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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Altares de Santo Amaro e o Museu de Arte Sacra de São Paulo Autor(a): Carlos Fatorelli - Conheça esse autor
História publicada em 09/10/2013

No hodierno os vínculos da história de Santo Amaro com a sua origem caipira vão, aos poucos, perdendo suas características. A linha cinco do metrô amplia-se pela região sul de São Paulo, expandindo-se para a Chácara Klabin, transformando toda a região. A Matriz de Santo Amaro, marco símbolo, tornou-se diocese desmembrada, há 20 anos, da Arquidiocese de São Paulo, está em recuperação em suas pinturas sacras e na alvenaria e reboco.

Logicamente a amplitude de estudos de uma parte da historiografia adormecida atingiu trabalhos de outros pesquisadores anteriores que registraram retábulos expostos no Museu de Arte Sacra e representados na arte de Miguelzinho Dutra, além da imagem de Cristo crucificado em marfim e algumas peças religiosas em prata, como os ostensórios, auréola, e as imagens sacras, inclusive de São Bento, expostos na Sala Santo Amaro, no Museu de Artes Sacras de São Paulo.

Ao Mosteiro da Luz dos Campos do Guaré, em 1603, foi trazida a imagem de Nossa Senhora da Luz, às margens do Rio Anhembi nos Campos do Guaré, hoje bairro da Luz.

Em 1918, D. Duarte Leopoldo e Silva, para perpetuar e conservar o acervo, reuniu objetos sacros pelo interior de várias paróquias de São Paulo pela sua freguesia e enviou peças sacras ao extinto Museu de Arte Sacra da Cúria Metropolitana, permanecendo no local até 1970.

Este acervo foi sendo formado e ampliado com peças dos séculos 17 e 18, muitas até do interior do Brasil, sendo considerado um dos mais completos museus do país no gênero, compondo de aproximadamente 1500 unidades, ampliado ainda com doações particulares e de aquisições de provimentos do Conselho Estadual de Cultura.

O Museu de Arte Sacra foi celebrado entre o Governo do Estado e a Mitra Diocesana de São Paulo, pelo Decreto de 28 de outubro de 1969, onde foi criado o Museu de Arte Sacra de São Paulo, onde se acolheu o acervo no Mosteiro da Luz (dos Campos do Guaré).

Coube ao Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Agnelo Rossi, a empreitada do assentamento de caráter permanente, pois o acervo era apresentado em exposições itinerantes desde os tempos de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta.

A reforma da Matriz de Santo Amaro

A antiga Matriz de Santo Amaro, erigida em 1686, aparece em desenho de Miguelzinho Dutra, feito na década de 1940 representada com a torre do campanário separada do corpo da igreja, comum no primeiro período colonial.

“Dois documentos reveladores: Quanto ao processo de “destruição” e reconstrução por que passa(va) a igreja, vemos que em agosto de 1903 é aprovada por unanimidade a proposta de reforma de Alfredo Formigoni. Encontramos, de 1911, um inventário pormenorizado elaborado pelo pároco da igreja, datado de julho, ocasião em que arrola imagens da Paróquia, colocando em primeiro lugar aquela da devoção da cidade, Santo Amaro, entre outras, como a de São Benedito e São Bento, a penúltima mencionada por Mário de Andrade e a última registrada na foto enviada ao IPHAN em 1937.

O curioso é que ao realizar este inventário da igreja há referência direta a “Três altares colados e dois no depósito, sendo os dois da Matriz Velha. 30 de quatro palmas, sendo 26 de diversas côres e oito pequenas”. Que significará a palavra “colados”? De todos os modos já poderíamos deduzir, através deste recenseamento, que provavelmente os “dois da Matriz Velha” são os que, ora restaurados, nos ocupam nestas reflexões, já se achando em depósito em 1911, e, portanto, não mais no recinto da igreja.

Fato é que o mistério dos dois altares de Santo Amaro talvez tenha sido desvendado ao encontrarmos, no Arquivo da Cúria o “Provimento de Visita” de D. Duarte Leopoldo e Silva, à Paróquia de Santo Amaro em 1909. Nele, depois de introdução à sua visitação, o arcebispo, de maneira contundente e crítica, se refere ao estado da igreja e seus altares e devoções, narrando em seu item cinco que: “ O altar-mor, todo de estuque ou de tijolos (...), sem estilo, sem arte e sem gosto, exige reforma completa. Será mais conveniente substituí-lo pelo primitivo, todo de talha, que ainda se encontra em todas as suas peças, bem que desarmado...” (Documento enviado ao Arcebispo, 22/04/1910.)”

