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Categoria - Outras histórias O misterioso aniversário no Cambuci Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 30/09/2013

Uma pessoa original é aquela que os outros gostam, querem perto, chamam para o churrasco, convidam para festas. Os parentes, amigos, vizinhos olham por ele. Sobretudo depois de ter, forçosamente, que morar sozinho após o passamento dos pais. Rapaz adorável, de bom humor, de coração profundamente humano, muito correto e digno, sempre disposto para o trabalho, mas, digamos, levemente distraído. E lá foi ele para o aniversário da prima, ou melhor, quem sabe, do neto da prima ou de qualquer outra pessoa, no Cambuci. Não importa. Foi convidado e, de carro, saiu da Vila Sônia e foi com o irmão da prima, que supostamente faria aniversário, ou o marido dela, ou o neto, sei lá. Só sei que alguém faria aniversário naquele domingo de outono.

Ah! Essa Modernidade Líquida! Só mesmo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman para explicar a liquefação nos relacionamentos pessoais! Pois é, a solidez das instituições sociais, como a família, foram gradativamente perdendo espaço desde as grandes transformações dos anos 60. De acordo com a metáfora de Bauman, essas relações, antes firmes e inabaláveis, estão se desfazendo, transformando-se em um estado líquido. E não tem jeito, é irreversível. O individualismo evidente no mundo contemporâneo e o desapego social ainda assustam, dá medo junto de uma enorme insegurança, as raízes ficam abaladas, fazendo os saudosistas ruminarem o passado com olhos marejados, dizendo: "no meu tempo era tão bom".

Mas lá foi o meu cunhado - queridíssimo - para a casa da prima. Toca o meu celular. Era ele e eu percebi com clareza o burburinho da festa de família. Sim, ainda existem algumas famílias que se reúnem.

- Tudo bem, William? Onde você está?

- Estou na casa da prima, aqui o Cambuci.

- Que bom! Manda um abraço “prá” todos. É aniversário dela?

-Não. Quer dizer, não sei. Acho que é do neto dela, filho da filha que mora em Londrina.

-“Peraí”, você não sabe de quem é o aniversário?

- É. Acho que é aniversário. Nós viemos logo “pro” almoço e estamos até agora aqui.

- Então você não sabe se é aniversário?

- Não sei. Quer dizer, acho que é.

- William, vamos por partes: Tem bolo?

- Tem.

- Como é esse bolo? Tem cobertura, recheio ou é um bolo simples, seco, “prá” acompanhar o café da tarde?

- Tem cobertura sim.

Pensativa, eu comecei a cismar: são alguns indícios de aniversário. Resolvi permanecer investigando mesmo a longa distância.

- Outra pergunta: as pessoas, em uma determinada hora, ficaram ao lado do bolo e, sorridentes e batendo palmas, cantaram parabéns a você?

- Cantaram.

Bem, a minha dúvida começou a se esclarecer. Tudo levava a crer que, naquela casa do meu saudoso bairro operário do Cambuci havia uma festa de aniversário. Mas ainda restavam algumas dúvidas.

- Muito bem, William. Depois que cantaram, qual o nome que as pessoas falaram no final?

- No final?

- É. Bem no finalzinho.

- Não sei. Eu estava lá fora.

Muito bem. A dúvida ainda dilacerava o meu coração. Era momento de eu acenar com outras possibilidades.

- Tinha vela sobre o bolo?

- Tinha.

- Qual o número que a vela exibia?

- Não. A vela não acendeu. Tiveram que improvisar.

A dúvida sempre foi um martírio para mim. Dúvida é sempre atroz, corrosiva.

Continuei arriscando:

- Quem ganhou presentes, William?

- Não sei. Eu não vi.

- Não viu nem um pedacinho do papel? Se era com estampa de bichinho, ursinho, bola ou era com estampa de flores, sacolinha do Boticário, da Natura, essas coisas...

- Não vi.

