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Categoria - Personagens O "crucificado" do Tatuapé – I parte Autor(a): Modesto Laruccia - Conheça esse autor
História publicada em 01/11/2013

Como sempre, refazendo meus “compromissos”, resolvi, naqueles dias de férias escolares, nos anos 1940, ir à casa de meu tio “tziciccilo” ou, tio Francisco, (tradução do polignanês, de Bari, sul da Itália) que morava no Tatuapé, na Rua Soriano de Souza. Esse meu tio era sócio de meu pai, Bartholomeu, no armazém da Rua Santa Rosa. Para tanto, ia da Rua da Alfândega, 197, paralela a Santa Rosa, tendo entre as duas ruas a Rua do Lucas, cortadas perpendicularmente pela antiga Álvares de Azevedo, hoje Rua Polignano a Maré, portanto uns 300 a 400 metros, se tanto, até o armazém. 

 
Corria pela Polignano na beira da calçada, sobre a guia, olhando para o chão, no canto formado pela rua e a guia, imaginando as formigas, minúsculos seres, ou a água da chuva recente, escoando, que, na minha imaginação, era de um rio e uma cidade, vistos de uma altura que só o Super Homem, eu, voando com super velocidade, poderia ver com minha visão de raio-X. Essa imaginação infantil sofria interrupção quando, chegando na Sta. Rosa, os caminhões e carroças estacionados impediam a expansão do imaginário de um garoto de oito ou nove anos.
 
Chegando ao armazém, pedi a meu pai se podia ir com meu tio para sua casa, no Tatuapé. 
 
Não faltava o japonês, pasteleiro, com um balaio de aço inoxidável, bem limpinho, vendendo pastéis de carne e queijo a 200 a unidade (preço de uma passagem de bonde). Meu pai, como sempre, concordou em me comprar um pastel de carne e me dá uns trocados; pediu para eu falar com meu tio. Meu tio não se opôs, disse que nós iríamos de bonde, que passava na Rua Cantareira, em frente ao Mercado Municipal. Bonde que vinha do Centro, passava pela Cantareira, entrava na São Caetano, Monsenhor de Andrade, Rua Oriente, Rubino de Oliveira e Celso Garcia. Iria para a pequena temporada, uma semana, se tanto. 
 
Meu tio, casado com minha tia “tzisacia”, Anastásia, tinham cinco filhos, a saber, pela mais velha, Ana Maria, Vito, Lucia, Modesto e Santo. Deles, só os três últimos estão, hoje, vivos. Minha identificação era mais com o Vito, por ser um pouco mais velho que eu. Brincávamos bastante no terreno ao lado, de proporções iguais ao terreno ocupado pela casa. Nos fundos, tinha uma frondosa árvore de amoras onde apanhávamos as frutinhas gostosas, doces como mel.
 
Tinha também plantas de chuchu, tomateiro e outras hortaliças que não lembro agora. Meu tio tinha mandado abrir um poço bem vedado, onde a água era bombeada para toda a casa.
 
Nossos folguedos resumiam-se em subir na amoreira, jogar futebol, fazer cigarrinhos com os cabinhos do chuchu, ler gibis, comprar e degustar quebra-queixo, que sempre passava em nossa porta. Essa leitura de gibis me ajudava muito. Meu primo Vito, que era um “dolci far niente”, principal vítima de seu pai, quando meu tio inquiria-o com pequenos problemas escolares, não os resolvia e passava para mim. Eu resolvia e meu tio pegava no pé do Vito: “Está vendo? Menor que você, resolve e você, burro, não sabe nada”. 
 
Estas comparações antipáticas... Meu tio era pródigo nisso, acabava criando um certo ressentimento sobre mim e aumentava muito a timidez do Vito.
 
Na sua má vontade em aprender a ler melhor, Vito me ajudou muito. Pedia sempre que eu lesse para ele e para o seu irmão Modesto os gibis que tínhamos em mãos, livros infantis etc. Eu lia em voz alta e gostava, os heróis eram meus também.
 
Um dia meu tio comprou um leitãozinho, para um futuro bem próximo fazer o leitão no forno. Foi uma farra, brincávamos com o bichinho solto no terreno ao lado, correndo atrás dele e ele corria atrás de nós, um divertimento inocente e prazeroso, sem maltratar o animal. Mas o danado acabou se “vingando” de nós. Veio carregado de “bicho de pé” e distribuiu para todos, em doses equivalentes; aí, passamos o resto da semana com aquela coceira tão gostosa entre os dedos dos pés.
 
(Fim da 1ª parte)
 
E-mail: modesto.laruccia@hotmail.com
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Publicado em 06/11/2013

Uma História saborosa deste São Paulo antigo, tão bem descrita por você Modesto, que me senti visitando esses lugares por você citados.

Como sempre caro Modesto, um depoimento único, sobre certos e últimos lampejos, deste autêntico São Paulo de outrora tão bem descritos por você Parabéns! Mestre Modesto. Abraço Grassi

Enviado por Roberto Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 05/11/2013

Grande mestre Modesto. Lembrou-me dos danados "bicho de pé". Aquele abraço !

Enviado por Asciudeme Joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 05/11/2013

Vamos ver o final. Modesto, io parlo italiano, ancora, o que o pessoal de Bari fala, ninguém entende. Só eles mesmo.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcos.lour@yahoo.com.br
Publicado em 04/11/2013

Bela história sr. Modesto.

A saudade bate nos nossos corações,

daqueles bons tempos.

Parabéns.

Enviado por Edmir Espindola - edmirespindola@hotmail.com
Publicado em 03/11/2013

Modesto, quantas peraltices vocês faziam, mas coitado do Vito deve ter sofrido muito quando seu pai lhe chamava a atenção.Burro, uma infeliz colocação e que também acho que não se deve usar para ninguém. Um abraço e vamos aguardar a sequência.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 03/11/2013

Muito boa estas lembranças com tios e primos,em que a gente quando se encontrava seguia todas as regras de educação imposta pelos nossos pais,tais como cumprimentar pedindo a benção, ser gentil e prestativo com todos,e ainda só comer o que for oferecido e agradecendo tudo o que nos dessem,até mesmo um copo com água.Esta época não volta mais , mas estes ensinamentos nunca se esquece...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 02/11/2013

Cigarrinhos de aste de macchucheiro

Sem tabaco, e outras drogas

como é bom ser criança

Abraços Garotão.

Enviado por Marcos Falcon - marcosfalcon@uol.com.br
Publicado em 02/11/2013

Modesto que saudades do bicho de pé. Já faz algum tempo que eu não sinto em mim aquela coceirinha gostosa, e pelo jeito você também não né?

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 01/11/2013

Meu querido Modesto, sempre nos proporcionando uma saudável viagem a um tempo muito mais macio. Muito obrigada, meu querido amigo. É bom demais passear com o sr. por uma São Paulo mais aconchegante. Parabéns pelo texto carregado de delicadeza de uma alma tão pura. Receba o meu abraço carinhoso.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 01/11/2013

È Sr Modesto deve ter sido um molequinho danado de arteiro rs.

Parabéns gostei muito do texto.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
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