Leia as Histórias

Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Eu e a chegada do trólebus no Tatuapé Autor(a): Arnaldo Martinez Capel - Conheça esse autor
História publicada em 11/11/2013

Segundo semestre de 1962. Eu estava com 11 anos de idade. Foi quando percebi um movimento diferente na Rua Padre Adelino, no Tatuapé, cuja rua onde eu morava, a Bom Sucesso, era (e continua sendo) travessa. Novos postes foram erguidos nos dois lados da rua, unidos transversalmente por cabos de aço. Julguei que se tratasse de nova iluminação, mas logo pude concluir que não era isso, por causa de umas ferragens, totalmente estranhas para mim, que foram penduradas nos cabos de aço.

Eu observava tudo com a curiosidade característica de um pré-adolescente. Tudo de diferente que ocorria na rua onde eu morava e nas ruas adjacentes era merecedor da minha atenção. Afinal, aquele era o meu mundo. Foi meu pai que trouxe a informação que pôs termo à minha curiosidade: uma nova linha de trólebus (ônibus elétrico) entraria em operação no início de 1963. Com efeito, a última etapa que observei de todo aquele trabalho foi a colocação de grossos fios nas ferragens.

Não demorou até que minha curiosidade desse lugar a uma ansiedade que não tardaria a crescer. É claro que eu já havia visto esse tipo de veículo circulando nas ruas do Centro de São Paulo e achava tão curioso quanto engraçado aquelas "varas" que punham os ônibus em contato com a rede elétrica. Estar a bordo e ser transportado por um era algo que eu há muito desejava, e eu sabia que meu desejo estava às vésperas de ser satisfeito.

Logo eu constataria se as qualidades que lhe atribuíam eram verdadeiras: mais macio, mais silencioso e mais rápido. Mas a principal das qualidades era a de não poluir o ar como os demais veículos. Tudo instalado; tudo pronto e a CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos) fixou a data para o início das operações: 25 de janeiro de 1963. Aniversário da Fundação de São Paulo. Não foi, contudo, naquela data que ocorreu o meu primeiro passeio de trólebus. Mas senti-me feliz naquele dia, vendo-os, durante horas, descer a Padre Adelino com os primeiros passageiros, os quais, é claro, eu invejei. Fiquei admirado com a constatação da primeira qualidade: a ausência de ruído do motor. Ouvi somente o ruído dos pneus deslizando sobre os paralelepípedos.

Menos de uma semana após a inauguração da linha, o meu grande dia chegou. Eu e meu irmão mais novo fomos, sozinhos, passear no Centro, conduzidos por aquele que eu considerava o "suprassumo" dos meios de transporte coletivo, cujos preparativos para sua chegada eu acompanhara com grande expectativa. Logo ao subir a bordo uma surpresa: sua tarifa era um pouco mais barata do que a dos ônibus comuns.

Como foi prazeroso aquele passeio em um veículo que mal parecia tocar no solo. A ausência de trepidação permitia ler ou escrever, e até tirar uma soneca em seu interior, mas eu estava mesmo interessado em saborear cada instante do passeio e conhecer todo o itinerário: ruas Tobias Barreto, dos Trilhos, Bresser, Frei Gaspar, viaduto e Avenida Alcântara Machado, Rua da Figueira, Parque D. Pedro II, Avenida Rangel Pestana e, finalmente, Praça Clovis Bevilácqua, que emendou-se com a Praça da Sé.

Naquela ocasião, muitos outros passeios de trólebus se sucederam, e foi através deles que comecei a "desbravar" a nossa querida São Paulo. Diga-se de passagem, isso contribuiu muito para o meu trabalho como office-boy, que eu iria ter alguns anos mais tarde.

Aquele passeio simples foi para mim motivo de alegria e orgulho. De alegria, pela oportunidade de experimentar um meio de transporte, novo para mim, fascinante, por conseguinte. De orgulho porque, apesar da pouca idade, eu entendia que a chegada de um novo e eficiente meio de transporte significava que o meu querido Tatuapé estava progredindo, como progredindo permanece.

 

E-mail: arnaldocapel@hotmail.com
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 12/11/2013

Posso imaginar seu entusiasmo, Arnaldo, conheço a Bom Sucesso, e na época ter troleibus, com seu conforto e quase sem ruído, na Padre Adelino, era um orgulho pros moradores. Minha irmã morou lá e eu lembro que a Bom Sucesso era toda de terra, não muito longe do 4ª Parada. Gostei do seu texto, Capel, está muito bom, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 11/11/2013

Parabéns pelo texto, contando sobre o inicio do tróleibus em S Paulo.

Andei por muitos anos no Gentil de Moura; tomava ele na Av Nazaré e descia na Sé.

Era muito macio mesmo, dava para ler um livro enquanto ia ou voltava.

Tempinho bom...

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 11/11/2013

Arnaldo, quantas recordações boas você tem do Tatuapé. Moro aqui no bairro e vejo o quanto progrediu em todos os setores. Tatuapé é um bairro lindo! Muito bom seu texto.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
« Anterior 1 Próxima »