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Categoria - Outras histórias Cartas Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 04/12/2013
Embora proibido, sorrateiramente, ambulantes percorrem os vagões durante todo o trajeto das linhas férreas vendendo os mais variados produtos, desde balas, biscoitos e salgadinhos de procedências duvidosas até as quinquilharias inúteis. E como vendem, senão não haveria tantos marreteiros atuando dissimuladamente nos vagões dos trens.
 
Problema social à parte, se não incomodam diretamente os passageiros pelo menos está caracterizada a sonegação de impostos.
 
Ludinalva é um desses tantos passageiros que se utilizam diariamente desse meio para ir e voltar ao trabalho que fica um dia na Lapa, outros no Tatuapé e no Pari. Não chega a ser velha, mas parece que o tempo judiou demais dela. Morena clara, cabelos presos, vestes simples. Faz faxina, é diarista, está um dia em cada casa do bairro, mas para facilitar segue sempre a rota da malha ferroviária da CTPM que liga a zona Oeste à zona Leste. Gente de confiança, quem a conhece afirma. O pouco que recebe divide com a mãe que mora no sertão da Pará.
 
Pensa em um dia voltar para lá, a vida aqui é dura e a comunicação com a velha é só através de cartas, não tem computador e muito menos conhece as redes sociais. Ainda, não sabe ler e precisa contar com a boa vontade de outros. Como mora só e raramente se encontra com os patrões, demora para saber o que está escrito nas poucas correspondências que recebe da mãe, depende também de alguém para escrever algumas linhas e enviar lá para o Norte.
 
Acostumada ao movimento dentro dos trens nunca se incomodou e nunca adquiriu nada dos biscateiros que oferecem de tudo, até o dia em que ela ouviu, lá na frente da composição, a voz de uma cigana que dizia ler cartas, despertando seu interesse.
 
Dada a distância e o amontoado de gente, ela não conseguiu ver e nem se aproximar da mulher. Ouvira algumas pessoas comentarem apenas que se tratava de uma cartomante. Pensou: “hã, hã, cartomante sei lá o que isso. Mas se ela lê cartas deve ser uma pessoa letrada.”
 
Toda entusiasmada projetou que como hoje não tinha como chegar até ela, amanhã iria procurá-la. No dia seguinte, durante a viagem, após uma busca incessante, ela consegue se aproximar da mulher rodeada de gente, se aproxima e timidamente pergunta:
- “Quanto a senhora cobra pra ler cartas?”
- “Eu cobro o que a senhora puder pagar desde que sejam mais de dez reais.”
- “Virgem santa, é muito caro, mas eu posso pagar.”
 
A cigana começa a misturar o baralho e Ludinalva tira da bolsa um pacote de cartas e as apresenta. A cartomante se espanta e cai na gargalhada, enquanto que as demais pessoas zombam da pobre coitada que não consegue segurar os papéis que se perdem pelos ares, voando para fora.
 
Triste, ela não consegue recuperar uma única folha, cabisbaixa segue o seu caminho, mais que a dignidade ferida, o vento levou sua única ponte de relacionamento.
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 08/12/2013

Triste e lamentável, infelizmente tem muita gente nessa situação.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 05/12/2013

Samuel, meu querido.... eu nem sei comentar esse conteúdo, dada a gravidade do caso, pois envolve sentimentos profundos, dignidade roubada, exclusão... enfim.

Parabenizo você pelo relato e pelo seu sentimento tão profundamente humano. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 04/12/2013

Samuel, que triste história. Uma pena ela não saber ler, que sabe este ocorrido sirva de estímulo para frequentar uma escola e ser alfabetizada.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 04/12/2013

Maldade das mais grosseiras que se pode impingir sobre uma pessoa. Seu texto, Samuel tem sabor amargo demais, se o que vc contou é realmente verídico. Bem relatado com bons detalhes, é mais um fatoe negativo em nossa cidade. Parabéns, de Leonardo. Boas festas.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 04/12/2013

Pobre coitada, houve um grande mal entendido.

Quando eu vejo uma pessoa analfabeta morro de pena, infelizmente ainda tem muita gente nessa situação.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
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