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Categoria - Outras histórias Ângulo reto, "hein"! Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 14/11/2013

Anos 50. Daqueles paulistanos que, em vez de “coisa”, falavam era “cousa”. O colega de oficinas do Cambuci, de meu pai, “lighteano” da Lavapés, aquele enorme muro vermelho que não terminava mais... Gente boa, “hein”! O simpático Cimino, nosso vizinho, na Vila Mariana: o sempre bigodinho acompanhando o sempre sorriso. “Cousa”...

Pois aquele mesmo Mário (o da “cousa”) também se saía com outra – que o passar do tempo soterrou nas catacumbas romanas, a expressão: “cousas e lousas”. E mais, ainda: no lugar do correto “mas”, ela nasalizava a adversativa, dizia... “mâns”! Que “cousa”, não?

O quê? Lembro que ninguém menos que ela, a diva loira (“loura”?), Hebe Camargo! Sim, certo programa – na Record, no SBT? – eu a ouvi pronunciar “mâns”, alegando inclusive que era “mais elegante” que “mas”... Gracinha, gente! Aplausos! – não da ortofonia, claro. “Mâns” quem iria ousar contradizer o eterno sorriso, da eterna primeira-dama de São Paulo? Eu? Nunca! E muito mais!

Naqueles longínquos anos 50, por sobre o nosso grande quintal gramado – um quaradouro em que minha mãe estendia roupa –, quintal também de plantas e árvores, passavam regularmente os aviões. Todo santo dia (e noite).

Rodas baixadas, baixa altitude, cabecinhas nas janelas eu via, aviões que ultrapassavam minha casa e a colossal chácara adjacente – para a seguir contornar o “Obelisco de 32”. Depois, Moema, Indianópolis, a TV Record, deixando para trás os bondes (linhas 101 a 104) de trilhos “ferroviários”. Pronto! Congonhas! O então lindo aeroporto, ninho dos pássaros de prata.

E assim, do mesmo modo, também aviões que decolavam (não todos, porém) daquela mesma cabeceira – o xadrez da hoje Rubem Berta – eles também sobrevoavam nosso “quintalzão” – anos 50, 60. Minha casinha, nas rotas das aeronaves, era...

Então, caro SPMC, aquele nosso lugarzinho “vilamarianense” – José Antônio Coelho defronte à Caravelas e ao bar do “seu” Varanda (bar que varanda alguma tinha) – as duas rotas cruzavam: ora uma, ora outra. E em “ângulo reto”, como ocorreu de um dia eu notar – ângulo reto que por primeiro vi no “Osvaldo Sangiorgi” – primeiro ginasial, livro capa dura, laranja – Companhia Editora Nacional?

Ah, sim! Lembro-me daquele dia! Eu, dez para 11 anos, 1958... Quando então vi o belo quadrimotor, que trouxe a seleção campeã, trajeto Rio – São Paulo. Jogadores paulistas. Seleção canarinho que, de azul, triturou o amarelo da Suécia, não é? Avião aquele – acompanhei no rádio de válvulas – que sobrevoou São Paulo e, “pegando o caminho da roça”, cruzou nosso céu – “É ele!” – driblou o obelisco, avançou pela “área” de Moema, mirou a pista e... “goool”! Pousou, torcida brasileira! Diz a Internet: era o “Constellation” da Panair, PP-PDH (prefixo que eu nem mais lembrava). Euforia!

“Ah”, elegante “Constellation”! Pousado, rolando no gramado (digo, concreto), taxiando para o ansiado (ilustre) desembarque, a aeronave – motores em recesso – ela desliza suave! Como um lançamento de Didi! Passe milimétrico de Zito, Dino Sani! Um toque de Nilton Santos, a Enciclopédia (falavam). O avião, duas asas de prata: uma era “São” Gilmar; a outra “São” Castilho – ambos mãos de ouro! Ouro? Ora, a taça “recebeu” tanto calor humano – sabemos – que... “derreteu”, não foi?

Pois saiba, SPMC. Aquele “ângulo reto”, que eu “via” no cruzar das rotas sobre minha casinha, o ângulo reto, ele me foi uma turbulência – quase me derrubou! Primeiro ano ginasial, aula então de “Ciências”:

— “Você! (eu) — quantos graus ferve a água?”.

— (Eu, de sem-pulo!) “Noventa graus, ‘fessor’!”.

— “‘Burrão’! Cem! Cem graus, ‘sô’!”

“Cartão vermelho!” (ainda não havia) – Câmbio, desligo!

