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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas A primeira vez a gente nunca esquece Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 19/02/2014
“II Grupo Escolar do Bairro do Rio Pequeno”.
 
“São Paulo, 11 de fevereiro de 1963”.
 
Após nos posicionarmos em fila e ter entoado o Hino Nacional defronte ao prédio localizado na antiga Estrada Quatro, ainda sem asfalto, atual Avenida José Joaquim Seabra, adentramos na sala de aula. Com o giz branco, Dona Lurdinha desenhara essas letras na lousa. Assim, em uma tarde de verão, teve início o meu primeiro dia de aula naquela escola. Na verdade até então não sabia ler, mas a dedicada mestra explicou em detalhes às crianças o que traçara no quadro negro.
 
Ainda assustado com a novidade, trajando camisa branca, calça curta azul-marinho e calçando o novo Conga azul chegara a minha vez e, todo nervoso e sem jeito, apresentei-me balbuciando meu nome.
 
A estrutura do prédio era toda de madeira. Dois galpões em tom azul desbotado pelo tempo, sobrepostos em pequenas colunas de tijolos à vista, que comportavam duas salas de aula. O teto não tinha forro e podiam-se notar as vigas cruzadas sustentando o telhado de amianto e as janelas enormes apresentavam algumas vidraças quebradas, talvez por pedradas.
 
Dispostas em fileiras carteiras duplas de madeira já desgastadas pelo tempo acomodavam a todos. À frente uma pequena mesa e uma cadeira destinada à professora, ao fundo dois armários que um dia foram envernizados completavam o mobiliário.
 
Naquele dia nossa primeira atividade foi desenhar pequenos círculos até completar a folha. Caderno aberto sobre a carteira, lápis na mão e as “bolinhas” irregulares iam se distribuindo sobre as linhas. Então com toda a paciência do mundo nossa professorinha passou pelas carteiras elogiando a arte de cada um.
 
De repente, ouve-se o tilintar da sineta tocada pelas mãos da servente, assim era denominada aquela que ainda não chegara a bedel. Hora do recreio, algazarra em profusão no enorme terreiro empoeirado a céu aberto que circundava o imóvel. Não havia muros para delimitar onde terminava a escola e começava o imenso matagal morro acima. Uns corriam para os banheiros situados nos fundos da escola, outros devoravam a lancheira. Para os que não trouxeram merenda era só descer até a pequena cozinha, única edificação de alvenaria posicionada à entrada daquela construção rústica, e apanhar um kit. 
 
Enquanto os meninos corriam de um lado a outro no pega-pega, as meninas brincavam de roda ou pulavam amarelinha.
 
Novamente o tilintar da sineta, hora da segunda parte. As crianças voltaram ofegantes, suados e descabelados, alguns com os uniformes manchados por algum alimento. Eu não poderia ficar para trás, sujara a camisa branca de terra e com certeza seria repreendido por minha mãe.
 
Agora na outra folha do caderno Dona Lurdinha pedira que desenhássemos um sol, depois uma árvore e uma casinha. Barbada, desenhar era comigo mesmo.
 
Antes que tocasse pela última vez a sineta daquele dia, ela escreveu na lousa “lição de casa”. Os meninos deveriam trazer uma folha de alguma planta qualquer, enquanto as meninas uma flor de acordo com a preferência de cada uma.
 
Anos mais tarde após os dois galpões serem criminosamente incendiados, naquele lugar o governo construiu um belo complexo educacional com classes modernas, uma quadra e um ginásio poliesportivo coberto. Durante o dia fora batizado de Escola Estadual Daniel Paulo Verano Pontes. À noite, funcionava o Ginásio Estadual Ministro Américo Marco Antônio, onde concluí o antigo ginasial.
 
Da “lição de casa” e daquela primeira vez eu nunca me esqueci, pena que aquele dia passou como um bólido, assim como rápidos foram as semanas, os meses, os anos...
 
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 21/02/2014

Pena mesmo,tudo se passou mas estamos aqui para contarmos nossa história.

Parabéns.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 21/02/2014

Recordações das primeiras vezes de ocorrências em nossa vida, é sempre agradável, principalmente quando se trata de escolas. Muito bem redigido seu texto, Samuel, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 20/02/2014

Samuel, no meu tempo a gente aprendia a ser um cidadão civilizado, os professores eram respeitados, sómente passávamos de ano após fazer os exames e os pais recebiam os boletins e tinham que devolvê-los assinados, tudo mudou, que poena! abraços, Nelinho.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 20/02/2014

Samuel, sou fã incondicional dos seus textos. Viajo junto, tenho emoções parecidas. Eu também me lembro do primeiro dia de aula e já escrevi sobre ele... e a vida passa. Um grande abraço e meus parabéns.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 19/02/2014

Fiquei curiosa, quanto a sua lição de casa, ainda se lembra de que planta você pegou a folha?

Belo texto.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 19/02/2014

Samuel, realmente a gente não esquece e você lembrou dos detalhes, sinal de forte marca em sua vida o primeiro dia na escola. Coisa boa e parabéns pelo texto.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 19/02/2014

SAMUEL,QUE SUSTO lENDO O TITULO EU PENSEI EM OUTRA COISA.

AGORA A GENTE NUNCA ESQUECE MESMO,

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 19/02/2014

Samuel, senti me na sua classe, porem uns seis anos antes, detalhes ricos de uma realidade que já faz meio século, foi isso mesmo naquela época esse tipo de escola, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 19/02/2014

É Samuel, passa depressa mesmo. A gente nem percebe.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
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