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Categoria - Outras histórias E choveu muito naquela noite Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 15/04/2014
Parecia que todos os anjos e santos estavam aos prantos! Eu tinha certeza de que estavam desolados, profundamente amargurados pelo cenário.
 
Noite inigualável aquela!
 
Em procissão, uma boa parte dos moradores do Cambuci caminhava e rezava em uníssono pelas ruas escuras e sombrias daquele bairro de forte tradição operária naquela Sexta-Feira Santa.
 
A escuridão amedrontava! De olhares entristecidos, as mulheres mais idosas, especialmente elas, carregavam velas acesas na mão direita e cobriam-se com seus véus negros. Havia dor naqueles olhares! Olhares de donas de casa sem sonho, sem conquistas e nenhuma ilusão. Durante todas as suas vidas cozinharam arroz e feijão, alguma batata frita e uma carne de segunda. A vida seria somente aquilo. Nada mais.
 
Sexta-feira Santa de 1969. Criança ainda, eu jamais havia sentido tamanho pavor em praça pública. Os anjos choravam, sim, choravam muito, porque, lá de cima, podiam perceber e relembrar o martírio de Jesus pela sua opção sublime em apontar a todos os povos o caminho da verdadeira justiça, do amor infinito, do valor do perdão e do respeito ao próximo. Ele havia avisado que ninguém chegaria ao Pai se não fosse através dele. Não tínhamos aprendido ainda nada ou quase nada. Ainda não aprendemos.
 
E os anjos e santos, aos prantos convulsivos, observavam os caminhos daquele Brasil do arbítrio. Seria insuportável continuar a ver tanto sangue esparramado pelas esquinas, pelos porões, pavor, gritos lancinantes, certeza de perdas, descrença, sadismo vil e asqueroso, mães chorando os seus filhos mortos ou desaparecidos. Filhos que jamais teriam resposta do paradeiro dos pais. E pensariam: “como será que era o meu pai ou a minha mãe? Será que eles gostariam de me ver?”.
 
Nossa Senhora também chorou ao relembrar o martírio do filho, daquele filho que tentaria mudar os rumos da história. E os outros filhos, nós, simples e ignorantes, prestes a sucumbir à barbárie.
 
Chovia naquela noite. E as pessoas começaram a se abrigar como a fugir do pranto pesaroso que vinha dos céus.
 
Procissão é ritual de preces coletivas e já era praticado nos primeiros séculos da era cristã, ainda no tempo da perseguição, mas foi na Idade Média que essa expressão de fé teve o seu apogeu, sendo um grande acontecimento religioso e social, com cerimonial próprio e participação em massa de fiéis. As procissões medievais mais importantes foram realizadas na tradicionalíssima Península Ibérica dos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela.
 
No Brasil, essas manifestações de fé, seguidas pelos andores com imagens dos santos do dia, foram instituídas em 1549, quando Tomé de Souza, o primeiro governador-geral, desembarcou na Bahia desfilando em procissão com cerca de mil auxiliares, entre militares, burocratas e religiosos, com a finalidade de dar início à fundação da sede do governo da América portuguesa.
 
No período colonial – início da dominação portuguesa até a independência política – foram os jesuítas os responsáveis por adotar e propagar tais práticas de devoção, com a finalidade de atrair os nativos para a catequese e implantar o catolicismo.
 
Mas naquela Sexta-Feira Santa de 1969 a escuridão das ruas, a atmosfera de dor penetrante, a desolação me fizeram questionar o sentido da fé.
 
E a Páscoa, mais uma vez, bate às portas do coração. Para dizer que a vida vence o medo, a angústia e o sadismo. A Páscoa vem nos trazer algumas certezas. O choro existe, mas as lágrimas secam. O torturador açoita, mas um dia ele vai ter que acertar os ponteiros. Os sonhos existem e continuarão a existir apesar de todos os empecilhos para a sua concretização. O perdão existe quando a gente passa a ter a paciência para compreender o que aconteceu. 
 
