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Categoria - Outras histórias Memórias de um assassinato Autor(a): Miguel S. G. Chammas - Conheça esse autor
História publicada em 19/02/2014
Dia 26 de Maio de 1940, nascia na Maternidade São Paulo o primogênito do casal Tereza e Alfredo Chammas.
 
Primeiro filho de seus pais, primeiro neto de seus avós (paternos e maternos) e primeiro bisneto de sua bisavó, uma senhorinha de mais de sessenta anos na época, portadora de uma deformidade na coluna vertebral e com uma protuberância acentuada do lado esquerdo do corpo.
 
Por decisão de sua bisavó Joana Sito, a Dona Joaninha, como era costume da colônia italiana, ganhou uma infinidade de nomes na pia batismal. Miguel, em homenagem a seu tio avô; Salvador, homenageando seu avô; e Gabriel, em louvor a seu anjo da guarda.
 
Miguel cresceu no meio de parentes que o amavam e mimavam em excesso até que, quatro anos depois de seu nascimento veio ao mundo seu irmão Antonio Carlos. O recém-chegado, por ser novinho, lógico, arrebanhou atenções especiais, principalmente da Dona Joaninha.
 
Anos se passaram e os dois continuavam sendo mimados e bajulados por todos da família Sito, que os tinha inteirinhos, uma vez por semana, às quintas-feiras, quando sua mãe saia da Rua Augusta onde moravam e ia visitar seu pai e sua avó lá no Brás, na Rua 21 de Abril, quase esquina com a Rua Bresser.
 
Ali o Dr. Salvador residia e mantinha seu consultório de prático dentista e seu laboratório de protético. Era uma casa antiga onde ele e o irmão reinavam e traquinavam à vontade no quintal, onde as atrações principais eram uma ameixeira de frutos dourados e melados, uma goiabeira produtora de enormes e vermelhas frutas de sabor inigualável, mesmo verdes, e uma parreira que produzia lindos e vermelhos cachos de uvas.
 
Além disso, na rua onde ainda podia-se brincar, tinha as passagens obrigatórias do vendedor de biju com sua infalível e sonora matraca de uma argola, do vendedor de sorvete em sua carrocinha amarela e vermelha puxada por um cavalo branco ou, ainda, do homem com o rebanho de cabras a vender leite fresquinho e apetitoso.
 
Tinha, ainda, algumas casas antes da casa do meu avô, a quitanda onde corríamos para gastar os centavos ganhos de “nonna” ou “nonno” comprando lindos e saborosos pedaços de coco conservados em um vidro com água, ou mesmo doces e bugigangas várias.
 
Ora muito bem, depois de tão extenso preâmbulo, vamos ao que interessa, ou seja, a narrativa da memória que originou esta crônica, o referido assassinato.
 
Estavam Miguel e o Carlinhos (forma familiar com que tratamos até hoje meu irmão) brincando na sala aos pés da “nonna” que estava sentada em sua cadeirinha entre a mesa e a cristaleira.
 
Quem sabe influenciados pelo ambiente do consultório dentário e do laboratório de próteses brincavam de médico e enfermeiro e a paciente, sem dúvida, era a “nonna”.
 
Depois de minutos da brincadeira, Miguel, empunhando um lápis de ponta afiadíssima, decidiu aplicar uma injeção na paciente e, sem qualquer outro aviso, lascou a ponta do lápis na perna da “nonna” que, assustada, quem sabe com a dolorosa pontada, mexeu a perna e pronto, quebrou a afiadíssima ponta, tendo permanecido encravada em sua perna um bom pedaço de grafite.
 
Aos brados de “assassino”, “assassino” ela tentava extrair o pedaço de grafite da perna e, não conseguindo, continuava a gritar na sua voz fraquíssima, "assassino”!
 
Dona Tereza acorrendo à “cena do crime”, depois de tratar da “nonna”, desinfetando o local e acalmando-lhe os nervos, foi até o “assassino” e aplicou-lhe a merecida pena pelo crime cometido. Uma surra de tapas nos fundilhos que, garanto, doeram muito.
 
Doeram tanto que até hoje, ao lembrar-se do castigo, Miguel evita sentar-se e termina este texto digitando em pé as últimas palavras.
 
E-mail: misagaxa@terra.com.br
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Publicado em 21/02/2014

Traquinagem de menino.

Ainda se lembra da dor das palmadas.

Parabéns.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 21/02/2014

Chammas, procurado pela polícia do "bixiga" por ingerência curricular na pessoa da "noninha" dele. Farabuto, mascalzone, vai pegar, no mínimo, 100 anos de cadeia, com a proibição de morrer antes. Parabéns Miguel.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 20/02/2014

Miguel, os tapas na região glútea eram realmente doloridos, eu mesmo experimentei algumas palmadas que minha falecida mãezinha me dava, mas foram merecidos, parabéns pelo texto, abraços, Nelinho.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 20/02/2014

Miguel, eu já tinha lido e comentado esse texto saboroso no "memórias de Sampa". Mais uma vez, parabéns e um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 20/02/2014

Miguel,Trato meus netos com tantos mimos e cuidados como se fossem de cristal Tenho seis, com idades de 15anos a mais velha a 3 meses, o caçula,as meninas eu chamo de lindinhas,fofurinhas e os meninos de meu príncipe,meu herói etc..nunca levantei a voz com nenhum deles e todos me amam de paixão e me atendem quando falo alguma coisa.Mas no meu tempo e até hoje conheço avós que gritam,batem,e colocam os netos de castigo...educar é obrigação dos pais!!!mesmo que os avós cuidem,eles tem que saber impor respeito sem precisar gritar ou ameaçar.Minha mãe morreu fazem 15 anos e todos os netos ficam de olhos marejados quando falamos dela e eu tento ser tão doce e dedicada como ela foi...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 19/02/2014

Muito boa sua história, ri muito.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 19/02/2014

Miguel, um menino danado, bobeou levou.Coitada da nona ela não merecia isso, mas você mereceu os tapas que tanto te deixou dolorido.Valeu, um grande abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 19/02/2014

MIGUEL, fala a verdade voce ja estava de olho na herança da nona,

uma pergunta depois de quanto tempo do fato ocorrido.a nona faleceu,

este e mais um caso para SHERLOCK HOLMS,

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 19/02/2014

O nome do título assusta, mas depois vemos que se trata de um assunto de criança e de hilaria conclusão. Parabéns pela "obra prima" médica!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 19/02/2014

Mikael, mas a gente tinha cada ideia de jerico que não tem tamanho. Né não....

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
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