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Categoria - Personagens Vergonha na cara Autor(a): José Aureliano Oliveira - Conheça esse autor
História publicada em 10/12/2013

“Joaquimneto” – era dessa maneira que o chamávamos e escrevíamos “tudo junto”. Era o padrinho da mamãe. Vivia na sua fazenda no interior de Sampa junto com todos os filhos e netos. Iam na cidade somente para as compras, missa e os mais novos à escola. Uma das filhas casou com o filho do prefeito de uma cidadezinha ao lado da sua fazenda. Estava para terminar o mandato de Prefeito do pai do seu genro, o convenceram a se candidatar para o tal cargo. Não sei dizer o grau de escolaridade, mas sei que o seu conhecimento era voltado para a lavoura de café e gado.

 

Não sabemos avaliar o que se passa na cabeça dos familiares ao saberem que o patriarca poderia ter o cargo de prefeito. O cargo de prefeito penetrou naquela família e a soberba tomou conta de todos eles. Também não sei direito da história sobre o seu mandato de quatro anos. Só sei dizer que não funcionou direito, e no término, passando-se alguns meses, começaram a aparecer dívidas contraídas em seu nome, onde a família quebrou.

 

Resumindo: a dívida foi enorme, o seu nome foi sendo muito criticado na cidadezinha. Reuniu-se com os filhos e tomou uma decisão. Venderam a fazenda, pagaram todas as dívidas, e com o que sobrou compraram um sobrado em Sampa, no bairro da Lapa. Pegaram a família, os trapos e as cuias, desembarcando na estação da Luz em uma tarde de domingo, dizendo ele aos seus filhos:

- “somos meio xucro, com pouco estudo, mas sabemos trabalhar e Sampa está aí para nos abraçar e nos dar as oportunidades que iremos procurar.”

 

 Isso aconteceu na década de 60. Pela sua idade, ele praticamente se aposentou. Seu irmão mais novo foi vender bilhete de loteria no bairro, tornando-se muito conhecido por lá. O filho mais velho foi trabalhar na Cia Antártica Paulista, na Avenida do Estado, como ascensorista de elevador, arrumado pelo primo da mamãe, o Aureliano, meu xará que trabalhava lá. O José foi trabalhar na Cia. de Cigarros Souza Cruz, não sabendo dizer exatamente o bairro, se pertencia ao Brás ou Pari. O Inacio e o Paulo foram trabalhar como marceneiros em Osasco (aprenderam o ofício no local) e depois de alguns anos essa marcenaria mudou-se para Campinas, e eles foram junto.

 

Os filhos, assim que atingiram a idade para trabalhar, dentro do possível, foram ajudando; um foi ser ascensorista em um prédio do Centro de Sampa, na Rua Álvares Penteado. O Joaquim veio trabalhar comigo, aprendendo o serviço de Telex. Fui trabalhar por uns tempos na Agência da Avenida Ipiranga, onde umas das filhas veio trabalhar, na nossa divisão, como telefonista. O meu braço direito era a dona Dina que ensinava as telefonistas novas a usarem o equipamento e o tratamento dado ao cliente.

 

Para se ter uma ideia todos eles sempre trabalharam na roça e tiveram que enfrentar um serviço totalmente desconhecido, deve ter sido trabalhoso e constrangedor em alguns caso, principalmente para ela, que assim que pegou no telefone e atendeu a primeira ligação, a dona Dina disse que teve até dó. Assim que ia falando com o cliente ia ficando vermelha e no término disse que dava até para fritar um ovo no seu rosto de tão vermelha que ela estava.

 

Enfim, superaram todos esses obstáculos e venceram na vida. Os mais velhos, alguns já morreram, outros casaram, nasceram os netos e estão todos espalhados por essa Sampa querida que acolhe a todos que pretendem trabalhar e vencer na vida. O exemplo deixado pelo patriarca Joaquimneto tem uma palavra moderna, que é usada muito no dia de hoje, que é “caráter”, mas que para a mamãe a palavra verdadeira é “teve vergonha na cara”.

 

E-mail: joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
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Publicado em 13/12/2013

Vergonha na cara, esta foi a maior herança que meu pai me deixou,e olha que ele deixou outras coisa muito caras. Mas vergonha na cara não tem preço.....

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 12/12/2013

Um exemplo incontestável de demonstração de caráter e vergonha na cara, José, visto com bastante respeito em esmiuçar intimidades familiares. Por curizidade, quero te informar que a Cia. De Cigarros Souza Cruz, ficava no Braz, uma travessa da rua Piratininga e a Cia. Antártica Paulista ficava na Mooca, na av. Presidente Wilson.

Uma bela apresentação, em termos de escrita, Aureliano, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 11/12/2013

Aureliano, há quanto tempo não ouço essa frase, "vergonha na cara", hoje os sem vergonhas estão triunfando, tripudiando sobre os que tem, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estantec@gmail.com
Publicado em 11/12/2013

José, em primeiro lugar, eu estava com muitas saudades de você e fiquei muito feliz ao ver o seu nome estampado no site, com um caso novo. Caso, aliás, brilhante. Vergonha na cara, meu amigo, é tão importante como o ar, como a comida. Sem ela, eu acredito, não somos pessoas.Passei também por situações muito delicadas, bem como toda a minha família, mas nunca, nunca perdemos a vergonha. Ótimo texto, como sempre. Receba meu grande abraço e um felicíssimo Natal, meu querido José.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 11/12/2013

É difícil ter vergonha na cara, nesse mundo de Cara de Paus. parabéns pelo ótimo texto.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 10/12/2013

Pois é, cada vez mais estamos precisando de gente como estes, que realmente tenham vergonha na cara.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
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