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Categoria - Personagens “Quais, quais, quais, quais, quais, quais” - meio século de “Trem das Onze” Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 05/05/2014
Não consigo me recordar da primeira vez que ouvi o clássico “Trem as Onze”. Interessantíssimo o samba, misto de despedida e responsabilidade. Cheguei até a discordar de Vinícius de Moraes quando dizia que o samba era a tristeza que balançava.
 
E me lembro, lá pelo final dos anos 70, no nosso apartamento na Aclimação, minha irmã e eu assistíamos a um programa na televisão e o Adoniran e os Demônios da Garoa se apresentavam. Nós começamos a dançar e a cantar na sala, munidas de um pano de prato e acenávamos para não sei onde. Foi um delírio, pelo menos para mim.
 
Para o Brasil, 1964 foi um ano maldito pelo início do obscurantismo político, mas, para compensar a hecatombe, foi também o ano do nascimento do samba mais famoso de Adoniran, que veio acalentar a nossa alma que começara a sangrar pela sandice que nos foi imposta.
 
E muito me orgulho de o mesmo ser conhecido e cantado pelas gerações seguintes. Muitas vezes, munida de um aparelho de som, fui para a sala de aula com o CD do nosso sambista a fim apresentar para os alunos o retrato poético e tantas vezes doloroso da industrialização de uma São Paulo que desabrochava para o crescimento acelerado. As malocas, que deixaram saudades, pois perderam espaço para a construção de um “adifícil arto”. Tempos do operário que teimava em acreditar que Deus daria o frio conforme o cobertor. 
 
Além do drama provocado pelos avanços da modernidade, pelo impacto da grande circulação de automóveis pela Avenida São João, culminando no atropelamento da Iracema, o grande amor.
 
E com caixinha de fósforos nas mãos, Adoniran aproveitava as viagens de trem para compor, criando tipos urbanos, como o Moacir, o Arnesto, o Nicola. O “Trem das Onze” estava em fase de criação quando, atravessando o bairro do Jaçanã, o poeta popular aproveitou o nome da estação para rimar com “manhã”. Ele havia achado bonito o nome.
 
Por iniciativa dos Demônios da Garoa, grupo musical com atuais 71 anos de existência, o emprego das expressões mais populares ganhou espaço e importância. A “táuba de tiro ao Álvaro” virou representativa desse estilo “narfabeto” de compor. E ganhou aceitação nacional.
 
O “trem” tem sobrevivido com dignidade quando quase não se usa mais esse meio de transporte. Certamente a maioria das pessoas que batuca, canta e dança ao som desse samba, identidade intrínseca de São Paulo, desconhece o prazer e a dor de fazer uma viagem a uma velocidade limitada diante da pressa insana que nos governa.
 
E que felicidade visceral quando, ontem, na aula de música, a professora orientou:
- “Para hoje vocês devem tomar uma decisão musical. Vocês vão escolher uma música e vão fazer um arranjo. Usem os instrumentos possíveis para o conhecimento que já têm”.
 
O nosso quinteto se formou. Conversa rápida para a escolha da música. No grupo, duas paulistanas e três manezinhas (o manezinho da ilha é o nativo de Florianópolis e que muito se orgulha das raízes e dos traços cultuais açorianos). E qual não foi a minha alegria quando as manezinhas propuseram um arranjo para Saudosa Maloca! Como nem todas sabiam cantar, eu propus o Trem das Onze. De imediato, todas sorriram e, com entusiasmo e decisão, começaram a batucar.
 
O nosso arranjo ficou lindo! Para mim, uma alegria imensa pelo reconhecimento ao autor e pela consideração com o significado daquele samba. Uma energia insuperável de saudade, respeito, admiração pela cultura e pela cidade que acolhe a todos se apoderou do meu sentimento e pensamento naquela noite.
 
Para mim, uma experiência única, encharcada de beleza, doçura e pureza. Contei a elas que esse samba já foi traduzido até para o hebraico, além do italiano, espanhol e francês. Mas a emoção foi maior que essa informação técnica.
 
