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Categoria - Personagens Lição de casa Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 02/04/2014
Poucas coisas são mais apaixonantes nessa vida do que aprender a ler! Foi o meu nascimento verdadeiro naquele ano de 1965! Nascimento para poder enxergar o mundo, desvendar mil mistérios que, inadvertidamente, surgiam à minha volta.
 
Tomei o caminho da escola de mãos dadas com a minha mãe, conceituada professora daquela unidade do SESI, próximo ao largo do Cambuci.
 
Pequena, os óculos pesados denunciavam as minhas limitações e consequente timidez. Um estado de alma que não permitiu que eu fosse mais além. Nem naquele ano e nunca mais.
Olhando para os lados, não senti medo das pessoas, do ruído da criançada que já ensaiava a administração do espaço. O espaço seria dela, quase nada meu. Na minha insegurança, a minha mãe sempre me alertava para não correr, não entrar em situações onde a bola poderia rolar. Sempre vinha a repreensão: “cuidado com os óculos!”
 
Com o tempo eu fiquei a pensar se aquela sugestão de cuidados seria o medo de eu me machucar aliado à dificuldade financeira em fazer mais um exemplar ou se seria a fabricação de mais uma menina submissa, pronta para ser adulta bem antes do tempo e aceita socialmente. Agora não importa: ainda luto para compreender as coisas que não fiz, as boas histórias engraçadas que não vivi, afastando as minhas críticas ou julgamentos vãos em relação àqueles que souberam e puderam ser crianças na hora certa.
 
Em fila, fomos direcionados à sala de aula. A minha primeira sala de aula! Um espaço de abertura para o universo. Como nunca eu sentia um prazer imenso pelo cheiro do pão com manteiga que exalava da minha lancheira cor de rosa. Era para a meia hora que durava o recreio.
 
E ganhamos caderno com a estampa do SESI, um lápis, uma borracha. Era como ouro puro que aquele material didático ia se acomodando nas minhas frágeis mãos que, um dia, ganhariam beleza e importância ao segurar um pedaço de giz e escrever sobre a História do Brasil, história de homens e mulheres encharcados de trabalho, opressão, sonhos de liberdade e inúmeras frustrações.
 
Logo na primeira lição da cartilha, vejo a pata, que nadava. Eu adorava entender a união das letras, a formação de ideias. Depois eu fiquei sabendo que a macaca era má.
 
E sempre ia uma maçã para a professora. Ou pêra. Uma vez eu, heroicamente, saquei da lancheira uma bolacha waffer de abacaxi para entregar para o lanche da dona Aurora, mas saiu meio torta na ponta e eu nem fiquei sem graça. Na meninice a vida é mais espontânea, sem tantas maldades, cheia de cores mais suaves.
 
E, do lado de cima do pátio, eu olhava, na minha solidão, os garotos e garotas mais velhos tocando os instrumentos da fanfarra. Eu achava mágico aquele bater de pratos, o bumbo ecoando um som característico mundo a fora. Era parte de uma meninice que gostaria de dizer que estava viva, se aprontando para ir além, dizendo que tinha nome próprio e, um dia, teria identidade também. Aquela estava sendo a parte mais deslumbrante do meu mundo e esse mundo, eu pensava, poderia ser manso.
 
E eu estranhava porque as professoras não sorriam para nós. Nenhuma vez. Só sorriam quando a minha mãe estava por perto.
 
De vez em quando, tinha pão com mortadela no recreio. Um dia, veio uma empada, e eu surtei quando um menino, correndo, derrubou aquela preciosidade das minhas mãos. Juntei o menino com um dedo pela camisa, com uma força imprópria até para a minha idade e, quase chorando, eu dizia: “olha, você derrubou a minha empada!”
 
E as meninas marcavam lugar para se sentarem durante o recreio. Uma vez eu deixei alguma coisa no banco, mostrando que, ali, ninguém poderia se sentar, até que veio um tal de Sílvio, metidinho à besta, e se sentou. Eu avisei que o lugar estava guardado e ele respondeu:
-“Eu sento onde é que eu quiser”.
E lá ficou.
Olhei prá ele e o considerei um verdadeiro imbecil. Considero até hoje os que não respeitam alguma solicitação quando dita educadamente.
 
