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Categoria - Outras histórias No Peg-pag Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 05/11/2013

Aos sábados íamos ao Peg-pag. Com o nosso insuperável fusca, porque as compras seriam para a semana. Saíamos do nosso apartamento, na Rua Dom Duarte Leopoldo e, triunfantes, chegaríamos ao Largo do Cambuci, onde, décadas passadas, corria um riozinho simpático na sua total calmaria e inocência e o mesmo não imaginava que, um dia, seria tragado pelo desenvolvimento desvairado da pauliceia. Hora da compra do frango para o almoço de domingo, o macarrão, queijo ralado Teixeira, um tablete de doces de leite Confiança, a lata do óleo de soja, arroz, feijão, o Pão Pullman para se colocar as fatias na torradeira, os pacotes de bolachas Cream Craker e a erva doce para as dores de estômago do meu pai.

Eu ficava muito alegre com as compras, sentindo um gosto de prosperidade com a ideia de fartura, pois o mercadinho do seu Altino, vizinho nosso, era o atalho para algum esquecimento da compra dos sábados. De vez em quando, alguma Tubaína gelada vinha do empório do seu Altino ou mesmo um doce de abóbora de coração. O meu irmão gostava da bananada em forma de triângulo espetada em um palito.

Nos anos 60 o supermercado ainda era novidade em São Paulo. Melhor dizendo, uma novidade para o mundo.

Os supermercados nasceram nos Estados Unidos, logo após a crise econômica de 1929, com um objetivo claro: vender barato, sobretudo em uma época de desemprego coletivo. Assim, sua expansão pelo mundo foi rápida e o primeiro supermercado do Brasil surgiu em São Paulo, em 1953.

Foi dentro do Peg-pag do Largo do Cambuci que passei por uma situação de medo – foi o primeiro assalto que presenciei. Com uns 12 anos, a minha prima e eu fomos comprar um pacotinho de balas 7 Belo. Hora do almoço, tudo vazio e por ali circulava um homem com um pacote de algodão e, não sei explicar, me chamou a atenção. Não deu outra: em poucos minutos, a operadora de caixa gritava apavorada, de olhos esbugalhados e com as mãos tensas no rosto porque o mesmo lhe apontava um revólver enquanto limpava a gaveta e armazenava o dinheiro dentro do próprio saco do supermercado.

Minha prima e eu largamos as balas e corremos para o fim da loja até aguardarmos o desfecho. Voltamos para casa tremendo e só voltamos lá para pegar as nossas balas no fim da tarde.

Mas a novidade desse tipo de comércio era tamanha que, quando os parentes de Minas chegaram para uma visita de uns dias, convidamos para esse passeio espetacular. A minha tia vibrou com a novidade, a cara de progresso, a maravilha de poder pagar a conta tudo de uma só vez. Ficamos imaginando o entusiasmo, a riqueza dos detalhes, da oferta dos alimentos, tudo a ser contado pela tia ao voltar para as suas Alterosas. As vizinhas, as comadres, as irmãs e sobrinhas iriam ouvir o relato e também se maravilhar com as notícias de uma frenética São Paulo.

Anos mais tarde, levamos a tia para conhecer o Shopping Eldorado. Com todo aquele jogo de luzes e cores, lojas inimagináveis para ela, roupas da moda, cinemas, escalas rolantes, agências bancárias, cafés, sorveterias e lanchonetes para todos os gostos... Certamente, com aquele deslumbramento óbvio, teve assunto para o mês inteiro quando ela voltou para casa.

E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 14/11/2013

Vera

Tenho certeza que vc.nunca esquece São Paulo e sempre com detalhes enriquecedor,nunca imaginei e voltar a ouvir falar sôbre a bananada no palito(há anos não ouvia fala em bananada,o q. é uma delicia).

Bjs.

Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio25@gmail.com
Publicado em 07/11/2013

Vera, não sei o ano que aconteceu o assalto, mas isso mostra o que sempre digo,infelizmente violência sempre existiu, se hoje é maior é porque existe mais gente.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcos.lour@yahoo.com.br
Publicado em 06/11/2013

Estudava num livro de inglês que falava sobre “lojas de departamentos” onde havia de tudo, na época de estudante nós não entendíamos direito como seriam esses departamentos, (coisa insipiente no Mappin/SP) que dizia ser coisa comum na América do Norte. Com o tempo apareceriam os grandes supermercados e os shoppings no Brasil, que seriam divididos em setores, ou seja, os benditos departamentos que foram abarcando os pequenos comércios das vilas e bairros até incorporar no costume do brasileiro dos centros urbanos. Parabéns pela crônica.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 06/11/2013

Oi, querida Vera, vc tem a magia de transportar seus leitores pra lugares e tempos idos, como se vc tivesse uma ampulheta nas mãos e resolvesse sacudi-la e retornar no tempo, segundo sua vontade. Pelo menos, senti isso. Na década DE 1950, eu namorava a Myrtes que morava na Clímaco Barbosa, extensão do Largo do Cambuci. O Peg-Pag foi instalado nas dependências do antigo cine Cambuci. Era assim mesmo, conforme vc descreve, uma festa a gente ir ao supermercado comprar e sentir o clima de prosperidade num processo de varejo nunca antes experimentado. Ainda mais, eu que sempre lidei com produtos alimentícios, via um progresso inusitado.

Não bastasse essas recordações, sua narrativa enobrece todo o conteúdo do texto, abrindo o álbum de recordações nas paginas daqueles dias. É bem provável que nos encontramos nas compras, fiquei conhecendo vc, uma garota muito bonita. Parabéns, querida Moratta.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 06/11/2013

Cara Vera, eu conheci o Peg-Pag no Largo do Cambucí, na década de 60 porque, na época, minha noiva, depois minha esposa, morava na Rua Luiz Gama e a família dela costumava, também, fazer às compras nessa simpática loja. Acho que ele foi o primeiro Super Mercado de São Paulo. Hoje lá é o Pão de Açúcar. Vera, seus textos são muito bem escritos. Abraço Grassi

Enviado por Roberto Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 05/11/2013

Vera, você fez-me lembrar do Empório que meu pai tinha. Com o advento dos supermercados ele fechou. Um grande abraço !

Enviado por Asciudeme Joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 05/11/2013

Vera, lembro bem do Peg-pag tinha uma fama e tanto, mas o mercado que frequentava quando casei era o Paes Mendonça, próximo a Penha. Hoje temos uma variedade de supermercados, só aqui na minha redondeza tenho cinco deles, bastante poções para comprar. Esse progresso é de maravilhar qualquer um, imagino a sua tia no Eldorado. Adorei o texto,um grande abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 05/11/2013

Boas recordações, lembro-me do Peg-Pag do Itaim Bibi, nas esquinas da Joaquim Floriano com Av. São Gabriel ou Praça Dom Gastão Liberal Pinto, mas também chamou me a atenção a compra do óleo de soja, pensei que esse tipo de óleo veio só depois dos anos 80, pois em casa só tinha óleo de amendoim e algodão naquelas latas retangulares, parabéns pelo texto saudoso, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estantec@gmail.com
Publicado em 05/11/2013

Vera,hoje em dia esses assaltos são tão comuns que não assusta mais ninguém, não é mesmo? Como esse tempo era bom, os assaltos não eram diários.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 05/11/2013

Imagino o susto das crianças.

Naquele tempo devia ser coisa rara, mas hoje,

é só ligar a tv que presenciamos uma porção deles.

Infelismente.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
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