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Categoria - Paisagens e lugares A pujança do Brás Autor(a): Clesio de Luca - Conheça esse autor
História publicada em 20/12/2013
O bairro paulistano do Brás é a própria pujança. É algo vivo e “doloroso'”. O Brás implica todos os dias uma rotina que começa às 2h da manhã; é o trabalho da madrugada, dos feirantes e lojistas dos dois mercados, o principal que todos conhecem e visitam e o segundo o dos hortifrutigranjeiros, das verduras e das frutas saborosas e dos aspectos mais saudáveis pelo menos na aparência.
 
Até nas ruas do bairro elas se encontram, os cereais... Desta vez o feijão de vagem longo e o da caixa do caju, até a baga é aproveitada. Um vendedor ambulante me diz que o pé da fruta vale o preço da caixa de caju.
 
Vi também que oferecerem duas mudas de coco por R$ 10. Só não comprei para não sacrificar as plantas com 12 horas de viagem. No mais, não havia por que não levá-las. O Brás, velho Brás.
 
Do taxista recebi a informação que o prédio da bolsa de Cereais do Estado de São Paulo mudara da Avenida Senador Queiroz para outro local, e aquele edifício de 12 andares transformado em um comércio variado de lojas e escritórios. No Brás, parece difícil algum não trabalhar, embora nas ruas haja muitos ladrões e o aviso que todo cuidado é pouco em se tratando de dinheiro nos bolsos. As quadrilhas estão sempre prontas para um novo golpe, atacar os incautos formalizando um agito qualquer.
 
Não vejo São Paulo depredada e mal cuidada. Vejo São Paulo adaptada aos novos tempos, ao seu dia a dia; não há tempo a perder e trabalho duro e constante. O relacionamento com os clientes que adentram os estabelecimentos comerciais a que me refiro são atraentes e com estilo.
 
Diz o proprietário da banca: você pega a pimenta, do tamanho do polegar, retira a parte verde que segura o fruto. Exponha-as no álcool por 20 minutos e repõe-nas a mesa para enxugar. Em um instante estão enxutas, pois o álcool evapora facilmente. Ponha-as em um recipiente fechado, lacrado e adicione azeite, alho, vinagre e sal.
 
Feche hermeticamente o vidro e abra-o por três vezes para a retirada do ar contido nela, até a armazenagem definitiva. Não deixe ninguém cheirá-la, que se evite o contato com bactérias da saliva. Está pronto o vidro de pimenta vermelha, não sei o nome da variedade, mas ela também serve como amuleto contra fofoca.
 
Pegue o limão e esprema-o. O limão limpará seu nome das imundas bocas e línguas. Vamos deixar as mandingas de lado e voltemos ao Brás.
 
Os taxistas negociam corridas pelo preço acordado e não pelo taxímetro. Do shopping Valtier até a região do mercado, o preço pedido é R$ 30, mas fechando em R$ 20 com quatro passageiros sai por R$ 5 a unidade/ passagem. Na volta, é preciso escolher o local de embarque, do contrário o taxista terá que fazer um retorno grande que não compensa. O preço é acordado, desta vez por R$ 30. Não tem discussão, se não quiser arrume outro carro. É assim a lei do mais forte e a lei da oferta e da procura.
 
Dos encontros nascem as conversas, nome, local de moradia. Todos dizem que lá onde moram é uma maravilha, um sossego. Do lugar onde moro, Santana, avista-se a Serra da Cantareira e sente-se o cheiro da mata. Moro em Santana, bem para lá de onde era o complexo do Carandiru.
 
Fico imaginando, vendo os protagonistas desses encontros casuais no Brás, a amizade que reina entre eles. Conversa vai, conversa vem sempre se chega a um acordo.
 
No mercado a hora é de degustação: um pastel, bolinho de bacalhau, quibe qualquer outro salgado sempre é bem vindo. Com suco, cerveja ou refrigerante percebe-se o gosto de cada um e a falta de cuidado na alimentação. Os obesos e os candidatos à obesidade já se destacam na adolescência.
 
Mas isso gente, é o nosso Brás. Gente se movimentando para lá e para cá, comprando, vendendo, oferecendo, e pechinchando. Não há quem resista a um bom negócio. É pegar ou largar.
 
São viagens feitas com curto espaço de tempo, umas horas apenas para matar a saudade da cidade que outrora foi palco de aventuras. Um sinal também é a discrição. Muitos não se revelam a que vieram, se a negócios, ou a passeio, ou a visita a um médico especialista, cada um carrega dentro de si seus motivos pessoais.
 
Foi assim que vi o Brás da última vez, Brás, o fabuloso Brás, nesse dia 30 de novembro, prenúncio de um novo final de ano e com as festas alegres de sempre.
 
 
E-mail: clesiodeluca@yahoo.com.br
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Publicado em 23/12/2013

Clésio, infelizmente eu conheço pouco do bairro,assim,o seu texto foi, para mim, muito interessante e oportuno. Obrigada. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 23/12/2013

Eu, como "brazeiro" inveterado, agradeço de forma emocionante o que vc dissertou sobre meu bairro, de Luca. Realmente, Clesio, o Braz é realmente uma cidade dentro de outra cidade. Gostei muito de sua dissertação, parabéns e votos de boas festas, Clesio.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 23/12/2013

Clesio, Quando vivia em São Paulo eu sempre fui muito fã do Brás, não sei se era por causa das porteiras famosas ou da famosa fabrica de Gaz, mas para mim o Brás, o Bixiga, mais a Penha a Lapa e Santo Amaro, sempre foram os bairros mais simpáticos de São Paulo, também gostava de Taipas hoje Jaraguá, são bairros que sempre estão povoando alegremente a minha memória, não sei nem explicar os motivos.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 21/12/2013

BRAZ, MOOCA,BIXIGA, PINHEIROS,JARDINS,ETC,,

SAO BAIRROS DA GASTRONONIA PAULISTANA.

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 21/12/2013

Interessante seu texto, estivemos em Sampa na mesma data do encontro com as redondas , mas não foi possível participar, pois visitar minha irmã Libia que agora foi para uma casa de repouso.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
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