Bem, todos sabemos. Que a geometria, o ângulo reto, o berço é na Antiga Grécia, claro! Como gregas eram as (“humm”!) grandes azeitonas verdes e pretas – minha mãe (quando?) comprava – “feira de rico”, diziam outras mães proletárias – feiras da Alcino Braga e Moema. Gregas ou portuguesas, “hã”? Bom, se a Grécia fosse ibérica...

O certo foi que... Para mim, a “cousa” aconteceu, “hein”! Por conta da imperdoável escorregada no gramado – digo, na sala de aula – com relação ao ângulo reto (que jamais ferveu), daí os deuses gregos do Olimpo (eu, que morava perto do campo do Olímpicos do Paraíso), resolveram punir a mim, “molecão” já! “Shazam”! Isto é, com a “ajuda” do Capitão Marvel, o castigo... Gibi que eu adorava!

Creia em mim, SPMC! Tiraram (castigo) “tudo” de mim: a casinha, o “quintalzão”, as rotas que lá cruzavam – até o romantismo! O romantismo de Vila Mariana, à época “bucólica” (exagero!).

Foi que os deuses do Olimpo, represália à burrice do moleque, enviaram (talvez via Panair) um... “agente 007” – dissimulado, sob a alcunha de “progresso”! Progresso que, onde o moleque jogava bola, bolinhas de gude no terrão, taco e rolimã (na rua), onde o moleque plantava muitas plantas – ali o progresso plantou: prédios insossos e asfalto (uma tal de 23 de Maio)! Enfim: esterilizou a paisagem verde – “Shazam”!

Epílogo. Então mudamos. E na mudança, a mim me coube carregar duas “cousas” – que se foram alojar... No caminhão Chevrolet? Não. “Mâns” no fundinho do coração: tristeza e inconformismo! As duas “cousas” cruzando entre si – rigorosamente noventa graus! Ângulo reto.

Ora, a vida é assim – “Assim caminha a Humanidade”, não? – filme que vi no cine Cruzeiro. Ou no Phenix? No final do filme, olhos arregalados do moleque, um belo Douglas DC-4! Igual aos dos de Congonhas, velhinho! “Skymaster”, “Real-Aerovias”.

SPMC, fico-lhe grato! Pela atenção. Pela paciência. Acolher mais esta reminiscência – São Paulo de outrora, lembranças que guardo ainda.

Todos sabemos. A então CBD virou CBF: o Brasil ganhou outras Copas, claro! Para mim, nenhuma outra trouxe – nenhuma trará – o colorido das expectativas do mágico tempo de infância, adolescência... Expectativas pelo vento dissipadas. Sim, “E o vento levou” (esse, não vi). Abraços!

E-mail: rcm.rhda.sp@gmail.com
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Publicado em 19/11/2013

O Modesto já disse tudo em seu comentário sobre o texto.

Mas A Light and Power da Lavapés me trouxe gandes lembranças de meu pai, que por trinta nos foi desenhista mecânico da mesma.Vc chegou à frequentar as festas de final de ano feitas na Light?

Abraços

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 18/11/2013

Rubens, você não viu " O vento levou"?!?!?! Mâns que cousa. Deve vê-lo é muito bom.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 15/11/2013

Essa graciosa mixórdia de menções, tem a magia de uma pintura moderna, digna de...Rubens Cano de Medeiros, mesmo. Tentando se ater a uma determinada figura geométrica, (ângulo reto) vc, Cano, consegue uma sopa de variados legumes, resultando um caldo delicioso de se ler. Se fossemos pinçar um único elemento dessa mistura alegre, nada iria mudar, e o item retirado, sozinho teria um sabor um tanto ou quanto, azedo. Uma narrativa diferente, atraente, semente de uma mente que não mente, lente que de repente...(ihhhh, também fui inoculado pela serpente)... parabéns, Medeiros, seu texto é, no mínimo, atualíssimo.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 14/11/2013

Rubens, muita verdade e lindas lembranças, parabéns! Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 14/11/2013

Que lindo texto, doces lembranças de um menino de 11 anos ou mais...

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 14/11/2013

Rubens, sou muito emotiva e o seu texto mexeu com os meus sentimentos. Até por me lembrar do "cousa", que o meu tio querido falava, da rua Lavapés - morei bem perto dali e conheço aquele espaço, a Light... essas reminiscências paulistanas mexem mesmo com a nossa alma. Parabéns, meu querido. Parabéns MESMO. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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