E a Páscoa vem nos avisar que ainda há tempo para aprendermos: ninguém vai mesmo ao encontro de Deus se não passar pelo aprendizado de Jesus. O aprendizado que se traduz em humildade, respeito, aceitação do diferente, o saber que a justiça é muito tardia, mas que deve ser buscada incessantemente. O sorriso pode ser o motor de algumas mudanças – quem sabe, para uma vida inteira. E que cada pessoa é filha de Deus sim e, por esse motivo, deve ter uma importância imensa na construção da vida.
 
Mas essa lição sabemos de cor... Só nos resta aprender.
 
Uma felicíssima Páscoa a todos, com a certeza da vitória da luz sobre a escuridão e do sorriso de olhar confiante sobre as lágrimas grossas de sal.
 

 

E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 20/04/2014

Feliz Páscoa Vera.

Tudo de bom , você é uma pessoa maravilhosa.

.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 18/04/2014

O choro cessou. O renascer de cada dia, assim como uma Páscoa diária também nos fez renascer para novos tempos. Mas as cicatrizes ficaram. Infelizmente elas são marcas indeléveis que jamais serão apagadas. Perdoar???? Talvez. Esquecer jamais. Feliz Páscoa irmã querida.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 16/04/2014

Nossa Vera, arrepiei da cabeça aos pés ao ler esse seu texto, que para mim é uma bela parábola, iguais aquelas que Jesus contava para seus seguidores, para que seus novos ensinamentos não fosse percebido pelos ditadores Romanos e seus milicos, como também pelos fariseus Judeus que lotavam o Templo em Jerusalém. PARABÉNS BEM GRANDE PARA VOCÊ E ESSE SEU GENIAL TALENTO.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 16/04/2014

Amem - Maravilhoso - Pedimos ao nosso Pai não dos prantos, mas estamos necessitando no momento de água para as nossas represas. Feliz Pascoa Vera. Abraços ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 16/04/2014

Sempre estamos aprendendo e a páscoa é sempre uma travessia, uma passagem a ser vencida! Feliz Páscoa.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 16/04/2014

Vera como sempre mais uma das suas que nos traz lembrancas inesqueciveis dos velhos tempos do Braz quando acompanhavamos as procissoes da Matriz do nosso velho bairro , nao so o da sexta feira santa como a do encontro que se realizava nas primeiras horas das manhas do domingo de pascoa , iamos sempre acompanhados de nossa noiva ,depois minha esposa . Lembro que depois da procissao iamos a churraria da D. Dolores e seu Raimundo comprar churros e deliciavamos um belo delicioso casfe da manha . Parabens pelo maravilhoso texto , e retribuo os desejos de uma Feliz Pascoa junto aos seus .Abracos afetuosos do sempre amigo Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 15/04/2014

Vera, vamos ser otimistas apesar das agruras, da incompreensão de alguns, da violência, tomara que o ser humano olhe para dentro de sí mesmo, enfim menos ovos de chocolate e mais amor, feliz páscoa.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 15/04/2014

Vera, não me lembro de sexta eira da paixão chuvoso, mas realmentre uma procissão mexe com nosso emocional cristão e voce relatou bem esse fato e me fez recordar algumas procissões que participei, parabéns.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 15/04/2014

Vera, lembro de ficar esperando a procissão que passava perto da rua em que eu morava, só para ver o momento em que Madalena enxugava o rosto de Jesus.Era uma emoção grande e depois ela subia em um banco para exibir a toalha com o rosto de Jesus. Uma feliz Pascoa pra você r todos aqui do site.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 15/04/2014

querida Vera Morata,um texto bem detalhado de uma sexta feira santa chuvosa, mas tão triste como o olhar da virgem Maria das Dores....abraço, Beira

Enviado por José Camargo Beira - josebeira@hotmail.com
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