Altares ou “retábulos peregrinos”

Outro detalhe importante, recolher imagens e fazer a relação das duas cidades, São Paulo e Santo Amaro, que após 1935 passou a integrar o território da Metrópole paulista, são as obras expostas no Museu de Arte Sacra, onde se destacam os dois retábulos de Santo Amaro que embora mantenham semelhanças são originalmente distintos nas talhas, havendo nisso citação de Germain Bazin das obras reunidas pelo arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva:

“A matriz, reconstruída, de Santo Amaro, nos mostra hoje dois altares laterais do estilo João V, fitomorfo, sem uso de rocaille. Mas são apenas fragmentos, mal remontados; um deles foi dotado de um ornamento rococó enquadrando a tribuna, que deve proceder de outro altar; quanto ao outro, foi remontado ao contrário das volutas que coroam os piedroits.”

No catálogo do Museu de Arte Sacra de São Paulo há a citação do retábulo da igreja de Santo Amaro em ficha de tombo número 1282, página 203, com foto em preto e branco na página 253, que no catálogo foi revelada com negativo invertido, descreve:

“Colunas e arcadas de altar, madeira policromada, século XVIII, com as dimensões de 2880 mm de altura por 2230 mm de largura. Trabalho completo de talha barroca, com desenhos esculpidos de anjos, querubins, galos, pelicanos, conchóides, folhagens e flores, além de capitéis esculpidos nas colunas e arcos emoldurados. As peças estão repintadas e o ouro recoberto com tintas de várias cores e purpurina, mas apresentam riquíssimo trabalho de escultura em madeira, com requintados detalhes. Acompanham essas talhas duas mesas de altar, da mesma época, com pintura marmorizada. Procedentes da Matriz de Santo Amaro.”

“Os dois retábulos da matriz de Santo Amaro são encimados por arcos com volutas e folhas de acanto, de inspiração floral e vegetal, com cornija e friso ainda trabalhado com ornatos em estilo maneirista, mesmo sendo eles altares existentes por volta de 1732 (AMARAL, 2005, p.22-27). Quando vistos por Germain Bazin na década de 50, certamente por meio de fotografias de Germano Graeser, ficou ele atento às remontagens que sofrera. Agora restaurados e expostos no Museu de Arte Sacra de São Paulo pode-se notar a beleza simbólica pelas flores e no colorido que nos foi devolvido pelo trabalho precioso do restaurador Julio Moraes.” (Tirapeli, Retábulos Paulistas, Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano)

“Os altares da Matriz de Santo Amaro: Sabe-se que havia em Santo Amaro em inícios do século XX, três altares “velhos” ou antigos: o da Capela Nossa Senhora do Rosário, com tabernáculo, o altar de Nossa Senhora do Bom Conselho, e outro “de igual formato” e que “está desarmado”; além de haver um “grande e majestoso altar-mor de madeira” desarmado (e que já fora igualmente mencionado por D. Duarte no relatório de sua visita).

Estas obras que um dia pertenceram a Matriz de Santo Amaro podem ser visitadas no Museu de Arte Sacra de São Paulo localizado à Avenida Tiradentes, 676, no bairro da Luz, Metrô Tiradentes, São Paulo, Capital.

Em pleno século 21 a Matriz-Catedral de Santo Amaro, tenta a todo custo reaver seu esplendor perdido ao longo do tempo, com reformas desastrosas ocorrida por falta de competência de pessoas curiosas e aventureiras no campo específico de restauro e que a partir deste momento recebe aporte digno de sua grandeza abraçada por lei de cultura que lhe dará toda grandeza merecida e revitalizando um marco importante para Santo Amaro paulistano.

E-mail: cafatorelli@gmail.com
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Publicado em 20/12/2013

Realmente você é um grande historiador.

Parabéns.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 19/10/2013

Caro Carlos,as escolas públicas de São Paulo e do Brasil deveriam fazer passeios com mais frequência aos lugares berços de São Paulo,Brasil,aliás deveriam aprender qual a localização do bairro onde moram,até com trabalhos escolares,uma forma mais didatica de aprendizagem,o texto que vc. escreveu é um exemplo do que poderiam fazer. Há escolas que levam crianças ao Museu Paulista e as professoras ficam dormindo nos onibus,crianças que ainda não tem entendimento.

Belo texto amigo.

Um abraço.

Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio25@gmail.com
Publicado em 14/10/2013

Carlos, o prazer da leitura dos seus textos é inenarrável. Um historiador de mão cheia sabe despertar interesse, curiosidade, ânsia de novos saberes e uma alegria incontida na leitura. Parabéns, meu amigo. Meus sinceros parabéns mesmo e sempre. Repasso os seus relatos para amigos que amam a cidade e desejam conhecer mais. Receba o meu abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 12/10/2013

A primeira vez e unica que entrei nesse museu histórico foi 1976, quando fazia o curso da Poli na Estação da Luz, Bom Retiro, um amigo de curso me convidou a entrar na folga da aula, entrei ,vi e gostei e testemunhei obras rarissimas,na época não sabia que muitas faziam parte do acervo da igreja de Santo Amaro parabésn, Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - estantec@gmail.com
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