- Mas William, não pode ser aniversário do filho da Aline.

- Deve ser sim.

- Como é o nome do menino, William?

- Ah, agora eu não sei.

- Só podia ser corintiano mesmo. William, o nome do menino é Henrique e ele faz aniversário em agosto. Como que iam fazer a festa “pra” ele em abril?

-"Vixe". Agora você me pegou.

- Como que você está em uma festa e não sabe de quem é o aniversário, William?

- Ah, me convidaram e eu vim.

- “Tá” bom, William. Por essa você merece um prêmio.

- Você não tem as datas aí?

- Não, William, não tenho as datas de todo mundo.

O jeito foi procurar no Facebook do meu filho no dia seguinte para ver algum comentário e enviar o meu abraço com os 700 km de lonjura onde me encontro, porque, se fosse depender da exatidão das informações, eu estaria ferrada.

E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 08/10/2013

Esse william realmente era muito distraído.

Mas com certeza aproveitou a festa e bem.

Enviado por Bene - dosanjos1950@gmail.com
Publicado em 04/10/2013

Oi Vera, prazer encontrá-la! Sabe, hoje os entendimentos são mesmo líquidos, como diz você. Ninguém esclarece nada, informa corretamente nada, fica tudo na suposição, no achismo, no "vamos ver no que dá" e por aí vai. Vivemos na era do acaso, do "deixa a tecnologia me levar". Mas o bom e´que tudo tem dois lados, e o lado engraçado disso ficou resumido na sua história. Um grande abraço.

Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - marciascalixto@hotmail.com
Publicado em 02/10/2013

Gente, descobri: o aniversário era da prima mesmo e não do neto dela. Confesso que foi difícil. Abraços a todos.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 01/10/2013

Vera. Afinal de quem era o aniversário, diga logo pelo amor de Deus. ótima historia, e parabéns mesmo não sendo seu aniversário. rsrsr.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 01/10/2013

Vera, o importante é atender ao convite mesmo não sabendo o nome do aniversariante, quanto a familia você tem razão, parabens pelo seu texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 01/10/2013

Vera é um prazer reencontra-la nesta nova reformulação do site. Como sempre, com um brilhantismo que lhe é peculiar, você trás mais um texto muito saboroso de ler. Parabéns! Abraço Grassi

Enviado por Roberto Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 01/10/2013

Vera, morri de rir da tua estória. A moçada muitas vezes fazem isso mesmo e aí ficamos sem rumo. Até eu fiquei curiosa, conseguiu descobrir de quem era a festa? Adorei o texto, um beijo grande.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 01/10/2013

Vera muito interessante esta cronica , mas não sei porque acredito que ja tinha lido a mesma a algum tempo atras escrita por voce com certeza. Nào pode ser que eu tenha sonhado . Estou ate parecendo o teu cunhado , pois fui dar uma repassada em todas as tuas 150 cronicas , pois poderia ter sido escrita outra vez , por algum engano do site, mas não encontro uma resposta. De qualquer maneira parabens pelo texto muito bom . Mas que cunhado desligado que voce tem hein? rs rs rs Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 30/09/2013

Vera querida, o diálogo mantido com o William traz recordações, a mim, de pessoas com o mesmo perfil do Wil.

Dentro da sua narrativa vc menciona Bauman que resume o futuro da sociedade, como a conhecemos, destinada a desaparecer, liquidificando-se, gradativamente. Tenho esse receio há muito tempo, parecendo que vamos nos tornar um oásis, dentro de uma sociedade tremendamente imediatista, materialista e violentamente individualista. Vera, será que vamos ter uma transformação, pro lado bom, nessa nossa vida? Eu, infelizmente, não tenho essa esperança.

Vera, estou com saudades de seus comentários, foi publicado em data atrasada, um texto meu, "O falso progresso", em 19\9.

Apreciei seu relato e, como sempre, bem redigido. Parabéns.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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