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Categoria - Outras histórias Natal de 1958 Autor(a): Solange Ernesto da Silva Costa - Conheça esse autor
História publicada em 11/04/2014
Esta história se passou em um lugar chamado Vila Jacuí – São Miguel Paulista, zona leste da cidade de São Paulo.
 
Vinte e quatro de dezembro. Na televisão da dona da casa onde José morava só se falava em ceia, troca de presentes, confraternização, Papai Noel. Para aquele menino pobre era uma realidade que não estava ao alcance das mãos. Saiu para a rua e foi se encontrar com os colegas. Bateram papo e alguns foram para casa, talvez curtir um prato de arroz e feijão com ovo. 
 
Outros, mais abastados, iriam curtir a ceia tão falada, regada a espumante, vinho, refrigerante, peru, pernil... Só ficou José e Nenê, tão pobre quanto ele. Conversa vai, conversa vem e Nenê disse: 
- Sabe Zé, ouvi falar que vai ter uma ceia na casa do Ari. Vamos lá, a gente fica em frente da casa, quem sabe alguém chama a gente para entrar. 
 
José concordou imediatamente e foram esperançosos, descendo a rua enlameada. Quando chegaram, viram as luzes coloridas da árvore de natal piscando, como que convidando-os a entrar. Ouvia-se o barulho de vozes, gargalhadas, crianças correndo e ao fundo uma música natalina. Ficaram ali parados, muito tempo, quando de repente, aquela garoa fina que teimava em cair o dia inteiro se transformou em grossos pingos de chuva e começou a molhar aqueles corpos franzinos e a arrastar ladeira abaixo a esperança daquelas duas crianças que não tiveram outra opção se não despedir-se e voltar para casa de barriga vazia, com a certeza de que o Natal dos homens não foi feito para todos, mas para alguns privilegiados.
 
Me comoveu muito quando ouvi esta história, há não muito tempo atrás. Estávamos próximos do Natal e José me disse que não gostava muito dessa data, pois não lhe trazia boas recordações e em poucas palavras me contou esta história que não é só a história de sua vida, mas de muitos brasileirinhos por esse país afora, hoje mesmo, em pleno século XXI, que são excluídos de uma festa que poderia ser a mais bela do mundo, se todos dessem o devido valor que ela merece e ao aniversariante.
 
José já não está mais entre nós, pois no dia 5 de novembro de 2013 nos deixou, com muitas saudades no coração e a certeza de enquanto imperar o materialismo na vida das pessoas, o lado espiritual ficará para sempre apagado.
 
Adeus José, meu querido irmão, agradeço a Deus por ter desfrutado da tua presença na minha vida.
 
E-mail: sscosta@prefeitura.sp.gov.br
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Publicado em 13/04/2014

Solange, triste realidade, mas com certeza o José tem agora os natais que merece.Que ele esteja em paz. Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 13/04/2014

Linda homenagem ao amigo José,ele compartilhou com voce esta passagem da sua,vida que o marcou triste e profundamente...Pois é Solange,ainda existem centenas de Josés por este imenso Brasil a fora que são invisíveis aos olhos de quem tem um poder aquisitivo melhor,e não sabem o significado de estender as maõs para uma criança...Já publicaram neste site uma passagem minha de um Natal pelas crianças da Periferia,e em todos os Natais eu procuro me empenhar muito para ter o sorrizo escancarado no rosto de algumas delas...é apenas uma gota no oceano,mas estas gotas umidecem e reforçam a minha jornada para o ano seguinte...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 12/04/2014

Solange, infelizmente a maioria hoje se esqueceu do Aniversariante no Natal, emocionante a sua homenagem a seu irmão José, parabéns pelo seu texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 11/04/2014

Solange, é triste mas é real. Hoje menos mas ainda muito. Se só um José existisse, já seria muito. Mas infelizmente sempre existirá.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 11/04/2014

Aos queridos que comentaram esta história uma observação: José era meu irmão mais velho, o primeiro de uma família de dez irmãos, como eu já escrevi na história "Meu bairro". Quando aconteceu o fato narrado no "Natal de 1958", eu ainda não era nascida. Narrei a história que ele me contou, usando a licença poética para descrever aquilo que ele não falou, mas a essência da história, o fato verídico de que ele o amigo foram à casa do vizinho esperando serem convidados para a ceia é fato e que voltaram para casa de barriga vazia com certeza aconteceu. José tinha doze anos na época.

Abraços para todos!

Enviado por Solange Ernesto da Silva Costa - sscosta@prefeitura.sp.gov.br
Publicado em 11/04/2014

Emocionante. O que me conforta é que existem muitas pessoas que partilham o seu pão. Pena que nem todos estejam dispostos a perceberem os outros como irmãos de verdade, filhos de um mesmo Pai. Obrigada pela partilha, Sol e que o seu texto seja um convite para todos os leitores desse site - ao menos para dividirem a comida e o afeto, pelo menos na noite de natal, ao invés de ficarem apenas reclamando e falando mal dos outros. Felicidades e um grande abraço de boas - vindas ao site.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 11/04/2014

Minha querida ele deve estar fazendo festa lá no céu, com certeza.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 11/04/2014

Sol - Em 1958 fiz 14 anos e comecei a trabalhar com carteira de menor assinada. Os Natais para mim já começaram a melhorar, porque já tinha meu dinheirinho. Agora os anteriores não fugiam da realidade de se ter pouco e presente barato. Abraços ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 11/04/2014

É a triste realidade de um país "rico", mas muito desigual, onde as diferenças são enormes e campeia enormes lacunas sociais.Acredito que mesmo sendo uma história comovente, o personagem real da história, José foi um grande e justo homem, ficando somente a saudade guardada no peito dos que compartilharam sua amizade.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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