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Categoria - Paisagens e lugares Andanças Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 14/11/2013

Uma das grandes paixões que guardo na alma é passear pelo centro de São Paulo. Desde jovem, eu tinha uma apreciação muito grande por esse espaço tão inundado de história, conhecimento e também perdas e desilusões.

Nada mais fascinante que passar pelo Centro Velho sem pressa. Sim, é preciso esquecer propositalmente o relógio. Mas eu só consegui essa façanha junto com a despreocupação quando saí da minha cidade. Pude escolher voltar para São Paulo em uma outra redação da história, escolhendo os horários para minimizar os horários de pico no trânsito, evitar a garoa que não há mais... Enfim, tentar vivenciar uma cidade na profundeza dos detalhes e suas riquezas. Resolvi voltar como turista, uma visitante saudosa e apaixonada, valorizando as raízes, os antepassados, o sofrimento daqueles que abriram espaços a unha, na tensa convivência com os nativos e acolhendo os novos chegados.

Com poesia enxergo o Pateo do Collegio. No passado, cercado por marmeleiros, tento respirar a presença dos jesuítas. Eu bem que gostaria que tivesse sido uma doce presença! Lentamente, caminho em direção ao Mercadão, apreciando as falas, os olhares, rostos carregados de suor e uns tantos semblantes machucados. Costas doloridas pelas tantas caixas carregadas. Frutas exóticas, exuberantes, fantásticas como a vida dos milhares que produzem para aquele comércio.

E ando, respiro, consigo parar em um canto perto da parede para olhar mais. Compro figada de Minas, o damasco turco, a goma síria, me encanto com os azeites pendurados e continuo caminhando em direção à Igreja São Bento. O Canto Gregoriano inebria mergulhado na sua proposta de introspecção e meditação. O canto oficial da Igreja, estabelecido pelo Papa Gregório Magno, no século VI também nos convida a muitas reflexões. Da porta da igreja, o metrô, na sua modernidade e eficiência, nos acolhe e, na pressa, nos leva a outros destinos. Mas antes, uma passada pelo viaduto Santa Ifigênia. Impossível passar por ali e não pensar no Adoniran, até visualizar compositor do Trem das Onze, na sua poesia popular rebuscada de um português dos cortiços do Bixiga, do Brás, da Barra Funda, repleta de lirismo com uma alma caipira e italiana. “Tutti mezzo a mezzo...”

Com amor visceral pela cidade, com encanto contido no coração, pelo orgulho de pertencer a uma cidade tão cosmopolita e vibrante, aprendi que, como turista, é boa a caminhada com brilho no olhar, coragem para aprender mais, alegria imensa pelo contato, ousadia para não ter vergonha de perguntar, disponibilidade para visitar a Liberdade com olhar ocidental, comer uma empadinha na padaria Santa Tereza vinda das mãos atenciosas do Sr. Pedroza, visitar atentamente o Sebo do Messias, marcar presença na Catedral, caminhar pela histórica Paulista... mas de roupas velhas. Não a sendo atrativo para os desvalidos.

Caminho pela cidade com roupas e sandálias gastas pelo tempo, por outras andanças poéticas e profundas, sempre à procura. Não quero ser vítima de nenhuma pessoa que não teve o direito de ser. Não quero perder a poesia pelo susto. Quero compreender, viver intensamente, vibrar, cooperar com tudo o que puder, mas sem perder o encanto.

E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 19/11/2013

Vera, é muito gostoso passear por São Paulo e poder apreciar seus infintos cantos. Sempre que posso saio para admirar esta cidade que em momentos me assusta e em outros sinto sua doçura e beleza. Seu texto como sempre me encanta, meus parabéns! Um grande abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 18/11/2013

Minha maninha, dos 15 aos vite e tantos anos eu vivi neste espaço, trabalhava no 208 da R.Boa Vista, mais tarde já adulto vivia na boemia paulistana, depois me afastei. Alguma vezes tentei voltar e hoje me entristeço ao vê-lo tão degradado, que pena. PS: nada melhor que ser pai fresco depois de velho. Minha neta mais velha é "só" 12 anos mais velha que a tia. Ah.Ah.Ah....

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 18/11/2013

Caminhar por São Paulo aos domingos,nos faz sentir que estamos em um passeio turístico como se faz fora do Brasil.O centro com sua arquitetura belíssima onde se pode ver a antiguidade das construções As galerias,os viadutos,o mercadão,a Praça da Sé e o Largo São Bento com suas Igrejas magníficas e centenárias etc...etc...é realmente um passeio turístico!!!(embora tudo permaneça em um triste abandono...)

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 18/11/2013

Carissima Vera

As escolas de Sampa,como trabalho escolar poderiam levar os alunos ao centro assim como em sua crônica, aprenderiam mais e inclusive amar nossa cidade,que cada dia que passa esta detonada,temos 14.000 mil pessoas morando no centro,numa condição sub-humana,com profissionais de invasão,isso nunca vi em lugar nenhum do mundo.

As "otoridades do ensino de São Paulo deveriam ler nossas crônicas",inclusive o sr. Hadad",pelo menos seus textos.

~Um forte abraço.

Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio25@gmail.com
Publicado em 15/11/2013

Para nós que qui vivemos, e em especial para mim que trabalho no Centro Velho, é necessário o seu olhar de visitante atenta para que possamos através de seu texto limpar as lentes e enxergar esta São Paulo.

Parabéns

Enviado por Marcos Falcon - marcosfalcon@uol.com.br
Publicado em 14/11/2013

Um erro na escrita: o certo é PERSCRUTANDO e não prescrutando. Desculpe.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 14/11/2013

Como é bom ter esse olhar de turista...Temos nesta cidade muita riqueza;

pessoas, edificações notáveis e espaços como os grandes parques que revelam a beleza e simplicidade da natureza. Parabéns pelo seu retrato

da nossa cidade nesse texto.

Enviado por Ana Regina Carnevalli Parra - arcparra@ig.com.br
Publicado em 14/11/2013

Vera, como é gostoso passear por São Paulo. Lindos cenários se formaram à medida que fui lendo seu texto. Quanto carinho, poesia e amor. Parabéns pelo texto e pela forma como você se expressou.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 14/11/2013

Flanar por São Paulo, buscando reminiscências históricas antes que elas desapareçam por completo, “completa” a essência de compreender suas transformações. Parabéns pela crônica!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 14/11/2013

Vera, admiro sua forma de ver a cidade, a nossa cidade descomunal, vou ao centro a cada dois anos,lendo texto, que se fosse meu, já ia dizendo, um cheiro de urina aqui e acolá, mendigo espalhado, tumulto, ladrões, passeata, transito, mas voce é uma poeta vê a cidade como ela devia ser , parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estantec@gmail.com
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