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Categoria - Outras histórias O caso da pipoca Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 22/11/2013

Eu tentava ver as luzes da cidade pela sacada do apartamento. Tentando me apoiar no parapeito da varanda, eu dava alguns pulinhos na esperança de conseguir enxergar, mas as luzes eram ainda muito distantes das minhas tão limitadas retinas.

Eu sonhava ver a magia das luzes de São Paulo à noite. Tinha alguma coisa de magia, de mistério, de monumental beleza ainda proibida para quem tentava dar os primeiros passos, com indecisões e medos.

Tempos instigantes aqueles. Da janela do apartamento do Cambuci eu começava a sonhar e a alimentar um desejo imenso de me tornar adulta. Sim, como adulta, eu poderia sair, passear, descobrir a geografia da cidade, novos rostos e retratos que me convidariam ao deleite de estar no mundo. Tempos depois, da janela do meu quarto, em uma casa dos tempos dos operários do Cambuci, eu também olhava em direção ao Ipiranga. E imaginava os tempos do meu pai ali, as conversas, a vida se movimentando... Para onde? Mas haveria movimento, alguma festa, conversas quentes e olhares interessados.

Os meus sonhos vagavam. Adoravam vagar pelos espaços das esperanças. Não era proibido. Eu não contava a ninguém. Os sonhos eram egoisticamente meus. Vontade de ter palavra, alguma noção de realidade, marcar presença em algum lugar. Eu teria que me tornar adulta e me sentir parte integrante de uma São Paulo frenética, e a minha alma assim se preparava para ser – insaciável na busca do conhecimento, do saber fazer alguma coisa, do poder amar todas as expressões da arte, desenhar um palco aberto para um mundo, tentando construir felicidade.

Muitos dos meus sonhos serenamente se aquietavam quando chegava alguém em casa. Importante era a chegada inesperada do “seu” Renato. Era um senhor com uma idade um pouco considerável – pelo menos para os meus olhos infantis. Ele trazia notícias frescas dos tios do interior do Paraná. De pronto, o dia se tornava iluminado com tantas novidades. O “seu” Renato era o portador de alguma carta em tempos de correios difíceis. Junto da carta, sempre alguma lembrança, algum tanto de balas 7 Belo embrulhadas em um papel de pão, um pacote grande com erva doce para as infinitas dores de estômago do meu pai... Certa feita, ganhei dois pares de meias, um em cada caixinha. Gostei tanto que demorei a usá-las. Em uma tarde, o “seu” Renato chegou com um bom tanto de milho de pipoca em uma caixa de papelão. Papelão meio escuro, com a cor da terra do Paraná. Milho comprado a granel de algum sitiante.

Na mesma noite, a minha avó foi fazer pipoca para nós. Os netos ao seu lado, defronte ao fogão, e ela ali, com a panela já gasta, preparando a nossa delícia. O especialíssimo de tudo, carregado de encantamento, era a fartura vista na hora que a tampa da panela levantava. Esse misto de riso e contentamento nos unia profundamente naquela hora.

Com um recipiente grande de plástico nas mãos, nos sentávamos defronte à televisão para nos deleitar com aquele milho estourado e salgado pelas doces mãos da avó. A irmã pequena se sentava entre meu irmão e eu e, assistindo a algum desenho, comíamos igualmente. Proposital e amorosamente deixávamos as pipocas maiores para a caçula. Coisa de exercício de fraternidade, só isso. Aliás, beijávamos muito a pequena e eu cuidei dela até o máximo que pude, levando-a à escola, carregando os seus livros, dando-lhe um beijo na cabecinha e ela entrava para o colégio, o nosso colégio, para começar a, lentamente, se fazer como pessoa.

Mas quando vejo hoje os pacotes individuais do milho de pipoca, sem magia e nem encanto, que a pessoa compra em qualquer lugar, coloca no micro-ondas, não sente a emoção da espera pelo estouro e muito menos a alegria da partilha, sem avó com sorriso estampado mexendo a panela velha e sem escolher as maiores para a irmãzinha, sem a delícia de ter alguém a enviar o milho a granel de longe como lembrança e entendimento das vontades dos pequenos... Eu só posso exclamar, como o saudoso Drummond – “Eta vida besta, meu Deus”.

 

E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 27/11/2013

Eta vida besta, meu Deus. Mas graças a Ele nós tivemos família, Vera. Veja bem FAMÍLIA. Por isso me identifico tanto consigo. Outra coisa, pipoca é tudo de bom né não?????

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 26/11/2013

Vera, você tem razão, as vezes as coisas mais simples nos proprocionam agradáveis momentos de alegria, hoje as coisas se modernizaram e tudo é mais rápido, que pena! parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 25/11/2013

Vera, nada pode perturbar o seu permanente estado poético em que às suas emotividades se banham. Esse seu terno enredo sobre o estourar das pipocas, na velha panela de sua avó, faz-se de você em meio de uma plasticidade poética, um fato realmente admirável. Parabéns! Grassi

Enviado por Roberto Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 24/11/2013

Belas lembranças, Vera. Pipoca de Vó...hoje, já devem até sair de uma máquina automática, sem contato manual, nem gosto. abraços.

Enviado por Luiz Simões Saidenberg - lssaidenberg@gmail.com
Publicado em 23/11/2013

Vera, uma pipoca de texto, como soe acontece com voce, e creio que a pipoca remete a todos nós na infancia e porque não hoje em dia nos jogos de futebol, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estantec@gmail.com
Publicado em 23/11/2013

Vera, querida, falando do nosso Cambuci, da bala 7 Belo, da sacada com parapeito inatingível, tentando ver São Paulo a noite, a chegada do "seu" Renato trazendo meias, chá de erva doce... quantas recordações, meu Deus. Arrematando com a pipoca estourada em casa, na panela, pela vovó. Os três vendo desenhos, na TV, a sensibilidade inata em vc, Moratta, nos leva a aceitar esse retorno aos anos de sua infância, compartilhando e não concordando com seu final drumondiano: "Eta vida besta, meu Deus" pra uma mais otimista:"Eta mundo bom, que era, meu Deus". Parabéns, Vera querida.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 23/11/2013

Realmente, Vera não tem a mesma magia, por isso eu até hoje não tenho micro-ondas, faço minhas pipocas na panela e elas ficam uma delícia, outro dia fiz para o meu netinho de 4 anos e nos fartamos.

Beijos

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 22/11/2013

Vera, assim como você eu adorava ver as luzes de São Paulo,só de andar pelas ruas do centro me encantava. Com certeza o sabor desta sua pipoca não tem igual. Quanta doçura e sentimento tem seu texto.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 22/11/2013

Doçura de texto Vera

Minha vó cantava ao mexer a panela de pipoca "Rebenta pipoca.... Sacode sororoca..... Rebenta pipoca.... sacode sororoca..."

Enviado por Marcos Falcon - marcosfalcon@uol.com.br
Publicado em 22/11/2013

Partilhar o pouco que tínhamos estava enraizado desde criança e isto vinha daquilo que nos era transmitido por nossos antepassados que nos deleitava com alguma guloseima, bolinho de chuva e pipoca. Saudade é dor pungente....mas valeu a pena viver cada momento.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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