Obrigada, Adoniran! De todo o coração, muito obrigada mesmo! O meio século de “Trem das Onze” ajudou a eternizar São Paulo até para aquele que jamais pisou naquele solo, carregado de sofrimento e doçura, multidão e abandono, dúvidas e busca de certezas. Desencantos e paixões. Terra de imigrantes e de todas as crenças. Terra da diversidade, da tolerância e do medo do ladrão. Terra de construções históricas delicadas! Cidade que nasceu aos pés de um colégio jesuíta! Espaço que teve que se reinventar centenas de vezes e fez com que as diferenças se abraçassem e tentassem sorrir. Cidade repleta de cultura, de ONGs, de universidades, de pluralismo das ideias e ações, onde uns tantos encontram tempo para dar o ombro a um desconhecido, no desespero da sua solidão: CVV, boa noite! São Paulo sempre arruma tempo para se dizer viva em todas as estações e em todas as temperaturas políticas. Mas nunca túmulo do samba.
 
Cabe recordar Charles Chaplin, quando dizia:
“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 10/08/2014

Vera Moratta é uma ótima descrição do famoso samba de Adonirã Barbosa(João Rubinato).

Houve um bom compositor do Rio de Janeiro chamado Vinícius de Morais que mereceu o prêmio "Noel Rosa" chamado "Palpite Infeliz".

Vinícius de Morais uma vez afirmou que "São Paulo era o túmulo do samba".

Como dizia o Adonirã Barbosa "Chora na Rampa, Vinícius de Morais".

Saudações desde Juprelle na Bélgica

AZLerose

Enviado por AZLerose - mchale326@hotmail.com
Publicado em 06/05/2014

Mas diferente dessa sua historia, aqui ela vai terminar com o meu e os nossos aplausos plá,plá,plá,plá,plá,plá,plá,plá,plá,plá,plá,plá, como também inúmeros parabéns.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 06/05/2014

Vera, meus parabéns pela homenagem e pelo lindo texto que fez relembrar o passado. Em nossas reuniões familiares esta musica sempre esteve e está presente em nosso repertório.Um grande abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 06/05/2014

Ao homenagear o grande Adoniran, Vera, vc sacudiu a poeira dos tempos. Quando vi, pela vez primeira o Adoniran Barbosa ele era, simplesmente o Barbosinha. Ele era o aluno do "Velho professor de barbas brancas", programa da Rádio Record, as 6 horas da tarde, na Quintino Bocaiuva.

Ele era formidável, depois encarnou o malandro "Zé Maloca" no grande programa da mesma Record, "O crime não conpença"

Sua maravilhosa narrativa, tem o condão insuperável, querida Vera, de deixar sua personalidade, indelevemente de dissecar as composições do Adoniram como se estivesse justificando as colocações jocosamente descritas e introduzidas nas letras. Parabéns, querida Moratta.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 06/05/2014

Vera, voce não errou apenas se enganou, e Adoniram merece sempre ser lembrado por sua arte pelo seu samba, mais uma bela homenagem a quem divulgou São Paulo e seu samba, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 06/05/2014

Como sempre um texto primoroso.

Mas gostaria de contar como cantamos aqui em casa.

Tenho um filho , o Eduardo que toca violão divinamente e quando se junta com o pai que toca baixo sempre cantam o Trem das onze, com uma pequena variação: Ao invés de cantar o quais,quais, quais...

Aqui em casa cantamos: "Fais, fais, fais, fais, fais, fais.

Fais carinho no Dú, fais carinho no Dú, fais carinho no Dú.

kkkkkkkkkkk.

Parabéns Vera.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 06/05/2014

Parabéns pelo quinteto e por esta alegria de viver tão grande...Quando era criança,lembro que nas escolas a gente aprendia clássicos das músicas para cantar em festas comemorativas durante o ano.Lembro de Lampião de Gás ,Asa Branca, Meu Ranchinho...Hoje tudo caiu no esquecimento e a realidade musical é outra...mas estas que fizeram parte de uma cultura musical ainda teimam em sobreviver.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 05/05/2014

Vera, querida irmã. Não sei se é verdade, mas eu ouvi dizer, não sei aonde que o Trem das Onze, foi composta para concorrer em um concurso musical no Rio de Janeiro, por ocasião do quarto centenário daquela cidade, e foi a música vencedora. Repito, não sei se é verdade, mas pode até ser.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 05/05/2014

Vera, parabéns por esse admirável texto, me transportou também lá para a década de 60 e eu também admiro o falecido compositor Adoniran, suas músicas são imortais e os Demônios da Garôa ainda estão aí fazendo grande e merecido sucesso, abraços, Nelinho.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 05/05/2014

São Paulo ganhou um samba com seu jeito até meio caipira de ser, onde o trem são os caminhos de sua grandeza e Adoniran deu o ritmo ideal deste modo de ser paulistano.Parabéns pela lembrança.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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