecologista, sabe Deus como ele me enxerga! rsrsrs

Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - marciascalixto@hotmail.com
Publicado em 17/09/2013

Gostei da historia, mesmo contrariando meus princípios de não violência Ativa baseada em Mahatma Gandhi. O Dr.Stanley esta de parabéns e com contrato assinado para o MMA MASTER. ( RISOS)

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 16/09/2013

Luiz, hoje em dia ate nos ambientes mais sofisticados a gente encontra cafajestes e elementos desprovidos do mais comezinho principio de civilidade e respeito, sinal dos tempos, parabens pelo relato.

Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 16/09/2013

Luiz, adorei esse relato,l lembrou-me dos tempos em que eu também não levava desaforo para casa. Hoje, porém, com a violência rondando pelas esquinas, devemos ser mais precavidos. Nunca se sabe o que poder[á vir do antagonista.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 16/09/2013

Que ótimo, Luiz. Sábio o dr. Stanley, em todos os aspectos. Embora eu odeie todas as formas de violência, tem hora que é muito necessária a força, um "acorda, mané" que deverá valer para a vida toda. Meus parabéns e para ele, parabéns em dobro. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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