Em uma tarde de inverno, com o maior encantamento eu chamei o meu pai e disse a ele que tinha aprendido a escrever “sapo”. E tinha um carimbo do anfíbio no canto esquerdo da página. E eu pintei a imagem de verde oliva.
 
Em um fim de tarde, voltando de ônibus para casa, um senhor, sentado, parecido com o Drummond, olhou para mim e perguntou:
- “Ficou de castigo hoje?”
Com a cabeça e os lábios semicerrados, acenei negativamente. Achei um abuso aquela pergunta, um despautério, pois eu jamais saíra da primeira carteira e a professora era, para mim, uma provável reencarnação de alguma sábia do oriente. Onde já se viu uma pergunta dessas?
 
A vida, para mim, começou a se definir e a ganhar cor naquele tempo, usando uniforme com naturalidade, apontando os meus lápis com apontador verde e aferindo o calibre da ponta na bochecha engordada pelo ar aspirado pela boca. Tempos de troca de pedaços de lanche no recreio, de entendimento do possível, de afinidade com a vida.
 
Tempo. Vida. Movimento. Sem samba de uma nota só. Não aprendíamos música de alguma relevância, nada de espiritualidade e sem grandes preocupações. O mundo não era tão grande assim. Alunos pobres, alguns com olhar anêmico. A Tereza Cristina com uma saia mais bem acabada – deveria ter a mão da avó naquela estória. Aprendíamos a viver e ainda não se falava em sonhar... Mas eu sonhava.
 
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 03/04/2014

Nossos olhos se abrem duas vezes na vida. A primeira é quando a gente nasce e a segunda é quando a gente aprende a ler.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 03/04/2014

VERA sua historia ainda foi melhor do que a minha.ESTAVA com seis anos e da janela via as crianças irem á escola,mamãe não queria de jeito nenhum pagar escola particular,mas acabou cedendo,e foi meu primeiro sonho realizado,até os dias de hoje sou apaixonada por tudo em relação á educação.SABER ler foi o maior presente de DEUS em minha vida.UM abraço bem apertado para voçe,beijosssssss.

Enviado por Luzia Helena Junqueira - luziahelena030746@gmail.com
Publicado em 03/04/2014

Vera, que sorte a sua ter uma mãe professora, naquele tempo os professores eram muito respeitados. Com certeza em 65, seu nascimento foi muito bem orientado e com amor.Não se falava em sonhos, mas você sonhou assim como eu e tantos outros jovens da época.Quem consegue aprender a ler cedo, aprende a ler o mundo. Mais texto maravilhoso. Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 03/04/2014

Este foi o começo de tudo...foi com estes primeiros passos que voce aprendeu a caminhar...com as primeiras palavras da cartilha,voce aprendeu a ler e a entender que a macaca era má então descobriu que também havia maldade...ficou atenta mas não perdeu a ternura...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 03/04/2014

Vera, época romantica de uma escola que não existe mais, notei que voce foi firme e sabendo o que queria na escola, o que não acontece mais hoje em dia, ao menos por grande parte dos alunos, hoje não se leva mais maçã aos professores, e sim desaforos, máguas, para não dizer outra coisa, bom reviver um passado não tão distante que merecia voltar, parabéns,Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 02/04/2014

Vera - As tuas histórias são,(acredito que para todos nós) aquele chá da tarde; bem relaxante, que num segundo voltamos com os nossos pensamentos para o passado onde imperava as "algazarras nos recreios" (no bom sentido) da meninada correndo para lá e pra cá. Coisas gostosas de se lembrar. Forte abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 02/04/2014

Muito parecido em muitos recantos a didática que era aplicada, e todos tinham uma única cartilha a "Caminho Suave" e realmente aprendíamos com vontade de saber e aplicar no dia a dia e ser admirado e sentir orgulho (não soberba) em passar de ano para ser digno de ganhar "Meu Primeiro Livro".Parabéns pelo tema!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 02/04/2014

Linda história Vera, parece que estou te vendo...

É na infância que brotam os primeiros sonhos, que cultivados chegarão a se tornar realidade.

Qual era o seu sonho?

Aposto que realizou todos;determinada como você é.

Beijos amiga

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
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